Edição 1946 . 8 de março de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Cinema
Licença para se divertir

O ex-007 Pierce Brosnan se
reinventa no criativo O Matador


Isabela Boscov

 
Divulgação
Brosnan, com Greg Kinnear: o que o assassino e o bom-moço têm em comum

EXCLUSIVO ON-LINE
Fotos do filme

DA INTERNET
Trailer

Julian Noble (Pierce Brosnan) não tem, como seu sobrenome sugere, nada de nobre: é cafajeste, bêbado, mulherengo e perfeitamente indiferente a qualquer sentimento alheio. E é também um assassino profissional. O que ele pode ter em comum com o ordeiro, honesto e bem casado Danny Wright (Greg Kinnear), então, é um mistério, para a platéia e para ambos. Mas não para Richard Shepard, o diretor e roteirista do divertido O Matador (The Matador, Estados Unidos/Alemanha/Irlanda, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país. Danny e Julian se conhecem no bar de um hotel da Cidade do México, onde estão a negócios (lícitos e ilícitos, respectivamente). Dividem uns drinques, ensaiam várias vezes o início de uma bela amizade – Julian, que não tem grande prática na área, demora a entender o que isso implica – e terminam por se acertar. Até que ponto vai esse acerto, contudo, é uma das dúvidas com que o filme brinca. O empresário Danny está em maré de azar, e eliminar a concorrência bem que poderia ajudá-lo a emplacar um novo contrato. Um tem os motivos, o outro tem a disposição. Mas ambos têm também os limites de uma recém-nascida camaradagem a respeitar, razão pela qual O Matador se evade com tanta agilidade das regras mais mecânicas do gênero. Como em qualquer filme sobre esse tipo de parceria, aqui os opostos se atraem e se complementam. Mas Shepard cuida de deixar entre eles uma zona cinzenta, em que cada passo precisa ser negociado.

Com todas essas qualidades, a maior virtude de O Matador ainda é o irlandês Brosnan. A exemplo do que já demonstrara em O Alfaiate do Panamá, o ex-007 tem um viés perverso e vulgar tão acentuado quanto a elegância com que vestia um smoking nos seus tempos de agente secreto. Agora, livre das responsabilidades do cargo, Brosnan pode explorar como quiser esse aspecto do seu talento, e em O Matador ele o faz com um apetite surpreendente, que contagia sua interpretação – uma experiência sempre prazerosa para a platéia, e mais ainda quando é tão bem-sucedida. Brosnan, enfim, pode se incluir entre a metade feliz dos James Bond aposentados, até aqui habitada exclusivamente por Sean Connery. Em vez de destruir sua carreira, como fez com a de Roger Moore e Timothy Dalton, o papel do espião deu a ele o cacife e o material necessários para brincadeiras como essa. Que ele continue se divertindo.

 
 
 
 
topovoltar