Edição 1946 . 8 de março de 2006

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Especial
Nas asas do pânico

O vírus da gripe aviária chega
à Europa Ocidental e seu primeiro
sintoma já se faz sentir na população:
o medo de uma pandemia


Paula Neiva e Giuliana Bergamo

 
AFP
DE AVES PARA HUMANOS
O menino Yusuf, infectado pela gripe das aves, recebe a visita do ministro da Saúde turco. Dezesseis pessoas já contraíram a doença no país – quatro delas morreram


NESTA REPORTAGEM
Quadro: A expansão do vírus e o número de vítimas humanas
Quadro: A medida do perigo
Quadro: Ameaça animal

NESTA EDIÇÃO
A gripe aviária até agora fez bem ao Brasil

A gripe aviária ultrapassou as fronteiras da Ásia e causou suas primeiras vítimas na Europa no fim do ano passado. Desde então, vem-se espalhando pelo continente em ritmo acelerado. Em menos de seis meses, treze países europeus registraram casos da gripe, dentre os quais Itália, Áustria e Suíça. Há cerca de dez dias, a notícia da morte de um gato vítima da gripe do frango na Ilha de Ruegen, na Alemanha, reforçou o temor de que o vírus H5N1, causador da doença, esteja mais perto de se tornar transmissível de uma pessoa para outra – hipótese que poderia acarretar uma pandemia de proporções planetárias. Os especialistas afirmam, no entanto, que não existe relação entre uma coisa e outra. Até o momento, todas as 194 pessoas que contraíram gripe aviária no mundo estiveram em contato com aves contaminadas e foram infectadas pelo mesmo vírus que causa a doença nos animais. Ou seja, não foi encontrada nenhuma forma mutante do vírus que permitisse o contágio entre humanos. Diante disso, é inevitável que se faça a pergunta: qual seria, afinal de contas, o perigo real de uma pandemia de gripe aviária?

A ciência identificou o vírus H5N1 em 1925, mas ele só se tornou fonte de preocupação dez anos atrás, depois que um ganso morreu, numa fazenda localizada na província de Guangdong, na China. Descobriu-se que a doença incomum que havia vitimado a ave fora causada pelo H5N1. Um ano depois, em Hong Kong, um menino de 3 anos morreu vítima da mesma doença, o que configurou o primeiro registro oficial da gripe em humanos. Esse primeiro surto durou poucos meses e atingiu dezoito pessoas, matando seis delas. A nova gripe parecia não ser grande ameaça, até que voltou a atacar, em 2003. Desde então, o H5N1 espalhou-se pela Ásia, pela África e pela Europa (veja mapa), e o número de pessoas e animais doentes mantém-se em curva ascendente. Os primeiros sintomas da gripe aviária em humanos são muito semelhantes aos de uma gripe qualquer: dores no corpo, fadiga e febre alta. Como as defesas do organismo não conseguem reconhecer o vírus e combatê-lo, a doença evolui e, em poucas horas, atinge a maioria dos órgãos do corpo, sobretudo o sistema respiratório, o fígado e os rins. Ao debilitar o organismo, ela abre caminho para o aparecimento de pneumonia, insuficiência hepática, diarréia e hemorragias – o que pode matar em menos de uma semana. A letalidade do H5N1 aviário em pessoas é de cerca de 50%.

 

Jens Koehler/AFP
FELINOS SOB SUSPEITA
Veterinária alemã examina um animal. O vírus já matou um gato no país

A tensão em torno de uma possível epidemia resulta também de uma constatação histórica. "A cada século ocorrem, em média, três pandemias provocadas por subtipos do vírus influenza, que causa a gripe", afirma o médico João Toniolo Neto, coordenador do grupo de estudos de gripe da Universidade Federal de São Paulo. A última epidemia do gênero, a gripe de Hong Kong, foi registrada há quase quarenta anos. Por isso, os epidemiologistas acreditam que uma nova pandemia esteja à espreita. O perigo iminente fez com que a Organização Mundial de Saúde criasse, em 1999, uma classificação em seis fases, para avaliar a evolução do vírus influenza (veja quadro). O da gripe aviária encontra-se na três. Nessa fase, o vírus de gripe presente em animais começa a infectar humanos, mas as contaminações de pessoa para pessoa ainda não acontecem.

O que tira o sono dos sanitaristas e virologistas é justamente a possibilidade de o vírus das aves sofrer determinadas alterações que o tornem capaz de ser transmitido de um ser humano para outro. Um estudo publicado no início do ano passado pela revista científica The New England Journal of Medicine levantou a suspeita de que a transmissão entre humanos já tivesse ocorrido. O caso, porém, não foi confirmado. Sobre o medo da gripe aviária projeta-se uma sombra impossível de ser cancelada: um vírus de gripe que se hospedava em animais e, por meio de mutações, se tornou contagioso entre pessoas levou a uma das pandemias mais agressivas da história – a da gripe espanhola, em 1918, causada pelo vírus H1N1, que matou 50 milhões de homens e mulheres ao redor do mundo.

 

WTZ Bongarts/Getty Images
BARCAS DA VIDA
Cisnes alemães são retirados da água, para evitar contaminação

Os mais pessimistas quanto à possibilidade de uma nova pandemia alertam para o fato de que, no início do século XX, um vírus demorava cerca de quatro meses para chegar aos cinco continentes. Atualmente, a velocidade dos meios de transporte e a quantidade de pessoas e cargas que transitam pelas fronteiras nacionais baixaram esse tempo para apenas quatro dias. Sem dúvida, trata-se de um dado incontestável. Mas é preciso levar em conta também que, se as distâncias diminuíram, os instrumentos de controle sanitário, de identificação de microorganismos perigosos e a tecnologia para a fabricação de medicamentos evoluíram de forma impressionante desde a matança promovida pela gripe espanhola.

Para organizar uma frente de controle, em agosto passado a OMS publicou um documento com uma série de recomendações. As diretrizes incluem especificações sobre sistemas de detecção e alerta e orientações para o investimento em infra-estrutura que permita a produção de vacinas, caso o vírus de gripe aviária se transforme num agente infeccioso que ultrapasse a fase três. Cerca de quarenta países já se adaptaram às recomendações. Alguns deles montaram verdadeiras operações de guerra, como os Estados Unidos. Apesar de não haver registros da doença em solo americano, o presidente George W. Bush aprovou, no fim de 2005, um orçamento bilionário para o plano de contenção da gripe. Aproximadamente 1 bilhão de dólares foram destinados à compra de vacinas contra o vírus aviário que circula atualmente, 3 bilhões de dólares foram direcionados às pesquisas para o desenvolvimento de uma vacina para o vírus pandêmico (transmissível de pessoa para pessoa), caso ele surja. E outro bilhão e meio deve ser utilizado para a concepção de planos de emergência. Os americanos querem estar aptos a detectar surtos em qualquer parte do mundo.

Na Europa, já atingida pela epidemia das aves, a França montou uma delegação interministerial para tratar do assunto. O governo francês determinou, ainda, que todas as aves em territórios urbanos fossem confinadas e mandou reforçar o controle veterinário. Aves que não puderam ser mantidas em confinamento e aquelas que estão em zoológicos e parques foram vacinadas. A Alemanha começou a monitorar as bagagens de passageiros que chegam de outros países, assim como o fluxo de aves selvagens migratórias. O governo alemão obrigou o confinamento das aves domésticas do país e proibiu as feiras livres e os mercados de vender aves. Além disso, todos os locais onde o vírus for detectado serão isolados. Durante 21 dias, nenhuma ave que está a um raio de 3 quilômetros de distância da área onde o H5N1 surgiu poderá sair desse perímetro. As aves que estão a 10 quilômetros do local ficarão isoladas durante quinze dias.

 

Regis Duvignau/Reuters
PREVENÇÃO
Pato é vacinado contra o vírus H5N1, numa fazenda em Buanes, na França

Diversos países fecharam suas fronteiras para a entrada de produtos avícolas provenientes de países onde já houve casos da gripe das aves. O Brasil, que ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de importação de plumas, também o fez. Se a crise se agravar, apostam alguns importadores brasileiros, é possível que o Carnaval do ano que vem fique mais pobre em penachos. O Brasil montou duas frentes de ação envolvendo nove ministérios para se preparar para a chegada da gripe aviária. Uma delas, coordenada pelo Ministério da Agricultura, visa ao controle de uma possível epidemia entre as aves. A outra, elaborada pelo Ministério da Saúde, prevê o investimento em infra-estrutura para futuras internações, compra de medicamentos e fabricação de vacinas, além do treinamento de profissionais de saúde. "Algumas medidas já foram postas em prática, como a criação de um laboratório dentro do Instituto Butantan, em São Paulo, que fabricará 20.000 doses de vacina contra o vírus H5N1 circulante até o meio do ano", diz o médico Jarbas Barbosa, secretário de vigilância em saúde, do Ministério da Saúde.

Jens Koehler/AFP
PERIGO À VISTA
Bombeiros alemães com roupas especiais observam ganso morto no Mar Báltico


O Ministério da Agricultura, em parceria com o Ibama, rastreia o vírus H5N1 no país desde 2002. Já foram encontrados por aqui alguns outros tipos de vírus de gripe aviária, como o H2, o H3 e o H4, que não são considerados perigosos. "O território brasileiro apresenta características menos favoráveis à doença que os países europeus e asiáticos", afirma o veterinário Luiz Cláudio Coelho, da coordenação de sanidade avícola do Ministério da Agricultura. Uma delas é a temperatura. O vírus é muito sensível à radiação solar, o que reduz suas chances de sobrevivência num país tropical. Outro ponto é que a disseminação da doença acontece principalmente por meio do fluxo de aves migratórias provenientes da Ásia e da Europa, e as aves que migram para o Brasil vêm da América do Norte e do Pólo Sul. As aves aquáticas, consideradas o principal reservatório do vírus H5N1, têm como destino único no país duas lagoas localizadas no Rio Grande do Sul, o que facilitaria o monitoramento e o isolamento delas, se isso for necessário. Além disso, as rotas de migração incluem algumas reservas ecológicas e regiões litorâneas, geograficamente distantes das regiões onde estão as principais granjas do país.

 

As 10 perguntas mais freqüentes
sobre gripe aviária

1 QUE MEDIDAS ESTÃO SENDO TOMADAS PELO GOVERNO BRASILEIRO PARA CONTER A GRIPE AVIÁRIA?
O governo montou um plano para prevenir a contaminação de aves e humanos pelo vírus que afeta os animais e outro para uma possível pandemia, caso o vírus sofra mutações e seja transmitido de uma pessoa para outra. Os planos incluem desde barreiras sanitárias em aeroportos, para impedir a entrada de material biológico avícola no país, até a compra de 9 milhões de kits de um antiviral que poderá ajudar a controlar a gripe. Haverá ainda treinamento de equipes médicas para o atendimento e o isolamento de futuros pacientes. Alguns médicos, no entanto, consideram as medidas insuficientes para conter a pandemia, caso ela aconteça.  

2 COMER FRANGO OU OVOS É PERIGOSO?
Só existe perigo real em locais onde há registros de animais infectados pelo vírus, o que ainda não é o caso do Brasil. De qualquer maneira, o ideal é consumir carne e ovos cozidos, já que temperaturas acima de 70 graus matam o vírus.  

3 QUAL É O RISCO DE UMA PESSOA CONTRAIR A DOENÇA?
Remoto. A maioria das infecções registradas até hoje aconteceu em pessoas que vivem em regiões rurais ou trabalham em contato direto com espécimes doentes.

4 POR QUE AINDA NÃO ACONTECEU UMA PANDEMIA?
Porque o vírus ainda não sofreu mutações que o tornem capaz de ser transmitido de uma pessoa para outra. Apesar de os especialistas acreditarem que isso está prestes a ocorrer, não se pode afirmar se essas alterações genéticas de fato acontecerão.  

5 QUAIS SÃO OS SINTOMAS DA GRIPE EM HUMANOS?
Os sintomas iniciais são muito semelhantes aos de uma gripe comum – febre, dores musculares e fadiga. Sem tratamento rápido, esse quadro pode evoluir para uma pneumonia severa associada a disfunções hepáticas, diarréias graves, falência renal e hemorragias.  

6 JÁ EXISTE UMA VACINA CONTRA O VÍRUS?
As vacinas disponíveis até o momento são usadas apenas em animais. Estão em desenvolvimento vacinas para humanos contra o vírus transmitido por aves. A vacina contra o vírus que causaria uma pandemia ao tornar-se transmissível de pessoa para pessoa só poderá ser fabricada quando (e se) esse vírus modificado surgir.  

7 EXISTEM REMÉDIOS EFICAZES CONTRA A GRIPE AVIÁRIA?
Sim. Dois medicamentos – o oseltamivir, fabricado pelo laboratório Roche, e o zanamivir, do GlaxoSmithKline – que já são usados para tratar pessoas infectadas pelo vírus da gripe comum e pelo da gripe aviária também poderão ajudar, ao que tudo indica, a conter a infecção por H5N1 modificado e transmissível entre humanos. Os especialistas acreditam que a taxa de eficácia chegue a 90% caso a doença seja detectada em, no máximo, 48 horas.  

8 O MUNDO ESTÁ PREPARADO PARA CONTER A PANDEMIA?
Não. As vacinas levam pelo menos três meses para ficar prontas, depois do surgimento da cepa de vírus pandêmica. Além disso, a capacidade de produção atual de antivirais levaria uma década para atingir a quantidade necessária para tratar 20% da população mundial.  

9 DEVO EVITAR VIAJAR PARA PAÍSES ONDE HÁ CASOS DE CONTAMINAÇÃO EM PESSOAS?
Não. Como a transmissão entre humanos ainda não aconteceu, só há perigo caso a viagem inclua localidades onde existam relatos de animais contaminados.  

10 QUAIS ANIMAIS, ALÉM DAS AVES, PODEM SER INFECTADOS?
Há casos de felinos doentes, como gatos e tigres. Mas isso acontece apenas quando os animais entram em contato com outro animal contaminado. Os porcos contraem o vírus, mas não adoecem. Outros mamíferos, como cães, cavalos e bois, parecem ser imunes à doença.

Fontes: Paolo Zanotto, virologista, Organização Mundial de Saúde
e Instituto Butantan, de São Paulo

 
 
 
 
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