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| Foto: 20th Century Fox |
| Sigourney
Weaver nos braços da alien rainha: fortes simbologias |
Vida de alien não é fácil. Eles se reproduzem como coelhos e são ferozes como carcarás, mas sempre acabam metralhados, esmagados ou queimados vivos pelos humanos. Nada menos de 67 deles foram para o espaço nos três primeiros filmes da série Alien. Outros quinze são eliminados no novo episódio, Alien A Ressurreição (Alien Resurrection, Estados Unidos, 1997), que estréia nesta quinta-feira em circuito nacional. Como de hábito, à frente da matança está a tenente Ellen Ripley (Sigourney Weaver). Ela combate os monstros gosmentos desde 1979, quando estreou o primeiro Alien, que logo se tornaria um clássico da ficção científica. Mas é um engano pensar que A Ressurreição é apenas um caça-níqueis que aproveita o sucesso dos filmes anteriores. A série Alien é uma raridade na produção atual de Hollywood mesmo no quarto filme, não mostra sinais de desgaste, não virou autoparódia. Cada um dos quatro episódios foi entregue a um diretor (James Cameron, de Titanic, pilotou o segundo), resultando em fitas muito diferentes entre si.
Quem assistiu a Alien 3 deve estar-se perguntando: como pode Ripley estar de volta numa nova história se ela se suicida no final daquele filme? Através do mesmo truque que permitiu a Steven Spielberg trazer os dinossauros para os dias de hoje. A Ripley de A Ressurreição é na verdade um clone. O DNA da tenente foi retirado de seu corpo e congelado logo depois de sua morte. Agora, passados 200 anos, estamos lá pelo século XXIV e um grupo de cientistas vilões, que trabalha numa imensa nave espacial, "ressuscita" Ripley. Dessa forma, eles conseguem reviver a alien rainha que ela hospedava no peito ao morrer, e assim trazer de volta a espécie, então extinta. A Ressurreição é assinado pelo diretor francês Jean-Pierre Jeunet, o mesmo de Delicatessen e Ladrão de Sonhos. Jeunet optou por carregar a mão nos monstros. Nos outros três episódios da série, eles eram sempre mostrados a distância ou em rápidos closes. No caso do segundo, só da metade para o final se tem idéia da feiúra dos bichos. No novo filme, a anatomia dos aliens é mostrada demoradamente, em todos os detalhes. Nunca se viu na tela tanta baba e tanta gosma. E mais: toda uma nova comunidade de aliens, diferentes daqueles dentuços e cabeçudos, ocupa os esforços da tenente Ripley. Têm aspecto quase humano e são de arrepiar.
Mas, afinal, por que a série Alien faz tanto sucesso mesmo depois de quatro episódios? Grande parte desse êxito se deve ao fato de que as histórias e personagens dos filmes carregam fortes simbologias. No primeiro, o ser asqueroso parece corporificar a semente do mal que toda pessoa traz dentro de si. Em Alien 2, tanto o monstro rainha quanto Ripley brigam não para defender a própria pele, mas para salvar a vida de suas crianças. Traduz-se na tela o sentimento universal e instintivo da proteção materna e é isso que dá força à narrativa. No filme seguinte, a colônia penal onde a trama se desenrola é claramente uma encenação do inferno com direito a fogo, fumaça e galerias intermináveis, em que almas penadas ficam à deriva, procurando uma saída que não existe. É isso que torna o filme tão angustiante. Os próprios aliens, por sua estampa, índole predadora e traiçoeira e capacidade de multiplicação, são encarnações do demônio bastante próximas daquelas que se vêem na literatura e na iconografia medievais.
Em todos os filmes também circulam andróides absolutamente idênticos aos seres humanos sua presença sugere que a tecnologia poderá avançar tanto a ponto de tirar da natureza a hegemonia na produção da vida. Sobre todas essas ameaças e imagens angustiantes reina a tenente Ripley, sempre pronta a eliminar o perigo e colocar as coisas em seus devidos lugares. Ripley não é uma heroína qualquer ela representa a vitória do homem, de sua razão, emoção e religiosidade diante do perigo de enfraquecimento desses valores. A Ressurreição é particularmente pródigo em simbologias desse tipo. Mesmo em forma de clone o roteirista admite em entrevistas que era o único recurso possível para explicar sua volta às telas , Ripley age com integridade o tempo inteiro. Elimina com um maçarico gigante uma série de clones defeituosos criados pelos cientistas (entre eles, um com seu próprio rosto) e, dessa forma, parece redimir o gênero humano. Também mata um monte de aliens, mas, no caso de um deles, que tem formas quase humanas porque foi gerado a partir de seu útero, chora copiosamente ao fazê-lo o sentimento materno fala mais alto. São esses detalhes que atraem tantos espectadores aos episódios de Alien, e que fazem da série bem mais que um punhado de produções de terror espacial.
Copyright © 1998, Abril
S.A. |