A SOLIDÃO DO NÃO SABER

Medo e criatividade — as duas marcas da
população analfabeta nos grandes centros urbanos

Dorrit Harazim

Fotos: Claudio Rossi
Por trás de uma prosaica carta cheia de saudade para Inhapi há todo um Brasil migrante de semi-analfabetos que se ajudam, se apóiam, progridem e aprendem a viver na cidade grande

— Comadre, estou precisando escrever uma carta para a minha mãe, lá no Norte.

A miúda Francisca, que não sabe escrever, e a corpulenta Sofia, que fez até a 4ª série, são comadres de Inhapi, Alagoas. Levam a vida média dos 3,5 milhões de nordestinos que moram na região metropolitana de São Paulo. Elas se entendem sem precisar falar muito. Numa tarde recente de domingo, instaladas na laje superior do sobrado de uma delas, na periferia de Ermelino Matarazzo, Zona Leste da capital, Sofia e Francisca dão início a uma comunicação silenciosa, de fina sintonia. "Graças a Deus, ninguém precisa me dar assunto, não. Deus me livre!", orgulha-se Sofia, a escrevedora, ao contar que ninguém precisa ditar-lhe o que quer ver escrito. "Eu já sei o que colocar, faço tudo sozinha. Só homem é que não me pede para fazer carta, acho que é porque eles têm cisma de não saber escrever." Sofia tem seus pruridos. "Não gosto de caderno pequeno, só de caderno universitário. Preencho um lado todinho e depois o outro — sempre tem muito assunto para botar em carta."

De fato. Sem que a comadre Francisca precise dizer mais nada, Sofia ajeita na coxa o caderno de espiral, concentra-se e não levanta mais a cabeça. Num ritmo contínuo, fluvial, vai preenchendo linha por linha, frente e verso, tudo sem pontuação. Acrescenta um inspirado Vire a carta, mas não o pensamento, no pé da primeira página. Ao final de quinze minutos, pára e anuncia que vai ler, para a comadre ter certeza de que a carta ficou ao gosto. Começa uma leitura sincopada, de repentista, com interpretação: Saudade da minha querida mamãe que está tão distante....peço uma bênção para eu ser bem feliz na vida...mamãe, eu não durmo só pensando na senhora e na tia... No meio da leitura, a escrevedora lembra da própria mãe, do pai — "ele sumiu, foi muito ingrato com nós todos, mas é meu pai e está vivo, então dá saudade" — e sua voz vai amiudando, os olhos transbordando. De mansinho, Sofia começa a chorar em cima de uma carta que nem sequer é sua. Chora de saudade, saudade da vida, saudade de tudo. Francisca, sentada a seu lado, chora junto, e forte. Sofia retoma a leitura. Um instante, dona Luiza... termino por falta de assunto... Ao final, dobra a folha com precisão milimétrica, para fazê-la caber num envelope, endereçado com um Vai para Senhora Luiza Terreza da Conceição.

Se tudo correr bem, a carta chegará em três, quatro dias, entregue pelo carteiro de Inhapi, que não sabe ler. Será recebida com a cerimônia devida. "O envelope, sozinho, já produz alegria imediata, sorriso", atesta o padre Valdiran Santos, também alagoano, mas de Arapiraca, igualmente migrado para São Paulo, ele mesmo escrevedor de cartas para pelo menos cinqüenta famílias nordestinas da capital. Roliço e bem-humorado, padre Valdiran, de 35 anos, conta que celebrou missa em Juazeiro do Norte, em outubro passado, para 1.530 romeiros nordestinos. Ao perguntar se alguém, ali, tinha parente em São Paulo, a igreja em peso levantou a mão. Destes, a grande maioria terá migrado sem as ferramentas básicas de alfabetização para funcionar numa cidade grande. "O analfabeto é visto, por eles mesmos, como um cego que tem de ser guiado, acompanhado", constata o padre alagoano. "É como um passarinho que tem de receber alimentação no bico. A primeira vez que ele se arrisca a sair voando sozinho é como cair num precipício." Existe todo um código para eludir a condição do analfabeto. "Não quero que meus filhos sejam cegos como eu" (= não sei ler), "Minha filha não vai ser sofrida" (= minha filha estuda), "Estou com saudade da mãe, nunca mais tive notícia" (= o senhor escreveria uma carta para mim?). "Dora", o personagem interpretado por Fernanda Montenegro no magistral filme Central do Brasil, de Walter Salles (veja crítica ), levantaria meio supercílio em tom de reprovação com o caldo de solidariedade, esperança, fé, partilha, acolhida, tempo para ouvir o outro e instinto de sobrevivência que torna o migrante um desbravador na cidade grande.

O analfabetismo adulto, da mesma forma que a loucura, é definido pela sociedade de acordo com sua época, seu tempo. Hoje em dia, pelos critérios deste final de século, um em cada cinco adultos dos Estados Unidos e da Europa pode ser considerado analfabeto funcional. Ou, um "iletrado", expressão que diferencia o analfabeto absoluto daquele que não tem o padrão mínimo de conhecimento para operar na sociedade construída sobre a escrita.

Fotos: Antonio Milena    
São Paulo em dois tempos: cartas escritas por voluntários embaixo de um viaduto e o sucesso de Cida

A própria necessidade de conhecimento varia de acordo com cada sociedade, e por isso não há critério universal para designar pessoas com dificuldade de adequação ao dia-a-dia. Dependendo do país, os critérios mudam. Na Polônia e no Canadá, por exemplo, é considerado funcionalmente analfabeto todo adulto com menos de oito anos de escolaridade. Na Suíça, o fato de um quarto dos efetivos do Exército não saber calcular uma porcentagem é um dado alarmante. No Canadá, 44% da população jamais escreveu uma carta de mais de uma página e 77% nunca pôs os pés numa biblioteca. Visto que a aquisição de conhecimento é um processo cumulativo, quanto mais alto o patamar inicial, mais alto se chega. É o que os especialistas em educação chamam de síndrome de São Mateus: como na Bíblia, os melhores se tornam melhores, e os mais fracos, mais fracos ainda. A escrevedora Sofia, por exemplo, que jamais leu um livro, tem uma Bíblia em casa mas não consegue avançar na sua leitura, por demais complicada. A própria Francisca procurou socorro no Telecurso 2000. Também não deu. "Eu estudava de dez a quinze minutos, mas as explicações são muito rápidas. Aprendi os números e algumas letras. Mas as letras eram difíceis — a gente tem de aprender a juntar." Muitas vezes, mesmo quem sabe escrever ainda assim recorre a escrevedoras voluntárias, como as que atuam no programa Minha Rua, Minha Casa, debaixo do viaduto do Glicério, deteriorada zona do centro de São Paulo. A voluntária Sheila Mermelstein, por exemplo, tem à sua frente um ex-radialista de Porteirinha, Minas Gerais, hoje morador de rua, que vem pedir-lhe uma carta para a tia. Ao final, Antonio pergunta: "Posso ler? A senhora desculpa, mas é só pra ver".

A própria definição de analfabeto adotada pela Unesco quarenta anos atrás — "aquele que não consegue ler e escrever um texto curto e simples sobre algo do seu dia-a-dia" — foi revisada em 1978. Hoje é mais complexa: "É analfabeto funcional aquele que não consegue desempenhar funções na comunidade ou no grupo em que a escrita é necessária, nem consegue melhorar seu meio através do recurso à leitura e da habilidade de fazer contas". No fundo, sabe-se com precisão onde começa o analfabetismo, mas não se sabe onde termina sua fronteira.

Trata-se de um mundo que, propriamente falando, não existe. Ele é composto de imagens borradas, um território que se situa logo abaixo da superfície do complexo tecido que compõe as sociedades industriais. Suas fronteiras não são claras, nem sua verdadeira extensão. Freqüentemente surgem dados controversos sobre o número de pessoas que habitam esse mundo. É um mundo dentro do mundo, tão discreto, camuflado e silencioso que é quase invisível. À primeira vista, os homens e as mulheres que o freqüentam são como nós. Mas na prática eles vivem nas franjas da sociedade. Vivem, como resume o teórico francês Jean-Pierre Vélis, à margem da civilização. Não é pouca gente. Segundo estudo divulgado em 1997 pelo Instituto Unesco, quase 23% dos adultos de hoje são incapazes de ler, escrever ou efetuar operações simples de matemática — um total de 960 milhões de adultos. Detalhe: esse número não diminuiu nas últimas duas décadas.

Coisa de país pobre? Não, como se descobriu com a publicação do pioneiro estudo América Iletrada, de Jonathan Kozol, em 1985: um em cada oito americanos não sabia ler, dos quais 41% eram brancos, 22% negros e 22% hispânicos. Na Suíça dos bancos e dos relógios, os iletrados somam 30.000 pessoas — excluindo-se, sempre, os imigrantes, e, segundo o iugoslavo Dusan M. Savicevic, da Universidade de Belgrado, uma educação de apenas quatro anos básicos não oferece alfabetização permanente. O conhecimento claudicante tende a regredir e a se cristalizar num iletrismo funcional. Por essa ótica, o Brasil ainda se situa num dos patamares mais desoladores do mundo. Se, pelos dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, PNAD (1996), quase 15% da população brasileira com 15 anos ou mais, ou seja, 16 milhões de pessoas, é analfabeta absoluta, o número de cidadãos incapacitados para efetuar tarefas mais complexas pode chegar a cerca de 40%. Todo um mundo a ser descoberto.

Na semana passada, após passar apenas onze dias na Grande São Paulo, o mineiro José Linus da Conceição, nascido no Vale do Jequitinhonha, há 25 anos, não agüentou o tranco — voltou assustado para a terra natal, onde não tem cinema, onde nunca viu TV, onde jamais usou telefone. Sem instrução, a vida de Zé se resumia a mexer com lavoura, tirar cascalho, pegar areia, ou de vez em quando domar um animal do mato. Veio tentar a sorte na cidade grande, incentivado pela irmã caçula, Cida, que fez o mesmo trajeto cinco anos antes, sozinha. Cida foi buscá-lo na rodoviária, instalou-o na periferia, na casa de uma comadre, e, no primeiro domingo de cidade grande, decidiu levá-lo a um shopping center e ao cinema — Titanic. Zé ficou tão atordoado com tudo, com as multidões, o filme, o trânsito, o barulho, o medo de ser atropelado, que pediu para voltar. Cida, de apenas 21 anos, sabe o que é isso. Quando desembarcou na mesma rodoviária, tinha apenas 15 anos, nenhum documento, um bebê recém-nascido, que deixou com a mãe, e garra. "Só vim a saber o que era um ginecologista aqui em São Paulo, depois de já ter um filho. Na minha cidade não tem médico. Achei que devia conhecer o mundo, já que o mundo não ia chegar lá em Chapada do Norte."

Cida, que trabalha desde os 4 anos de idade e cursou até a 4ª série, é a cara do migrante decidido a acertar, a entender intuitivamente, a se adequar, e progredir. "Nos quatro primeiros meses em São Paulo, meu único passeio era do meu quarto até a padaria, da padaria ao meu quarto. Depois aprendi a ir até o Parque do Ibirapuera, que é maior do que a minha cidade. Comi muita bóia fria, por não saber o que era um forno de microondas, e varri muito carpete com vassoura, de vergonha de perguntar como funcionava um aspirador de pó. Trem, até hoje, me dá medo — aquelas ferragens todas dão vontade de sair correndo. Já chorei muito, perdida na rua, olhando para todos os ônibus sem idéia de qual pegar." Hoje, Cida tem intimidade absoluta com a cidade, e também escreve cartas para quem "não tem leitura". Freqüenta a Pastoral do Migrante, tornou-se assertiva, e sabe defender seus direitos. Ainda recentemente, mediu forças com o guarda de uma escola judaica que a chamou de "neguinha". E jamais perdoará a patroa que lhe disse, assim, na lata, que não lhe confiaria as chaves da casa porque ela era esperta demais para estar em São Paulo há tão pouco tempo.

Foto: Ricardo Sá
Na ficção de Central do Brasil, um dos personagens-chave é o analfabetismo. Na vida real, também: 960 milhões de adultos são analfabetos. Há 103 milhões de pessoas com mais de 15 anos. Destes, 21,8 milhões têm menos de quatro anos de estudo e 52 milhões, menos de oito anos de estudo — patamar que, no Canadá e na Polônia, ainda é considerado analfabetismo funcional. Existem 40 milhões de analfabetos

Mesmo para quem não tem estudo algum, como Odete Rodrigues Ferreira, cinco filhos e abandonada pelo marido, hoje com 68 anos, a sobrevivência na cidade grande costuma ser regra, não exceção. Odete chegou a São Paulo sem nenhum documento de identidade e "era tratada como bicho do mato". Ao arrumar seu segundo emprego de faxineira, muitos anos atrás, precisou preencher uma ficha cadastral. Passou semanas decorando item por item da ficha, com a ajuda da filha estudante. "Decorei que primeiro vem o nome, depois o sobrenome, depois a idade, depois a data e local de nascimento, número da carteira, e assim por diante", conta ela. "Consegui fazer ficha em três agências de emprego, com tudo decorado." Hoje, na parede de sua sala de estar, a analfabeta Odete tem pendurado um diploma: o de ter trabalhado como faxineira durante dez anos numa empresa. Detalhe: duas de suas filhas estão na faculdade, outra concluiu o 2º grau e a quarta concluiu o 1º.

Odete continua sem saber ler um manual de instruções, preencher um formulário, compreender uma bula, entender os termos de um contrato, achar alguma palavra num dicionário. Francisca, a da carta para Inhapi, perdeu a conta das vezes em que foi enganada pelos cobradores de ônibus, ou na feira, com troco errado. Aprendeu que todos os ônibus de São Paulo não vão para o mesmo lugar, como lá no Norte. Ainda hoje anota o número do ônibus na mão, e tem medo de esquecer o nome do remédio que o médico lhe receita. "Acho terrível não saber as letras", diz. Mas à sua maneira, mesmo sem decifrar os signos da língua, aprendeu a transformar sua própria condição de vida.




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