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Gustavo
Franco
A
segunda revolta
"No
Brasil parece haver gente que acha
que, quanto mais se paga de imposto,
mais rico fica o país, bastando o governo
gastar o dinheiro de forma correta no
desenvolvimento e no social"
Ilustração Ale Setti
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O Brasil não teve propriamente sua fundação associada
a uma revolta de setores úteis e produtivos da sociedade contra impostos
criados por colonizadores de mentalidade extrativista. As elites estrangeiras
seriam substituídas pelas locais, sem transformação
econômica relevante. Por isso, a máxima dos revolucionários
americanos "não à taxação sem representação"
não pertence a nossa cultura.
O tamanho do Estado, ou a carga tributária entendidos como
a despesa, ou a receita, do governo como porcentagem do PIB , cresceu
continuamente no mundo inteiro, especialmente no século XX. Para
um conjunto de dezessete países desenvolvidos, esse número
passou de uma média de 12,7% do PIB em 1913 para 27,9% em 1960
e em seguida para 45,6% em 1996. O acréscimo no primeiro período
pode ser atribuído às guerras e à Depressão.
O do segundo reflete o fenômeno conhecido como o estado do bem-estar
social, ou a notável expansão dos gastos sociais, e conseqüentemente
da carga tributária, em países ricos.
Devemos ter cuidado com o mau uso desses números. A experiência
dos ricos não deve comportar a leitura de que a carga tributária
no Brasil pode ser de 45,6%, bastando vontade política, como acreditam
alguns tontos. Mais sensato é observar que, quando os países
ricos tinham renda per capita do tamanho da nossa, sua carga tributária
era muito menor, e provavelmente muito menor que a nossa hoje, que está
em cerca de 34% do PIB. Ou seja, existe uma relação positiva
entre os impostos e a riqueza, mas o leitor deve refletir sobre o que
vem primeiro.
É
plausível supor que a disposição bem como a capacidade
da sociedade em pagar mais impostos cresçam com o nível
de riqueza, e não o contrário. No Brasil parece haver gente
que acha que, quanto mais se paga de imposto, mais rico fica o país,
bastando o governo gastar o dinheiro de forma correta no desenvolvimento
e no social.
A experiência brasileira é meio singular nesse domínio,
pois o desenvolvimento parece estacionar justamente quando se observa
um aumento brutal na despesa pública, e na carga tributária,
na segunda metade dos anos 80. O leitor jamais deve esquecer que a inflação
funciona como um imposto o Estado aufere "receita" por abusar da
capacidade de pintar pedaços de papel que passam a valer mais que
o custo da pintura e foi essa a "carga tributária" que cresceu
explosivamente nesse período até 1994.
Com efeito, a primeira e única revolta nacional contra impostos
criados "sem representação" foi a mobilização
da sociedade contra a inflação, ou mais precisamente contra
o "imposto inflacionário", para o qual, sem dúvida, jamais
houve lei autorizadora. Mesmo assim, não foi exatamente uma revolução,
inclusive porque até hoje não se sabe quem são os
inimigos, os criadores de inflação, que tanto mal fizeram
ao país e que jamais se sentaram numa CPI ou foram investigados
pelo Ministério Público.
Passados alguns anos da estabilização, vê-se que o
governo conseguiu substituir o "imposto inflacionário" por impostos
convencionais, aprovados pelo Congresso Nacional. Fica claro também
que parece haver uma segunda revolta em gestação, pois há
desconforto generalizado com o tamanho da carga tributária. Existe
irritação também com o cardápio de impostos
que temos, muitas vezes chamado de "manicômio tributário",
e mais ainda com a mentalidade dos políticos, que parecem achar
que o dinheiro nas mãos do Estado é bem gasto, no social
e no desenvolvimento, e que nas mãos do setor privado é
invariavelmente mal utilizado, em consumo supérfluo e em importações.
Eu diria que é fortemente decrescente o número de pessoas
que acham que o governo gasta dinheiro de forma mais produtiva, inteligente
e socialmente útil que o setor privado. E que o país está
pronto para acolher políticos que não apenas mostrem que
sabem o que é "responsabilidade fiscal", descoberta recente para
muitos, mas que também tenham a coragem de propor cortes em impostos
e extinção simultânea de atividades, vale dizer, de
despesas, do Estado. Talvez seja pedir demais a nossa classe política.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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