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Edição 1 750 - 8 de maio de 2002
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Noves fora, deu nisso

"Assistir a novelas era coisa de direita.
Assim como fumar maconha era de
esquerda. Agora é o contrário. Lula
chora com novela e a Europa direitista
discute a legalização da maconha"

Israel está impedindo a ONU de investigar as matanças feitas por seus soldados no campo de refugiados de Jenin. Quer esconder os mortos palestinos. No Brasil também existe a prática de esconder os mortos. De acordo com O Globo, os governos de Geraldo Alckmin e Anthony Garotinho manipularam as estatísticas de assassinatos em seus Estados. O primeiro escondeu pelo menos 37 homicídios, deixando-os de fora na hora de computar os números sobre a violência. O segundo foi ainda mais longe: expurgou todos os mortos em confrontos com a polícia e os cadáveres desovados nas ruas, reduzindo magicamente o total de vítimas em cerca de 20%.

Eu sempre suspeitei que o maior problema do Brasil era a matemática. Os números nos confundem. Na mesma semana em que vinham à tona os furos nas estatísticas sobre homicídios, outro levantamento mostrava que o programa federal de reforma agrária beneficiou muito menos gente do que é propagandeado a caro preço pelo governo. Lula também tem problemas com números. Enrolou-se todo ao propor uma alíquota máxima para o imposto de renda de 50%. Como a idéia foi mal recebida pelos eleitores, o PT imediatamente tratou de sugerir outra cifra: 40%. Depois mudou para 35%. Até que Antônio Palocci, coordenador do programa de Lula para a Presidência, explicou que aqueles 50% divulgados inicialmente eram apenas "ilustrativos". Tudo bem. Quando os fiscais de Lula me pegarem sonegando dinheiro, direi que a quantia declarada é mentirosa, mas perfeitamente "ilustrativa".

Esse novo PT é muito sem graça. Toda vez que um militante lança uma palavra de ordem socializante, logo aparece outro dizendo que é só faz-de-conta. Num dia Lula exalta Fidel Castro e o investimento público da China comunista. No outro, veste gravata italiana, tenta armar uma aliança com o Partido Liberal, apóia o ensino da Bíblia nas escolas e chora assistindo a O Clone. Como é que dá para votar em alguém que assiste a novelas? Assistir a novelas sempre foi visto como uma coisa de direita. Assim como fumar maconha sempre foi visto como uma coisa de esquerda. Agora é o contrário. Lula chora com novela, enquanto a Europa, cada vez mais à direita, cada vez mais xenófoba, discute a conveniência de legalizar o consumo de maconha. O último caso foi o da região da Lombardia, no Norte da Itália, governada por um católico ultraconservador, que aprovou o uso da maconha para fins terapêuticos. Mas o movimento é mais amplo. A Espanha descriminou a maconha. A Bélgica caminha nesse sentido. A Inglaterra seguiu o exemplo da Holanda e passou a tolerar a abertura de bares para maconheiros. Em Nova York, o prefeito republicano Bloomberg admitiu ter fumado maconha.

A eutanásia, velha bandeira das democracias liberais, também está ganhando novo impulso na Europa direitista. Outro dia um tribunal italiano inocentou um homem que, com uma arma, obrigou os médicos a desligar as máquinas que mantinham artificialmente viva sua mulher. Ninguém se escandalizou com isso. E o aborto? Muitos esquerdistas europeus temiam que, com o avançar da direita, a prática do aborto pudesse ser obstruída. Até agora, porém, nenhum governo de direita ousou meter-se nessa fria, colocando em dúvida uma conquista social de que ninguém quer abdicar. A esquerda morreu. E a direita escondeu o cadáver.

 
 
   
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