Entrevista Víctor
Hugo Cárdenas
"O índio
sou eu"
O líder da oposição
boliviana diz que o presidente
Evo Morales é um indígena de
fachada e que seu
governo incentiva um racismo às avessas,
contra
os não índios

Duda
Teixeira
| Martins Alipaz/EFE
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"Sou aimará, respeito
minhas tradições, mas não posso permitir açoitamentos em praça pública" |
Vice-presidente da Bolívia no primeiro
governo de Gonzalo Sánchez de Lozada, nos anos 90, o professor universitário
Víctor Hugo Cárdenas desempenhou papel decisivo na introdução
da educação bilíngue nas escolas, que passaram a ensinar
tanto o espanhol quanto as línguas indígenas. Aimará nascido
em um vilarejo à beira do Lago Titicaca, Cárdenas foi um dos porta-vozes
da campanha pela rejeição do projeto de Constituição
do presidente Evo Morales. Hoje ele está entre os nomes da oposição
com melhores chances para as eleições presidenciais de dezembro.
O texto constitucional, que acabou aprovado em referendo em janeiro, dá
a 36 etnias indígenas autonomia judiciária para julgar e punir segundo
as leis tribais. Cárdenas foi um dos primeiros a sofrer a arbitrariedade
dos caciques. No início de março, sua casa no Lago Titicaca foi
saqueada por indígenas partidários de Morales. Sua mulher, seus
filhos e outros parentes foram golpeados com paus e chicotes. Aos 57 anos, de
La Paz, Cárdenas deu a seguinte entrevista a VEJA.
Por
que o senhor, um aimará, teve a casa invadida e familiares espancados por
um grupo de índios?
Essa ação não foi perpetrada
por pessoas de minha comunidade aimará, mas por ativistas do partido do
presidente Evo Morales, o Movimento para o Socialismo (MAS). Os principais instigadores
da invasão da minha casa são quatro integrantes desse partido, assessorados
por um ex-membro da Assembleia Constituinte da região de Oruro, que fica
a 200 quilômetros daqui. Só um deles é de minha comunidade.
Por que eles tomaram essa atitude
violenta?
Por trás da agressão está a mão negra
do governo. Foi um ato de vingança, uma represália política
para tentar calar minha voz. Nos últimos meses, participei de uma intensa
mobilização contra a nova Constituição ao lado de
profissionais liberais, estudantes e advogados. Visitei todos os estados bolivianos,
dei entrevistas para a televisão e jornais. Apesar de não termos
sido vitoriosos no referendo, diminuímos bastante o apoio ao governo. Então,
eles planejaram essa retaliação.
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| "Morales
é apenas uma inteligente criação do marketing político. Com muita artimanha, converteram
um dirigente cocaleiro em um indígena. Proeza semelhante seria transformar o metalúrgico
Lula em um jogador de futebol" |
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Pessoas que invadiram sua casa e atacaram
sua família alegaram que estavam em área indígena e agiam
segundo a nova Constituição...
Nenhuma reunião de
camponeses ou de indígenas pode tomar decisões que não respeitem
os direitos fundamentais dos cidadãos bolivianos. No meu caso, essa "justiça
comunitária" foi usada como pretexto para atacar minha família.
A nova Constituição fragmentou a Justiça comum com a criação
de 36 sistemas judiciais indígenas, nos quais não haverá
direito de apelação. Mas esses tribunais não podem funcionar
ainda, pois é necessário que sejam promulgadas leis para regulamentá-los.
Apesar disso, algumas pessoas atuam como se eles já estivessem em vigor.
O
senhor pode ser considerado a primeira vítima da nova Constituição
boliviana?
A primeira vítima foi a democracia, pois essa nova Carta
criou uma dupla cidadania, em que uns têm mais direitos que outros. O MAS
inaugurou um racismo ao revés, em que os indígenas leais ao partido
ou moradores de área rural têm mais direitos que os outros. Com isso,
eles ganham privilégios e são usados como massa de manobra. Pessoas
que não são indígenas passaram a ser odiadas porque são
consideradas perversas por natureza. A Constituição fala a todo
momento de "nações e povos indígenas originários
camponeses". São os índios que vivem no campo e somam 30% da
população do país. Os outros 70% que estão nas cidades
e são majoritariamente indígenas foram totalmente ignorados. Para
o MAS, não há indígenas na cidade. Há uma razão
para isso. Os índios rurais são menos informados e podem ser facilmente
manipulados.
Como foi o ataque a sua
esposa e a seus filhos?
Minha mulher, minha filha de 16 anos, meu filho
de 24 e minha cunhada foram apedrejados e golpeados com paus e chicotes. No dia
da tragédia, pela manhã, meu sobrinho de 24 anos foi reconhecido
na rua, atacado com paus e chicoteado em praça pública. Fizeram
isso com ele apenas porque era meu parente. Depois do ataque, minha família
esteve hospitalizada por dez dias para tratar contusões e hematomas. Meu
filho ficou muito machucado e está com uma hemorragia interna na região
do olho esquerdo. Mas o pior dano é o psicológico. Minha filha é
menor de idade, uma adolescente. Ela ainda tem dificuldade para dormir. De vez
em quando, chora sozinha. Eu estava dando aulas em La Paz e não fui ferido.
A justiça indígena
de que fala a Constituição inclui a adoção de castigos
corporais, como o uso de chicotes?
As punições com chicotes
ainda acontecem em várias comunidades indígenas na Bolívia,
o que é lamentável. Por mais que seja indígena, essa prática
não respeita os direitos humanos. Sou aimará, respeito minhas tradições,
mas não posso permitir açoitamentos em praça pública.
As reuniões para decidir
sobre a invasão de sua casa foram previamente anunciadas nos jornais. O
que fez a polícia?
As autoridades não deram importância
às denúncias e não atenderam minhas chamadas telefônicas
horas antes da tragédia. Assim, a polícia não pôde
agir a tempo. Naquele sábado, dia 7, o estado boliviano decidiu desproteger
minha família. Nos dias seguintes, o governo nos encheu de insultos e declarações
cúmplices com a violência desses assaltantes. O vice-presidente Álvaro
García Linera afirmou que eu deveria me perguntar o que fiz de errado para
merecer tal injustiça. O presidente Evo Morales disse que sou culpado pelo
ocorrido por ter mudado meu sobrenome indígena.
Como
assim?
Esse governo tenta desqualificar minhas credenciais indígenas,
enquanto sustenta que Evo Morales é um índio. Nenhuma das coisas
faz sentido. Nos anos 40, meu pai precisou trocar o sobrenome aimará, que
era Choquehuanca, para Cárdenas porque queria estudar topografia. Naquela
época, o racismo era muito forte e nenhum indígena podia cursar
a educação superior. Nunca neguei minha identidade étnica.
Em 1992, quando fiz campanha para a Vice-Presidência, falei desse fato publicamente.
O curioso é que, assim como meu pai, que precisou mudar de sobrenome no
passado, hoje eu também sou vítima de discriminação.
Mas, desta vez, os racistas são os índios.
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| "Ao
defender a folha de coca e eliminar mecanismos de controle, Morales dá espaço
para que os narcotraficantes possam atuar com liberdade. São eles que se beneficiam
quando o país mergulha no caos" |
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Evo Morales também é um
aimará com nome espanhol, não é?
Apesar de ter pais
indígenas, Morales nunca aprendeu sua língua materna, não
viveu na comunidade nem pratica seus valores. Não vive no mundo aimará.
Também é solteiro, o que para um indígena significa ser uma
pessoa pela metade. Morales é apenas uma inteligente criação
do marketing político, que foi muito bem aceita no exterior. Com muita
artimanha, conseguiram converter um dirigente cocaleiro em um indígena.
Proeza semelhante seria transformar o metalúrgico Lula em um jogador de
futebol. Essa façanha midiática acabou por usurpar a onda de um
crescente movimento indígena autêntico. Morales só adotou
o discurso étnico na sua última campanha eleitoral. Graças
a ele, temos dois indigenismos hoje na Bolívia. Um que usa os indígenas
como força de choque contra opositores e outro que propõe uma democracia
intercultural com menor desigualdade e sem injustiças.
Como
é a vida em sua comunidade indígena?
Estamos a cerca
de 90 quilômetros de La Paz, nas margens do Lago Titicaca. É uma
região turística, onde vivem cerca de 100 famílias. A terra
não é boa para a agricultura ou para o gado. Então, muitos
foram viver nas cidades. Tornaram-se taxistas, comerciantes, carpinteiros ou professores,
como eu. Nos fins de semana ou nos dias de festa, muitos retornam para encontrar
parentes e celebrar as tradições. Falo aimará, aprendi um
pouco de quíchua e estou estudando guarani.
O
senhor diria que o espírito democrático, o respeito e a tolerância
são característicos da comunidade aimará?
Posso dizer
claramente que esses valores são cultivados pela minha comunidade. Mas
os indivíduos podem se comportar de diferentes maneiras. Na Bolívia,
o MAS criou a imagem de que os indígenas são pequenos anjos. Uma
espécie de reserva moral e ética da humanidade. É uma visão
etnocentrista, segundo a qual a cultura aimará é superior às
outras. Isso é falso. Essa ideia desmoronou, com os múltiplos casos
de corrupção e assassinatos que estremeceram o país. Muitos
indígenas que entraram no governo se apropriaram inescrupulosamente dos
recursos públicos. Um deles é Santos Ramírez, ex-presidente
da companhia Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB). Foi preso
quando se descobriu que ele estava para receber uma mala com 450 000 dólares.
Ramírez era professor rural, fundador do MAS, e braço direito de
Morales. É impossível que o presidente não soubesse de suas
operações ilícitas. Qualquer instituição pública
hoje está impregnada de corrupção.
É
necessário defender o cultivo da folha de coca para usos tradicionais e
medicinais, como faz Evo Morales no exterior?
Defendo o uso tradicional
da folha de coca, em tratamentos medicinais e no chá. Para tais fins são
necessários apenas 12 000 hectares de terra. Não mais. É
o que está na lei. Esse governo quer ampliar a superfície de plantação
de coca para 30 000 hectares. Isso não faria sentido porque o mercado tradicional
está muito bem abastecido e não cresce tanto. O que provavelmente
se quer é ampliar o cultivo para a produção de cocaína.
São folhas diferentes. A que vai para o narcotráfico é maior
e mais grossa. Não serve para o uso tradicional. É esse tipo que
se encontra em 95% das terras do Chapare, região cocaleira de Morales.
Ao defender a folha de coca e eliminar mecanismos de controle, o presidente dá
espaço para que os narcotraficantes possam atuar com liberdade. São
eles que se beneficiam quando o país mergulha no caos.
O
Departamento de Estado americano parabenizou o povo boliviano pelo referendo que
aprovou a nova Constituição. Lula afirmou que foi ato decisivo para
refundar a democracia no país. O que o senhor acha desse apoio externo
à Constituição?
Não conheço essas declarações.
Do meu ponto de vista, o referendo não reuniu as mínimas condições
de um evento democrático. Os artigos que a compõem mal foram discutidos.
Quando a Constituição foi aprovada, primeiramente em um recinto
militar fora de Sucre, apenas o índice foi lido. Na votação
detalhada que ocorreu em Oruro, também não se discutiu artigo por
artigo. Pesquisas de opinião mostraram que sete em cada dez bolivianos
desconhecem o conteúdo do texto.
O
regime democrático pode sobreviver a governantes como Evo Morales, Hugo
Chávez e Rafael Correa?
Isso depende da decisão de nossos
povos. Na Bolívia, iniciamos um movimento cidadão para salvar o
país do autoritarismo centralizador e socialista que está sendo
aplicado por um grupo de oportunistas. A situação está ficando
insustentável. O governo de Morales agravou a divisão social, regional,
cultural e ideológica do país. A pobreza piora porque se construiu
uma blindagem da economia contra qualquer investimento nacional ou estrangeiro.
Sem capital não se pode produzir riqueza para solucionar o desemprego,
a fome, a baixa qualidade da educação ou a precariedade dos hospitais.
Morales assumiu dizendo que não haveria um único morto por motivos
políticos em seu governo. Quase cinquenta pessoas já morreram por
questões políticas desde então. É muito difícil
que um cenário assim se prolongue. Há um ditado popular que diz
que "não há governo que dure 100 anos nem povo que o aguente".