A ameaça do projeto
Sérgio Naya de país

Com a legalização do jogo, ora em
tramitação no Senado, ficaremos um
pouco mais parecidos com o Paraguai

Sérgio Naya está perdendo de um lado, no Congresso, mas está ganhando de outro. Está perdendo seu mandato, pelo jeito, nas instâncias que o julgam por falta de decoro, mas está ganhando, silenciosamente, numa outra arena — não ele, não Sérgio Naya propriamente dito, não, em carne e osso, o homem dos prédios da Barra da Tijuca, mas o que ele significa, sua família político-empresarial, digamos, ou, mais propriamente, o biotipo Sérgio Naya. Este está a caminho de uma vitória.

Tal perspectiva surge do projeto de legalização dos cassinos — e, de quebra, do jogo do bicho — ora em tramitação no Congresso. Já passou pela Câmara, quase sem chamar a atenção. Passou pela Comissão de Justiça do Senado. Agora está na Comissão de Economia, e em seguida só lhe restará o plenário. Não fosse o senador José Serra, que, como presidente da Comissão de Economia, até a véspera de virar ministro da Saúde, passou a dar entrevistas e publicar artigos contra o projeto, e ele continuaria numa caminhada convenientemente discreta, quase por baixo do pano. Um dia poderíamos acordar com os cassinos à nossa porta.

Deixemos de lado os argumentos morais, complicados e subjetivos. Fixemo-nos, para começar, na tecla em que Serra vinha batendo — a econômica. Um brasileiro radicado nos Estados Unidos, o economista Ricardo Gazel, que já trabalhou na Universidade de Nevada — bem ao lado dos cassinos de Las Vegas — tem pesquisado o assunto, com colegas americanos como William Thompson e Dan Rickman. Suas conclusões são de que os custos que o jogo provoca não compensam os benefícios. Os defensores dos cassinos argumentam que eles trazem riqueza para as áreas onde se estabelecem, criam empregos e, com os impostos, reforçam o caixa do Estado. Os estudos de Gazel e companheiros, muito atuais nos Estados Unidos, onde, a partir de 1990, mais de duas dezenas de Estados passaram a permitir cassinos, rompendo o monopólio de Nevada e Nova Jersey, indicam que esses benefícios são menores do que os custos.

A primeira ordem de custos trazida pelo jogo é a social. Jogo faz aumentar desde a abstinência ao trabalho até os delitos, passando pelos problemas de saúde. Segundo os estudos do economista brasileiro, se na população em geral o número de jogadores compulsivos não passa de 1% do total, nas áreas expostas à influência dos cassinos pode chegar a 5%. Jogador compulsivo, aquele que não sabe e não pode parar, é uma pessoa mais inclinada do que outras a faltar ao trabalho, pedir emprestado e não pagar ou mesmo furtar e praticar atos de violência. Pesquisas de Gazel em áreas do Estado do Wisconsin onde foram implantados cassinos revelam um aumento de 6,7% de crimes graves — assassinatos, estupros, assaltos a mão armada.

Os custos sociais, englobando setores como segurança e assistência médica, além dos aparelhos judiciário e penitenciário, recaem sobre o Estado. Uma segunda ordem de custos vai para o mercado — aquela inerente ao efeito canibalizador dos cassinos sobre outras atividades econômicas. Em Atlantic City, Nova Jersey, onde o jogo foi legalizado em 1978, 50% dos restaurantes haviam desaparecido dez anos depois. Foram vencidos pela comida de graça servida nos cassinos. Quem gasta no jogo deixa de gastar em outras áreas. Conclui outro estudo de Gazel e companheiros, também realizado no Wisconsin: "O efeito de canibalização de outros negócios está presente especialmente no setor de gêneros alimentícios e no comércio varejista".

Mas suponhamos que essas conclusões estejam equivocadas, ou que no Brasil não se repitam. Suponhamos que, aqui, os cassinos gerem mais benefícios do que prejuízos, sob o ponto de vista econômico. Ainda assim, sobra uma outra classe de argumentos contra o jogo. É nesse ponto que entra o biotipo Sérgio Naya. É quando se pensa na questão sob o seguinte ângulo: que país queremos? Queremos um país de empresários gênero Sérgio Naya? Como estamos no terreno da especulação, é até possível que o jogo venha a ser operado por uma classe empresarial séria e conseqüente, mas sejamos realistas: por tudo o que sabemos, do país e da atividade econômica em tela, o provável é que os empresários do setor venham a ser mais parecidos com Sérgio Naya.

Que empregos queremos? Esta é outra face da questão "que país queremos". É até possível, já que continuamos especulando, que os cassinos venham a oferecer um ambiente, não santo quanto um convento, mas, digamos, neutro como o de um shopping center. O realismo sugere, no entanto, que os empregos estarão perigosamente perto do perigo — o perigo do tráfico, da lavagem de dinheiro, da prostituição. É esse o país que queremos? Fala-se em cassinos, e a alguns talvez ocorra o glamour de Monte Carlo, as princesas de Mônaco incluídas. Dadas as nossas condições, no entanto, o provável é que fiquemos um pouco mais parecidos do que já somos com o Paraguai, onde a roleta rola livre, brilha o pano verde, e as condições econômicas e sociais são o que são.




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