Horror, o horror

O alemão Kiefer destroça a paisagem paulistana

São Paulo: crítica a uma
cidade convertida em
deserto estéril e cinzento
Foto: Margrit Olsen  

Não deu nos jornais, mas uma hecatombe atômica arruinou a cidade de São Paulo. As provas da tragédia — ou melhor, da farsa pictórica do alemão Anselm Kiefer — podem ser vistas na capital paulistana em duas exposições. Grandiosa para padrões nacionais, a primeira das duas mostras de Kiefer, aos 52 anos o principal artista europeu de sua geração, permanece em cartaz até o dia 24 de maio, no Museu de Arte Moderna, com 48 obras entre pinturas, esculturas e xilogravuras. A segunda mostra, com treze obras de formato menor, vai até o dia 30 de abril, na galeria Camargo Vilaça. Ali, as obras do artista — pinturas, colagens com fotos, pedaços de roupa, plantas e fios de cabelo — custam entre 60.000 e 220.000 reais. No mercado internacional, seus maiores quadros, com mais de 3 metros de comprimento, alcançam a marca dos 600.000 dólares cada um. Graças a suas cotações, Kiefer leva uma vida confortabilíssima. Com sua segunda mulher, Renate, ocupa um casarão secular em Barjac, cidadezinha francesa célebre por suas sedas.

O tema das exposições de Kiefer é a cidade de São Paulo, onde o artista esteve pela primeira vez em 1987 para participar da Bienal. Misto de musa e vítima, a cidade retratada pelas lentes de Kiefer é um deserto calcinado, com as vísceras dissecadas e expostas — o retrato do horror. Vista a partir de fotos em preto-e-branco, tiradas por ele mesmo de helicóptero numa segunda visita à cidade, no ano passado, São Paulo é comparada pelo pintor à personagem bíblica Lilith. De acordo com o Velho Testamento, Lilith foi a primeira mulher de Adão, que, além de abandoná-lo, era uma destruidora de bebês. Da alma feminina paulistana restam vestidos de boneca grudados no quadro, à maneira dos destroços de um acidente aéreo. Conforme nota o crítico Alberto Tassinari, a grandeza dos trabalhos do alemão sobre São Paulo está na crítica impiedosa que eles fazem à destruição permanente de um lugar supostamente partidário do progresso e da riqueza. "Há poucas obras tão penetrantes e ausentes de exotismo na arte brasileira e que tenham o Brasil como tema", diz ele.

Kiefer é um dos raros sobreviventes da ressaca que se abateu sobre o mercado de arte contemporânea no início da década e cuja maior vítima foi o pintor americano Julian Schnabel, antes uma celebridade cujos quadros, de um narcisismo oco, chegaram a valer centenas de milhares de dólares. Kiefer, que andou sumido por algum tempo nos anos 90, conseguiu manter-se à tona por saber manejar talentosamente objetos e símbolos, equilibrando-se num terreno pantanoso, na fronteira entre a farsa e a tragédia, o pessimismo e a desfaçatez. Tal receita já soou bastante indigesta para o paladar alemão, quando nos anos 70 e 80 o pintor resolveu cutucar a ferida do nazismo a partir da mitologia germânica, com seus pincéis e materiais insólitos. A reação dos conterrâneos a sua obra levou o pintor a deixar o país.

Angela Pimenta




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