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Especial Nas
asas do pânico O vírus da
gripe aviária chega à Europa Ocidental e seu primeiro sintoma
já se faz sentir na população: o medo de uma pandemia
 Paula
Neiva e Giuliana Bergamo AFP
 | DE
AVES PARA HUMANOS O menino Yusuf, infectado pela
gripe das aves, recebe a visita do ministro da Saúde turco. Dezesseis pessoas
já contraíram a doença no país – quatro delas morreram |
A gripe aviária
ultrapassou as fronteiras da Ásia e causou suas primeiras vítimas
na Europa no fim do ano passado. Desde então, vem-se espalhando pelo continente
em ritmo acelerado. Em menos de seis meses, treze países europeus registraram
casos da gripe, dentre os quais Itália, Áustria e Suíça.
Há cerca de dez dias, a notícia da morte de um gato vítima
da gripe do frango na Ilha de Ruegen, na Alemanha, reforçou o temor de
que o vírus H5N1, causador da doença, esteja mais perto de se tornar
transmissível de uma pessoa para outra hipótese que poderia
acarretar uma pandemia de proporções planetárias. Os especialistas
afirmam, no entanto, que não existe relação entre uma coisa
e outra. Até o momento, todas as 194 pessoas que contraíram gripe
aviária no mundo estiveram em contato com aves contaminadas e foram infectadas
pelo mesmo vírus que causa a doença nos animais. Ou seja, não
foi encontrada nenhuma forma mutante do vírus que permitisse o contágio
entre humanos. Diante disso, é inevitável que se faça a pergunta:
qual seria, afinal de contas, o perigo real de uma pandemia de gripe aviária?
A ciência identificou o vírus
H5N1 em 1925, mas ele só se tornou fonte de preocupação dez
anos atrás, depois que um ganso morreu, numa fazenda localizada na província
de Guangdong, na China. Descobriu-se que a doença incomum que havia vitimado
a ave fora causada pelo H5N1. Um ano depois, em Hong Kong, um menino de 3 anos
morreu vítima da mesma doença, o que configurou o primeiro registro
oficial da gripe em humanos. Esse primeiro surto durou poucos meses e atingiu
dezoito pessoas, matando seis delas. A nova gripe parecia não ser grande
ameaça, até que voltou a atacar, em 2003. Desde então, o
H5N1 espalhou-se pela Ásia, pela África e pela Europa (veja
mapa), e o número de pessoas e animais doentes mantém-se
em curva ascendente. Os primeiros sintomas da gripe aviária em humanos
são muito semelhantes aos de uma gripe qualquer: dores no corpo, fadiga
e febre alta. Como as defesas do organismo não conseguem reconhecer o vírus
e combatê-lo, a doença evolui e, em poucas horas, atinge a maioria
dos órgãos do corpo, sobretudo o sistema respiratório, o
fígado e os rins. Ao debilitar o organismo, ela abre caminho para o aparecimento
de pneumonia, insuficiência hepática, diarréia e hemorragias
o que pode matar em menos de uma semana. A letalidade do H5N1 aviário
em pessoas é de cerca de 50%. Jens
Koehler/AFP
 | FELINOS
SOB SUSPEITA Veterinária alemã examina um animal.
O vírus já matou um gato no país |
A tensão em torno de uma possível epidemia resulta também
de uma constatação histórica. "A cada século ocorrem,
em média, três pandemias provocadas por subtipos do vírus
influenza, que causa a gripe", afirma o médico João Toniolo Neto,
coordenador do grupo de estudos de gripe da Universidade Federal de São
Paulo. A última epidemia do gênero, a gripe de Hong Kong, foi registrada
há quase quarenta anos. Por isso, os epidemiologistas acreditam que uma
nova pandemia esteja à espreita. O perigo iminente fez com que a Organização
Mundial de Saúde criasse, em 1999, uma classificação em seis
fases, para avaliar a evolução do vírus influenza (veja
quadro). O da gripe aviária encontra-se na três. Nessa
fase, o vírus de gripe presente em animais começa a infectar humanos,
mas as contaminações de pessoa para pessoa ainda não acontecem.
O que tira o sono dos sanitaristas
e virologistas é justamente a possibilidade de o vírus das aves
sofrer determinadas alterações que o tornem capaz de ser transmitido
de um ser humano para outro. Um estudo publicado no início do ano passado
pela revista científica The New England Journal of Medicine levantou
a suspeita de que a transmissão entre humanos já tivesse ocorrido.
O caso, porém, não foi confirmado. Sobre o medo da gripe aviária
projeta-se uma sombra impossível de ser cancelada: um vírus de gripe
que se hospedava em animais e, por meio de mutações, se tornou contagioso
entre pessoas levou a uma das pandemias mais agressivas da história
a da gripe espanhola, em 1918, causada pelo vírus H1N1, que matou 50 milhões
de homens e mulheres ao redor do mundo. WTZ
Bongarts/Getty Images
 | BARCAS
DA VIDA Cisnes alemães são retirados da água,
para evitar contaminação |
Os mais pessimistas quanto à possibilidade de uma nova pandemia alertam
para o fato de que, no início do século XX, um vírus demorava
cerca de quatro meses para chegar aos cinco continentes. Atualmente, a velocidade
dos meios de transporte e a quantidade de pessoas e cargas que transitam pelas
fronteiras nacionais baixaram esse tempo para apenas quatro dias. Sem dúvida,
trata-se de um dado incontestável. Mas é preciso levar em conta
também que, se as distâncias diminuíram, os instrumentos de
controle sanitário, de identificação de microorganismos perigosos
e a tecnologia para a fabricação de medicamentos evoluíram
de forma impressionante desde a matança promovida pela gripe espanhola.
Para organizar uma frente de controle,
em agosto passado a OMS publicou um documento com uma série de recomendações.
As diretrizes incluem especificações sobre sistemas de detecção
e alerta e orientações para o investimento em infra-estrutura que
permita a produção de vacinas, caso o vírus de gripe aviária
se transforme num agente infeccioso que ultrapasse a fase três. Cerca de
quarenta países já se adaptaram às recomendações.
Alguns deles montaram verdadeiras operações de guerra, como os Estados
Unidos. Apesar de não haver registros da doença em solo americano,
o presidente George W. Bush aprovou, no fim de 2005, um orçamento bilionário
para o plano de contenção da gripe. Aproximadamente 1 bilhão
de dólares foram destinados à compra de vacinas contra o vírus
aviário que circula atualmente, 3 bilhões de dólares foram
direcionados às pesquisas para o desenvolvimento de uma vacina para o vírus
pandêmico (transmissível de pessoa para pessoa), caso ele surja.
E outro bilhão e meio deve ser utilizado para a concepção
de planos de emergência. Os americanos querem estar aptos a detectar surtos
em qualquer parte do mundo. Na Europa,
já atingida pela epidemia das aves, a França montou uma delegação
interministerial para tratar do assunto. O governo francês determinou, ainda,
que todas as aves em territórios urbanos fossem confinadas e mandou reforçar
o controle veterinário. Aves que não puderam ser mantidas em confinamento
e aquelas que estão em zoológicos e parques foram vacinadas. A Alemanha
começou a monitorar as bagagens de passageiros que chegam de outros países,
assim como o fluxo de aves selvagens migratórias. O governo alemão
obrigou o confinamento das aves domésticas do país e proibiu as
feiras livres e os mercados de vender aves. Além disso, todos os locais
onde o vírus for detectado serão isolados. Durante 21 dias, nenhuma
ave que está a um raio de 3 quilômetros de distância da área
onde o H5N1 surgiu poderá sair desse perímetro. As aves que estão
a 10 quilômetros do local ficarão isoladas durante quinze dias. Regis
Duvignau/Reuters
 | PREVENÇÃO
Pato é vacinado contra o vírus H5N1, numa fazenda em Buanes, na França |
Diversos países fecharam suas fronteiras para a entrada de produtos avícolas
provenientes de países onde já houve casos da gripe das aves. O
Brasil, que ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de importação
de plumas, também o fez. Se a crise se agravar, apostam alguns importadores
brasileiros, é possível que o Carnaval do ano que vem fique mais
pobre em penachos. O Brasil montou duas frentes de ação envolvendo
nove ministérios para se preparar para a chegada da gripe aviária.
Uma delas, coordenada pelo Ministério da Agricultura, visa ao controle
de uma possível epidemia entre as aves. A outra, elaborada pelo Ministério
da Saúde, prevê o investimento em infra-estrutura para futuras internações,
compra de medicamentos e fabricação de vacinas, além do treinamento
de profissionais de saúde. "Algumas medidas já foram postas em prática,
como a criação de um laboratório dentro do Instituto Butantan,
em São Paulo, que fabricará 20.000 doses de vacina contra o vírus
H5N1 circulante até o meio do ano", diz o médico Jarbas Barbosa,
secretário de vigilância em saúde, do Ministério da
Saúde.
Jens
Koehler/AFP
 | PERIGO
À VISTA Bombeiros alemães com roupas especiais
observam ganso morto no Mar Báltico |
O Ministério da Agricultura, em parceria com o Ibama, rastreia o vírus
H5N1 no país desde 2002. Já foram encontrados por aqui alguns outros
tipos de vírus de gripe aviária, como o H2, o H3 e o H4, que não
são considerados perigosos. "O território brasileiro apresenta características
menos favoráveis à doença que os países europeus e
asiáticos", afirma o veterinário Luiz Cláudio Coelho, da
coordenação de sanidade avícola do Ministério da Agricultura.
Uma delas é a temperatura. O vírus é muito sensível
à radiação solar, o que reduz suas chances de sobrevivência
num país tropical. Outro ponto é que a disseminação
da doença acontece principalmente por meio do fluxo de aves migratórias
provenientes da Ásia e da Europa, e as aves que migram para o Brasil vêm
da América do Norte e do Pólo Sul. As aves aquáticas, consideradas
o principal reservatório do vírus H5N1, têm como destino único
no país duas lagoas localizadas no Rio Grande do Sul, o que facilitaria
o monitoramento e o isolamento delas, se isso for necessário. Além
disso, as rotas de migração incluem algumas reservas ecológicas
e regiões litorâneas, geograficamente distantes das regiões
onde estão as principais granjas do país.
As 10 perguntas mais freqüentes sobre gripe
aviária 1 QUE MEDIDAS ESTÃO
SENDO TOMADAS PELO GOVERNO BRASILEIRO PARA CONTER A GRIPE AVIÁRIA?
O governo montou um plano para prevenir a contaminação de aves e
humanos pelo vírus que afeta os animais e outro para uma possível
pandemia, caso o vírus sofra mutações e seja transmitido
de uma pessoa para outra. Os planos incluem desde barreiras sanitárias
em aeroportos, para impedir a entrada de material biológico avícola
no país, até a compra de 9 milhões de kits de um antiviral
que poderá ajudar a controlar a gripe. Haverá ainda treinamento
de equipes médicas para o atendimento e o isolamento de futuros pacientes.
Alguns médicos, no entanto, consideram as medidas insuficientes para conter
a pandemia, caso ela aconteça. 2
COMER FRANGO OU OVOS É PERIGOSO? Só existe perigo real em
locais onde há registros de animais infectados pelo vírus, o que
ainda não é o caso do Brasil. De qualquer maneira, o ideal é
consumir carne e ovos cozidos, já que temperaturas acima de 70 graus matam
o vírus. 3 QUAL É
O RISCO DE UMA PESSOA CONTRAIR A DOENÇA? Remoto. A maioria das
infecções registradas até hoje aconteceu em pessoas que vivem
em regiões rurais ou trabalham em contato direto com espécimes doentes.
4 POR QUE AINDA NÃO ACONTECEU
UMA PANDEMIA? Porque o vírus ainda não sofreu mutações
que o tornem capaz de ser transmitido de uma pessoa para outra. Apesar de os especialistas
acreditarem que isso está prestes a ocorrer, não se pode afirmar
se essas alterações genéticas de fato acontecerão.
5 QUAIS SÃO OS SINTOMAS
DA GRIPE EM HUMANOS? Os sintomas iniciais são muito semelhantes
aos de uma gripe comum febre, dores musculares e fadiga. Sem tratamento
rápido, esse quadro pode evoluir para uma pneumonia severa associada a
disfunções hepáticas, diarréias graves, falência
renal e hemorragias. 6 JÁ
EXISTE UMA VACINA CONTRA O VÍRUS? As vacinas disponíveis
até o momento são usadas apenas em animais. Estão em desenvolvimento
vacinas para humanos contra o vírus transmitido por aves. A vacina contra
o vírus que causaria uma pandemia ao tornar-se transmissível de
pessoa para pessoa só poderá ser fabricada quando (e se) esse vírus
modificado surgir. 7 EXISTEM
REMÉDIOS EFICAZES CONTRA A GRIPE AVIÁRIA? Sim. Dois medicamentos
o oseltamivir, fabricado pelo laboratório Roche, e o zanamivir,
do GlaxoSmithKline que já são usados para tratar pessoas
infectadas pelo vírus da gripe comum e pelo da gripe aviária também
poderão ajudar, ao que tudo indica, a conter a infecção por
H5N1 modificado e transmissível entre humanos. Os especialistas acreditam
que a taxa de eficácia chegue a 90% caso a doença seja detectada
em, no máximo, 48 horas. 8
O MUNDO ESTÁ PREPARADO PARA CONTER A PANDEMIA? Não. As vacinas
levam pelo menos três meses para ficar prontas, depois do surgimento da
cepa de vírus pandêmica. Além disso, a capacidade de produção
atual de antivirais levaria uma década para atingir a quantidade necessária
para tratar 20% da população mundial.
9 DEVO EVITAR VIAJAR PARA PAÍSES ONDE HÁ
CASOS DE CONTAMINAÇÃO EM PESSOAS? Não. Como a transmissão
entre humanos ainda não aconteceu, só há perigo caso a viagem
inclua localidades onde existam relatos de animais contaminados.
10 QUAIS ANIMAIS, ALÉM DAS AVES, PODEM SER INFECTADOS?
Há casos de felinos doentes, como gatos e tigres. Mas isso acontece apenas
quando os animais entram em contato com outro animal contaminado. Os porcos contraem
o vírus, mas não adoecem. Outros mamíferos, como cães,
cavalos e bois, parecem ser imunes à doença. Fontes:
Paolo Zanotto, virologista, Organização Mundial de Saúde
e Instituto Butantan, de São Paulo | | |