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"Os brasileiros são muito bons, muito criativos. O problema é que sofrem de falta de auto-estima" |
O inglês Martin Sorrell, de 57 anos, tornou-se uma lenda no mundo dos negócios. Em 1985, aos 40 anos, largou o emprego no setor financeiro de uma agência de publicidade para comprar a WPP, uma empresa de cestas de supermercado. Funcionava numa saleta apertada no centro de Londres e tinha dois empregados. Dezesseis anos depois, Sorrell viu-se dono de um império na área da propaganda. A WPP é hoje a maior empresa de marketing do mundo. Ele tem 45 agências de publicidade entre as quais a Ogilvy, a J.W. Thompson e a Young & Rubicam, que estão entre as maiores do Brasil e do mundo , mais 35 empresas de marketing e pesquisa, com faturamento anual de 70 bilhões de dólares. Nos 1 400 escritórios espalhados por 103 países trabalham 67 000 funcionários. Sorrell é membro da diretoria da Nasdaq e diretor da London Business School e, há dois anos, recebeu o título de sir. Seu estilo de trabalhar causa polêmica. Odeia funcionários competitivos, premia quem trabalha em equipe e diz que o stress é essencial para quem deseja ficar rico. "Se você quiser vencer, esqueça a qualidade de vida", diz. Ele esteve recentemente no Brasil para sondar a possibilidade de comprar agências de publicidade por aqui. Sorrell concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Qual é a chave do sucesso?
Sorrell
Há dois pontos essenciais para crescer hoje em dia. Primeiro, ser
criativo na execução. Os administradores atuais precisam
ter imaginação, não importa qual seja o negócio.
Todos os setores estão mais competitivos e os clientes, mais exigentes.
As grandes indústrias produzem mais do que deveriam. A automobilística
fabrica anualmente 70 milhões de carros para 50 milhões
de consumidores. Quem não tem criatividade para conquistar o cliente
está morto. Segundo, é preciso saber como fazer, planejar
e dedicar o maior tempo possível ao negócio. Se quiser vencer,
seja uma mãe para sua empresa. Quem trabalha oito horas por dia
nunca vai ficar rico.
Veja O senhor já está rico. Ainda se comporta
como uma mãe para a WPP?
Sorrell
Sem
dúvida. Sou rico, mas não sou invencível. Qualquer
deslize e pronto: volto para uma salinha com dois funcionários.
Por isso dedico 150% de meu tempo ao trabalho, como fazia no início
da WPP. Meu dia se resume a acordar, ler os noticiários de economia,
encontrar-me com um executivo no café da manhã para falar
de negócios, ir para o escritório, ter um almoço
de negócios, voltar para o escritório, ter um jantar de
negócios, ir para casa. Há quem se assuste, mas isso nunca
me impediu de ter ótimo relacionamento com minha família.
Meus três filhos estão crescidos e tenho um cachorro que
precisa passear. Nos fins de semana, estou sempre ligado no que acontece.
Se vou a um cinema, penso como esse filme pode ajudar em meu trabalho.
Faço o mesmo em teatros, nos parques. É no dia-a-dia que
vejo o que o consumidor quer, como ele vive, que me aproximo da realidade.
Veja A maioria das grandes empresas hoje procura unir eficiência
com qualidade de vida. O senhor não concorda com isso?
Sorrell
A questão da qualidade de vida é uma grande bobagem. É
uma válvula de escape para quem não está contente
com a vida que tem. Nada é estressante quando se faz aquilo de
que se gosta. Eu gosto do que faço e quero que meus funcionários
gostem também. Caso contrário, eles não servem. Para
mim, o que se chama qualidade de vida é sofrimento. Hoje temos
a obrigação de nos divertir, de ler nos fins de semana,
de ver todos os filmes em cartaz. Na minha opinião, o stress do
trabalho é menos prejudicial à saúde que a superficialidade
e a culpa da chamada qualidade de vida.
Veja O senhor jamais criou um anúncio, mas tornou-se
dono de um império da propaganda. Como isso foi possível?
Sorrell
Se
dissesse que planejei ter uma empresa do tamanho que hoje é a WPP
estaria mentindo. Mas quando comprei a WPP não fiz nenhuma loucura,
sabia o que queria. Não estava interessado em fazer cestas. Tinha
trabalhado no departamento financeiro da Saatchi & Saatchi e sabia
que publicidade poderia ser um negócio muito mais rentável,
se bem gerenciado. Procurei no mercado uma empresa com ações
desvalorizadas, mas com chances de crescer. Digo que a WPP das cestas
foi o trampolim para formar a WPP do marketing. Usamos a companhia para
comprar nossa primeira agência, e assim por diante. Meu negócio
não é criar, é administrar a criatividade.
Veja O senhor realmente pretende comprar uma agência
brasileira?
Sorrell
Não
posso dizer nada por enquanto, mas é uma possibilidade. Há
interesse tanto da WPP quanto das agências. O mercado de publicidade
está se internacionalizando. Quem não se associa cresce
apenas até um patamar. Pára de crescer. De nossa parte,
vale dizer que o Brasil é um dos melhores lugares para investir
hoje. Trata-se de um mercado promissor, pois faz parte de um grupo de
países que crescem rapidamente. Há já quatro anos
decidi investir na Ásia e na América Latina por esse motivo.
Compramos empresas na Argentina, Tailândia, China e em Taiwan. Hoje
somos a número 1 na China, na Índia e no Japão. Espero
ser a número 1 no Brasil.
Veja Como o senhor avalia a publicidade brasileira?
Sorrell
Os brasileiros são muito bons. O Brasil tem profissionais com muita
criatividade. Há agências independentes de grupos estrangeiros
que são extremamente eficientes. O problema dos brasileiros é
que sofrem de falta de auto-estima. Não me esqueço de um
episódio ocorrido algum tempo atrás que me deixou intrigado.
Alguém perguntou ao goleiro do São Paulo, Rogério,
quais eram as chances do Brasil na Copa do Mundo. A resposta não
foi enfática. Ele disse que talvez, quem sabe. Não é
exatamente o que podemos chamar de otimismo. O Brasil é bom no
futebol, também é bom na publicidade. Falta otimismo aos
brasileiros.
Veja O senhor diz que quanto maior a empresa maiores os problemas.
Qual o segredo para manter uma empresa de grande porte?
Sorrell
É
muito difícil. Quando você tem um negócio grande,
a possibilidade de ele se tornar um elefante branco é imensa. Por
isso faço questão de manter a personalidade de cada uma
de minhas empresas. É uma fórmula certeira, que serve para
mim ou para o dono de uma gráfica. Se ele imprimir três jornais
diferentes para públicos diferentes, seus riscos de quebrar são
bem menores. O mesmo ocorre com uma grande loja. Se crescer demais, o
melhor a fazer é virar uma loja de departamentos e oferecer várias
marcas aos clientes. Se você não agrada a um, agrada a outro.
Mais uma coisa importante: não se deixe iludir. Foi exatamente
isso que aconteceu comigo quando estive perto de falir. Os bons tempos
nunca duram para sempre.
Veja O gigantismo não pode levar à perda de
qualidade?
Sorrell
Depende. Não adianta crescer. É importante que as empresas
saibam crescer com eficiência. No meu caso, não quero ser
o maior, quero ser o melhor. Para isso é necessário investir
na diferenciação. Trabalhar com vendas, seja qual for o
produto, não é uma atividade industrial, como produzir carros.
Você tem de saber o que seu consumidor quer, vender a ele algo que
não se esgote no produto em si. Tem de dar às pessoas a
sensação de que elas vestem o que são, que dirigem
o carro que combina com seu estilo de vida. Não é fácil.
Tratamos com o elemento humano, que muda a cada dia. Para conseguir isso,
devemos investir na capacitação humana, encontrar boas pessoas,
treiná-las e motivá-las
Veja O que pesa mais na hora de contratar esse bom funcionário?
Currículo ou experiência?
Sorrell
Tento encontrar alguém preparado do ponto de vista do conhecimento,
mas que tenha as qualidades de um operário: que seja companheiro,
persistente, que goste de trabalhar duro. São poucas as pessoas
que conseguem reunir essas características. Há quem se prepara
demais, do ponto de vista acadêmico, e não quer pegar no
pesado. E há quem trabalha muito, mas fica defasado por não
se aprimorar. Ao contrário de alguns colegas, considero os mestrados
em negócios, os MBAs, muito importantes. Não acho exagero
afirmar que se trata de uma das razões de as empresas americanas
serem tão poderosas. Centenas de milhares de MBAs são concluídas
por ano nos Estados Unidos. Trata-se de um país jovem, onde os
investidores põem dinheiro nas universidades porque sabem que haverá
um retorno.
Veja Os melhores de sua companhia sempre recebem prêmios.
O incentivo é importante?
Sorrell
Para uma empresa crescer, os funcionários têm de se sentir
donos da empresa. Percebi isso com o tempo e com a experiência de
empregos anteriores. Não adianta só pagar o salário.
O funcionário acaba se menosprezando, se sente um dependente de
um grande czar. Por isso, faço questão de reservar 20% dos
lucros para as bonificações. A maioria delas é feita
na forma de ações, outra parte em dinheiro. No momento,
15% das ações de minha companhia estão nas mãos
de 15 000 funcionários. O valor da empresa está estimado
em 30 bilhões de dólares. O único cuidado com o programa
de incentivos é acirrar a competição. Em qualquer
empresa a competição predomina. Eu não acho isso
interessante para o andamento do negócio. Um funcionário
bom e muito competitivo pode minar outro, tão talentoso quanto
ele. Por isso, premio aqueles que trabalham em equipe.
Veja O senhor costuma dizer que é mais difícil
lidar com os consumidores de hoje. Por quê?
Sorrell
Os consumidores estão se tornando cada vez mais poderosos. Desde
que a internet surgiu, a forma de tratar o consumidor mudou. A web dá
às pessoas informação gratuita como elas nunca tiveram,
aumenta o poder de interpretação. Digo que a web é
a coisa mais socialista, comunista e anarquista que já foi criada
porque dá informação de graça. Pode mostrar
que aquilo que você aprendeu estava errado, desperta o senso crítico.
Quanto maior o senso crítico, maior a exigência do consumidor
e maior o nosso trabalho.
Veja O que o senhor faz para saber o que o consumidor quer?
Sorrell
Faço
o que todos os presidentes de grandes companhias ou donos de grandes redes
de lojas deveriam fazer. Os CEOs são uns solitários, vivem
em bolhas, são pessoas isoladas. As pessoas que sabem, que têm
a informação, estão na base da empresa. Quando posso,
visito uma companhia, falo com as pessoas. Se não, cumpro minha
rotina. Toda semana mando 2 000 e-mails para funcionários explicando
a situação da empresa e pedindo sugestões. Todas
as mensagens de resposta são lidas. Outra maneira de me aproximar
dos consumidores são os institutos de pesquisa. Gasto 1 bilhão
de dólares por ano para saber o que o consumidor da China, da Europa
ou da América Latina quer. O importante é ter a conexão,
mesclar a informação estatística com a conversa dos
empregados.
Veja O senhor diz que propaganda convencional não
é suficiente. De que uma empresa precisa para conquistar um cliente?
Sorrell
Todos os consumidores têm posições muito claras sobre
meio ambiente, esporte, cultura. Vincular a empresa a eventos culturais,
esportivos é uma forma de se aproximar desse consumidor. Mostrar
que ela está preocupada com o planeta em que você vive é
imprescindível. A Shell, por exemplo, aumentou o número
de clientes com o patrocínio de campanhas de preservação.
Outro exemplo é a fábrica da Ford na Bahia. Foram criadas
dezenas de milhares de empregos, a renda da cidade aumentou, há
mais escolas sendo construídas. Com isso vêm a cultura, o
entretenimento, o teatro. Todas essas coisas melhoram a imagem da empresa
perante o consumidor. A tendência mais forte do mundo dos negócios
é a confiança. As empresas que crescem hoje são aquelas
em que o consumidor confia.
Veja O senhor é conhecido por ser um entusiasta do
estilo americano de fazer negócios. Por quê?
Sorrell
Evitar os Estados Unidos é uma grande bobagem. O mundo não
está se tornando globalizado, está se tornando americanizado.
Em muitas indústrias, os Estados Unidos representam 50% do mercado.
Mais importante que isso: mais da metade de qualquer atividade econômica
é controlada, ou pelo menos influenciada, pelos Estados Unidos.
Mais de dois terços dos negócios de propaganda e serviços
de marketing estão concentrados nesse país.
Veja Além de homem rico, o senhor passou a fazer parte
da nobreza britânica. Isso mudou seu estilo de vida?
Sorrell
Ao
contrário de muitos homens de negócios, odeio ostentar.
Sou uma pessoa simples, não cultivo nenhum hobby. Tenho um Jaguar,
mas isso é bem comum na Inglaterra. Moro numa casa comum, tenho
uma casa na França e um flat na Suíça, onde vou esquiar
no inverno, quando o trabalho permite. Uma vida simples.
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