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Cinema Uma
história ignorada O diretor de
Trem da Vida mostra a chegada traumática dos judeus negros a
Israel  Isabela
Boscov
Fotos
divulgação
 | | Schlomo
e suas salvadoras: a mãe verdadeira, na Etiópia, e a adotiva, em Israel |  |
Um Herói do Nosso Tempo (Va, Vis et Deviens, França/Israel,
2005), que estréia nesta sexta-feira no Rio de Janeiro e em São
Paulo, trata de uma história quase ignorada: a dos falashas, como
são chamados os judeus negros da Etiópia. Os falashas se
acreditam descendentes da união entre o rei Salomão e a rainha de
Sabá uma crença que fez deles judeus o bastante para ser
estigmatizados durante todos os seus séculos de existência no nordeste
da África, mas não o suficiente para ser aceitos pela tradição
ortodoxa. No filme do diretor romeno Radu Mihaileanu, do sucesso Trem da Vida,
esse limbo se torna ainda mais grave: seu protagonista, o menino Schlomo, não
é verdadeiramente um falasha. É um etíope cristão
que, junto com milhares de outros africanos, ruma para um campo de refugiados
no Sudão durante a grande fome de meados dos anos 80. Desse campo, a primeira
leva de falashas finalmente reconhecidos como judeus pelo rabinato
será repatriada para Israel, depois de passar pelo crivo dos agentes
do Mossad, o serviço secreto israelense. A mãe de Schlomo consegue
empurrá-lo para a fila dos imigrantes, dando início a uma impostura
que irá testar o garoto até seu limite, e para além dele.
Por intermédio de Schlomo,
o diretor recria as imensas dificuldades enfrentadas por esses primeiros falashas
levados para Israel, da incomunicabilidade (quase nenhum deles falava hebraico)
e do preconceito até o choque de sair de uma cultura tribal para um país
moderno. Schlomo tem a sorte de ser adotado por uma família secular que
se esforça para cobrir esse abismo, e é por meio dela que o filme
chega a seu verdadeiro tema: o dilema íntimo e incontornável do
garoto de tornar-se algo novo sem deixar de ser o que era antes. Se se descobrir
que Schlomo não é judeu, ele será devolvido à Etiópia
(e é grande o número de falsos falashas que ainda vivem na
clandestinidade em Israel); se ele se metamorfosear por completo, perderá
todo o sentido de identidade. Talentosamente interpretado por três atores,
dos 9 anos à idade adulta, Schlomo é salvo pelas figuras maternas
que atravessam sua vida, da mãe verdadeira que se separou dele para que
o filho tivesse uma chance à mulher com quem se casa. Se há um momento
decisivo nessa história, seria aquele em que a mãe adotiva de Schlomo
(a excelente Yaël Abecassis, de Kadosh) lambe o rosto de seu novo
filho, diante de toda a escola, para provar que ele não tem nenhuma doença
ou, melhor falando, nenhuma diferença. Uma acolhida incondicional
como essa é algo com que estrangeiros como Schlomo quase sempre podem apenas
sonhar. |