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Ponto
de vista: Lya Luft
Caio, amado amigo
"Quando Caio Fernando Abreu adoeceu,
li seu
artigo revelando sua condição, num dos mais
admiráveis testemunhos de humanidade e
coragem que conheci neste mundo hipócrita"
Não preciso falar do escritor
tocado de genialidade, justamente celebrado nestes dez anos de sua
morte. Falo do amado amigo, quase um irmão mais novo. Era
estranha aquela amizade nossa... ou deverei dizer "é", no
presente?
Caio Fernando Abreu nasceu um
dia depois de mim, exatamente dez anos mais tarde. Eu era casada
com um ilustre professor universitário e pesquisador, tranqüila
mãe de três filhos; Caio, grande alma inquieta, era
um andarilho misto de príncipe e alternativo. Ouvi falar
dele muitas vezes antes de o conhecer. Guilhermino Cesar, crítico
severo e erudito, disse-me dele: "Escritor não nasce pronto,
mas Caio Fernando é uma exceção: aos 20 anos
produz um texto em que nada há para melhorar".
Conheci Caio em minha casa, em
Porto Alegre, onde me visitou com meu amigo Luciano Alabarse, diretor
de teatro, que havia pedido: "Quero levar seu romance Reunião
de Família ao palco, e só há uma pessoa
capaz de adaptar esse livro: Caio Fernando".
Alguma coisa em pessoas tão
incongruentes como Caio e eu transcendeu todas as diferenças,
e imediatamente nos tratamos como irmãos. Demos muitas risadas,
falamos coisas loucas e profundas e engraçadas, nos comovemos
às lágrimas, e naturalmente dei minha autorização.
A adaptação de Caio foi magnífica, a peça,
montada, foi um sucesso, e a partir dali acho que passei a entender
melhor meus personagens, com seus labirintos e dramas existenciais,
agora vistos em carne e osso.
Nossa amizade estava decretada.
Ficamos em contato. Carta, telefonema ou raro encontro eram simples
continuação de um diálogo nunca interrompido.
De São Paulo ou Amsterdã, ele me escrevia, com assiduidade
ou em longos intervalos. Algumas vezes relatava suas lutas e dificuldades,
momentos bons ou pobreza e solidão. Em outras ocasiões,
com um pouco daquele seu humor tão peculiar, escrevia: "Ando
casto e em paz. Rego minhas plantas, escrevo cartas, faço
poemas. Pareço uma recatada velha dama inglesa".
De mim, dizia com muita graça:
"A Lya, com aqueles cândidos olhos azuis e jeito de mãezona,
não tem idéia do que escreve, tanto mistério
e dor. Aquilo deve ser tudo psicografado".
Quando ele adoeceu, li seu artigo
revelando sua condição, num dos mais admiráveis
testemunhos de humanidade e coragem que conheci neste mundo hipócrita.
Perto do seu fim, tivemos duas experiências de amizade destinada.
Numa delas, jantávamos juntos, num restaurante discreto perto
da casa dele. Caio de repente segurou minha mão por algum
tempo, depois disse: "Eu sempre vivi como quem quer se matar. Agora
que sei que vou morrer... como eu amo a vida!" Nada melodramático,
nenhuma autopiedade, apenas dolorida constatação.
Quando ele já estava definitivamente
no hospital, quase não recebendo visitas, eu tinha notícias
constantes através de amigos ainda mais chegados, como Graça
Medeiros. Um dia ele quis me falar, então telefonei. A voz
de Caio, inconfundível, era quase a mesma. Falamos duas,
três banalidades, e então ele perguntou, direto: "Lya,
o que você acha que vai acontecer comigo quando eu me libertar
deste corpo?"
Seria indigno dizer algo falsamente
consolador a alguém como Caio: nem ele nem nossa amizade
nem o momento mereciam isso. Respondi, na maior simplicidade, aquilo
em que acredito: "Acho que, livre desse corpo, você vai ser
pura intuição, e enxergar num deslumbramento tudo
isso que passamos a vida procurando entender, e sobre o que escrevemos
tanto".
Ele fez um silêncio breve
e voltou à carga, num misto de angústia e carinhosa
provocação: "E se não for assim?"
Assumi o mesmo tom: "Ah, meu
querido, se não for assim, nós dois vamos virar uns
diabos bem perversos, e vir fazer toda sorte de malandragem neste
mundo!"
Sua risada soou no fio do telefone,
linda, clara, forte como nos tempos de saúde. Foi nosso último
contato: ele morreu dias depois.
Mas está comigo, como
outros seres amados que se foram sem realmente partir.
Lya Luft é escritora
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