Edição 1946 . 8 de março de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Cinema
Uma história ignorada

O diretor de Trem da Vida mostra a chegada
traumática dos judeus negros a Israel


Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
Schlomo e suas salvadoras: a mãe verdadeira, na Etiópia, e a adotiva, em Israel

Um Herói do Nosso Tempo (Va, Vis et Deviens, França/Israel, 2005), que estréia nesta sexta-feira no Rio de Janeiro e em São Paulo, trata de uma história quase ignorada: a dos falashas, como são chamados os judeus negros da Etiópia. Os falashas se acreditam descendentes da união entre o rei Salomão e a rainha de Sabá – uma crença que fez deles judeus o bastante para ser estigmatizados durante todos os seus séculos de existência no nordeste da África, mas não o suficiente para ser aceitos pela tradição ortodoxa. No filme do diretor romeno Radu Mihaileanu, do sucesso Trem da Vida, esse limbo se torna ainda mais grave: seu protagonista, o menino Schlomo, não é verdadeiramente um falasha. É um etíope cristão que, junto com milhares de outros africanos, ruma para um campo de refugiados no Sudão durante a grande fome de meados dos anos 80. Desse campo, a primeira leva de falashas – finalmente reconhecidos como judeus pelo rabinato – será repatriada para Israel, depois de passar pelo crivo dos agentes do Mossad, o serviço secreto israelense. A mãe de Schlomo consegue empurrá-lo para a fila dos imigrantes, dando início a uma impostura que irá testar o garoto até seu limite, e para além dele.

Por intermédio de Schlomo, o diretor recria as imensas dificuldades enfrentadas por esses primeiros falashas levados para Israel, da incomunicabilidade (quase nenhum deles falava hebraico) e do preconceito até o choque de sair de uma cultura tribal para um país moderno. Schlomo tem a sorte de ser adotado por uma família secular que se esforça para cobrir esse abismo, e é por meio dela que o filme chega a seu verdadeiro tema: o dilema íntimo e incontornável do garoto de tornar-se algo novo sem deixar de ser o que era antes. Se se descobrir que Schlomo não é judeu, ele será devolvido à Etiópia (e é grande o número de falsos falashas que ainda vivem na clandestinidade em Israel); se ele se metamorfosear por completo, perderá todo o sentido de identidade. Talentosamente interpretado por três atores, dos 9 anos à idade adulta, Schlomo é salvo pelas figuras maternas que atravessam sua vida, da mãe verdadeira que se separou dele para que o filho tivesse uma chance à mulher com quem se casa. Se há um momento decisivo nessa história, seria aquele em que a mãe adotiva de Schlomo (a excelente Yaël Abecassis, de Kadosh) lambe o rosto de seu novo filho, diante de toda a escola, para provar que ele não tem nenhuma doença – ou, melhor falando, nenhuma diferença. Uma acolhida incondicional como essa é algo com que estrangeiros como Schlomo quase sempre podem apenas sonhar.

 
 
 
 
topovoltar