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Noves
fora, deu nisso
"Assistir
a novelas era coisa de direita.
Assim como fumar maconha era de
esquerda. Agora é o contrário. Lula
chora com novela e a Europa direitista
discute a legalização da maconha"
Israel está impedindo a ONU de investigar as matanças feitas
por seus soldados no campo de refugiados de Jenin. Quer esconder os mortos
palestinos. No Brasil também existe a prática de esconder
os mortos. De acordo com O Globo, os governos de Geraldo Alckmin
e Anthony Garotinho manipularam as estatísticas de assassinatos
em seus Estados. O primeiro escondeu pelo menos 37 homicídios,
deixando-os de fora na hora de computar os números sobre a violência.
O segundo foi ainda mais longe: expurgou todos os mortos em confrontos
com a polícia e os cadáveres desovados nas ruas, reduzindo
magicamente o total de vítimas em cerca de 20%.
Eu sempre suspeitei que o maior problema do Brasil era a matemática.
Os números nos confundem. Na mesma semana em que vinham à
tona os furos nas estatísticas sobre homicídios, outro levantamento
mostrava que o programa federal de reforma agrária beneficiou muito
menos gente do que é propagandeado a caro preço pelo governo.
Lula também tem problemas com números. Enrolou-se todo ao
propor uma alíquota máxima para o imposto de renda de 50%.
Como a idéia foi mal recebida pelos eleitores, o PT imediatamente
tratou de sugerir outra cifra: 40%. Depois mudou para 35%. Até
que Antônio Palocci, coordenador do programa de Lula para a Presidência,
explicou que aqueles 50% divulgados inicialmente eram apenas "ilustrativos".
Tudo bem. Quando os fiscais de Lula me pegarem sonegando dinheiro, direi
que a quantia declarada é mentirosa, mas perfeitamente "ilustrativa".
Esse novo PT é muito sem graça. Toda vez que um militante
lança uma palavra de ordem socializante, logo aparece outro dizendo
que é só faz-de-conta. Num dia Lula exalta Fidel Castro
e o investimento público da China comunista. No outro, veste gravata
italiana, tenta armar uma aliança com o Partido Liberal, apóia
o ensino da Bíblia nas escolas e chora assistindo a O
Clone. Como é que dá para votar em alguém que
assiste a novelas? Assistir a novelas sempre foi visto como uma coisa
de direita. Assim como fumar maconha sempre foi visto como uma coisa de
esquerda. Agora é o contrário. Lula chora com novela, enquanto
a Europa, cada vez mais à direita, cada vez mais xenófoba,
discute a conveniência de legalizar o consumo de maconha. O último
caso foi o da região da Lombardia, no Norte da Itália, governada
por um católico ultraconservador, que aprovou o uso da maconha
para fins terapêuticos. Mas o movimento é mais amplo. A Espanha
descriminou a maconha. A Bélgica caminha nesse sentido. A Inglaterra
seguiu o exemplo da Holanda e passou a tolerar a abertura de bares para
maconheiros. Em Nova York, o prefeito republicano Bloomberg admitiu ter
fumado maconha.
A eutanásia, velha bandeira das democracias liberais, também
está ganhando novo impulso na Europa direitista. Outro dia um tribunal
italiano inocentou um homem que, com uma arma, obrigou os médicos
a desligar as máquinas que mantinham artificialmente viva sua mulher.
Ninguém se escandalizou com isso. E o aborto? Muitos esquerdistas
europeus temiam que, com o avançar da direita, a prática
do aborto pudesse ser obstruída. Até agora, porém,
nenhum governo de direita ousou meter-se nessa fria, colocando em dúvida
uma conquista social de que ninguém quer abdicar. A esquerda morreu.
E a direita escondeu o cadáver.
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