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Cinema Licença
para se divertir O ex-007 Pierce Brosnan
se reinventa no criativo O Matador  Isabela
Boscov
Divulgação
 | | Brosnan,
com Greg Kinnear: o que o assassino e o bom-moço têm em comum |
Julian
Noble (Pierce Brosnan) não tem, como seu sobrenome sugere, nada de nobre:
é cafajeste, bêbado, mulherengo e perfeitamente indiferente a qualquer
sentimento alheio. E é também um assassino profissional. O que ele
pode ter em comum com o ordeiro, honesto e bem casado Danny Wright (Greg Kinnear),
então, é um mistério, para a platéia e para ambos.
Mas não para Richard Shepard, o diretor e roteirista do divertido O
Matador (The Matador, Estados Unidos/Alemanha/Irlanda, 2005), que estréia
nesta sexta-feira no país. Danny e Julian se conhecem no bar de um hotel
da Cidade do México, onde estão a negócios (lícitos
e ilícitos, respectivamente). Dividem uns drinques, ensaiam várias
vezes o início de uma bela amizade Julian, que não tem grande
prática na área, demora a entender o que isso implica e terminam
por se acertar. Até que ponto vai esse acerto, contudo, é uma das
dúvidas com que o filme brinca. O empresário Danny está em
maré de azar, e eliminar a concorrência bem que poderia ajudá-lo
a emplacar um novo contrato. Um tem os motivos, o outro tem a disposição.
Mas ambos têm também os limites de uma recém-nascida camaradagem
a respeitar, razão pela qual O Matador se evade com tanta agilidade
das regras mais mecânicas do gênero. Como em qualquer filme sobre
esse tipo de parceria, aqui os opostos se atraem e se complementam. Mas Shepard
cuida de deixar entre eles uma zona cinzenta, em que cada passo precisa ser negociado.
Com todas essas qualidades, a maior
virtude de O Matador ainda é o irlandês Brosnan. A exemplo
do que já demonstrara em O Alfaiate do Panamá, o ex-007 tem
um viés perverso e vulgar tão acentuado quanto a elegância
com que vestia um smoking nos seus tempos de agente secreto. Agora, livre das
responsabilidades do cargo, Brosnan pode explorar como quiser esse aspecto do
seu talento, e em O Matador ele o faz com um apetite surpreendente, que
contagia sua interpretação uma experiência sempre prazerosa
para a platéia, e mais ainda quando é tão bem-sucedida. Brosnan,
enfim, pode se incluir entre a metade feliz dos James Bond aposentados, até
aqui habitada exclusivamente por Sean Connery. Em vez de destruir sua carreira,
como fez com a de Roger Moore e Timothy Dalton, o papel do espião deu a
ele o cacife e o material necessários para brincadeiras como essa. Que
ele continue se divertindo. |