Nicarágua

Pecados no lar

Enteada acusa Daniel Ortega de abuso sexual

A nicaragüense Zoilamérica Ortega, de 30 anos, entrou com um processo para mudar de sobrenome na semana passada. Menos que um capricho, a tentativa de recuperar o nome de seu pai biológico, Jorge Narváez, é um esforço para se libertar do que descreve como um pesadelo de anos de estupro. Filha do primeiro casamento de Rosario, mulher do ex-presidente nicaragüense Daniel Ortega, ela acusa o padrasto de tê-la violentado "psicológica, física e sexualmente" a partir dos 11 anos de idade. A troca de nome é o passo preliminar da batalha judicial que pretende derrubar a dupla imunidade de Ortega. Por enquanto, como deputado e ex-presidente, ele está a salvo de ser processado pela enteada. Comparadas à denúncia que pesa contra Ortega, as aventuras sexuais do presidente Bill Clinton são coisa de ginasiano. Da mesma maneira, porém, como as feministas dos Estados Unidos ficaram numa posição desconfortável com o caso Clinton, a esquerda latino-americana tem agora pela frente uma situação difícil.

Ortega liderou a revolução sandinista que derrubou a ditadura de Anastácio Somoza nos anos 70 e resistiu aos contras, a truculenta guerrilha armada pelos Estados Unidos. Embora a aura romântica se tenha desbotado com os anos — ele não conseguiu consolidar o socialismo nos anos 80 e perdeu duas eleições seguidas nos 90 —, Ortega ainda é uma estrela da esquerda latino-americana. Sobre as denúncias da enteada, ele recusa-se a abrir a boca. Sua mulher e mãe de Zoilamérica, Rosario Murillo, ao contrário, diz categórica que a filha está mentindo.

Revolução — Zoilamérica afirma ter sido estuprada desde criança, durante anos. Só se livrou do assédio, diz, porque saiu de casa para se casar com Alejandro Bendana, outro dirigente sandinista. Ainda assim, o padrasto continuou a importuná-la com propostas amorosas pelo telefone até dois meses atrás. O que dá peso extra às palavras de Zoilamérica é sua ficha política. Militante sandinista, ela diz ter preferido calar-se a ver a revolução abalada. "Se dissesse alguma coisa, colocaria em risco a estabilidade", afirma. "Ficar calada era a maneira de contribuir."

O resultado do silêncio, conta, foram anos de depressão, pesadelos e alucinações. Na pior fase, desenvolveu bulimia, uma disfunção de fundo psicológico que a levava a comer desvairadamente e vomitar tudo em seguida. Só depois de casada Zoilamérica passou a se tratar com um psiquiatra. Ela diz que a terapia deu-lhe coragem para finalmente desligar o telefone quando Ortega ligava. Por fim, para exorcizar o fantasma do padrasto, decidiu denunciá-lo publicamente.




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