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Edição 2107

8 de abril de 2009
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Prazer é tudo

O romancista inglês Nick Hornby explica por
que o maior pecado de um livro é causar tédio


Moacyr Scliar

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Trecho do livro

Oficcionista inglês Nick Hornby personifica o sonho de todo jovem escritor. Seus romances, a começar por Alta Fidelidade (1995), o tornaram imensamente popular. Ele foi adaptado para o cinema, recebeu prêmios e é cortejado para colaborar com revistas e jornais do mundo todo. Seu trabalho mais assíduo na imprensa, entretanto, acabou acontecendo numa publicação meio alternativa, a revista The Believer, editada por outro jovem prodígio das letras, o americano Dave Eggers. Hornby escreveu para a revista dezenas de artigos depois reunidos em três antologias. A primeira delas, Frenesi Polissilábico (Rocco; tradução de Antônio E. de Moura Filho; 263 páginas; 33 reais), acaba de ser lançada no Brasil e celebra o prazer da leitura – ao mesmo tempo em que lamenta, com o humor típico de Hornby, que tantos autores importantes resistam tanto em dar prazer a quem peleja por suas páginas.

Usualmente se espera que um resenhista seja o mais neutro possível – uma espécie de entidade impessoal. As resenhas de Hornby são exatamente o contrário. Os editores da The Believer lhe pediram que escolhesse os livros a comentar de acordo com suas preferências pessoais. Ele poderia também abordar as circunstâncias nas quais tinha escrito a resenha. A única limitação era esta: não falar mal de ninguém. Quando Hornby manifestou, às vezes em termos candentes, sua desaprovação a alguns livros, "rolou um quebra-pau básico". O impasse foi solucionado na medida em que "os valores da Believer me fizeram pensar melhor no que e por que eu lia". Hornby decidiu então escolher apenas livros que ele sabia que iriam lhe agradar.

Hornby é franco quanto a seus gostos. Não lhe interessam, por exemplo, os autores que se propõem a renovar a linguagem: "Interesso-me pelo que a língua pode fazer por mim e passo muitas horas por dia procurando garantir o máximo de simplicidade à minha prosa". Um populista? Sim, Hornby já foi acusado disso. Mas no caso do escritor inglês não é um populismo enganoso, interesseiro. Trata-se de afeto pela leitura e pelos leitores, um afeto genuíno, que o leva a constatar situações embaraçosas nem sempre mencionadas na crítica: "O tédio, sejamos francos, é um problema que muitos de nós associamos aos livros. E é por isso que muitas vezes escolhemos fazer qualquer coisa, menos ler". O prazer na leitura, diz Hornby, é fundamental.

Isabetta Villa/Getty Images
O LEITOR Hornby: quanto menos um escritor tem a dizer sobre um tema, mais obscuro ele será


Frenesi Polissilábico
abrange 28 artigos. Os gêneros variam: prosa, poesia, quadrinhos, autoajuda. Cada texto é precedido de uma dupla lista: de um lado, os títulos comprados no mês; de outro, os títulos efetivamente lidos. Frequentemente, a segunda lista é bem menor que a primeira, e contém observações do tipo "Desisti" e "Abandonado". Às vezes Hornby compra tanto que chega a falar no "número ridículo" de livros adquiridos. E comenta: "Quando eu estiver discutindo com São Pedro nos portões do Paraíso, vou sugerir que ignore a coluna ‘Títulos lidos’ e se concentre na coluna ‘Títulos comprados’ ".

De suas leituras, Hornby extrai conclusões muitas vezes pitorescas. Assim, acha Meus Dias de Escritor, do americano Tobias Wolff, "curto demais". Em seguida, adverte: "Ah, pessoal, dá um tempo! Isso é diferente de dizer que é longo demais. Longo demais significa que você não gostou. Curto demais quer dizer que você curtiu". Ele também observa que, quanto menos um escritor tem a dizer sobre um tema, mais obscuro ele será. Em meio aos comentários, Hornby fala de seu próprio cotidiano: sua vida como pai, como torcedor de futebol, como viajante. O resultado é um livro que informa, que faz pensar, emociona e, sobretudo, diverte.



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