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Internacional
Megabolsa família para os pobres da
Índia O governo indiano tenta
levar aos mais pobres os benefícios de seu crescimento econômico

José Eduardo Barella
A Índia é o segundo
país que mais cresce no mundo depois da China ,
com média anual de 6% desde 1990. Dentro de dez anos, prevê
um estudo americano, o produto interno bruto indiano será
maior que o da Itália e em quinze anos ultrapassará
o da Inglaterra. O esplendor do crescimento contém um paradoxo:
mais de 300 milhões de indianos, uma vez e meia a população
brasileira, vivem com menos de 1 dólar por dia, abaixo da
linha que separa a pobreza da miséria. Não há
fórmula conhecida que seja capaz de tirar toda essa gente
da miséria em curto espaço de tempo mas o governo
indiano tem algumas idéias novas. Na semana passada, Nova
Délhi anunciou aquele que, a julgar pelas dimensões
territoriais e pelo número de pessoas beneficiadas no primeiro
ano (137 milhões), será o maior programa de combate
à miséria já lançado no mundo. Chamado
de Plano Nacional de Emprego Rural Garantido, ele pretende garantir
100 dias de emprego por ano para chefes de família dos municípios
mais pobres da zona rural, onde vivem seis de cada dez indianos.
O total de beneficiados até 2010 será oito vezes maior
que a população atingida pelo Bolsa Família,
o principal programa social do governo brasileiro.
O custo anual dos dois planos
é o mesmo, cerca de 3 bilhões de dólares. A
diferença básica está na duração
da ajuda e nas condições para recebê-la. No
Brasil, o Bolsa Família dá entre 15 e 95 reais por
mês às famílias com renda mensal inferior a
100 reais, desde que mantenham os filhos na escola e os levem às
campanhas de vacinação. Na Índia, cada inscrito
será convocado em quinze dias para integrar uma frente de
trabalho (construção de pontes, diques, escolas ou
estradas) em um raio de 5 quilômetros de sua casa. Pelo trabalho,
receberá o equivalente a um salário mínimo
durante o período do ano em que normalmente fica ocioso ou
em que a agricultura não rende o suficiente para o seu sustento.
O programa, que só depende da aprovação do
orçamento nacional pelo Congresso indiano, sustenta-se na
teoria de que a garantia de emprego permitirá à família
cuidar melhor da educação dos filhos e do aprimoramento
profissional dos adultos, passos essenciais para escapar da miséria.
"O risco desse tipo de projeto é que toda transferência
direta de renda leva à acomodação", disse a
VEJA o economista inglês John Farrington, especialista em
política agrícola da Universidade de Reading, na Inglaterra.
"No caso indiano, o agricultor não será estimulado
a procurar trabalho em outro lugar, pois sabe que tem 100 dias de
emprego garantidos pelo governo."
A Índia enfrenta um problema
recorrente em países emergentes que conseguem um desenvolvimento
econômico muito rápido: apesar de esse ser o caminho
mais consistente para melhorar a vida da população,
a riqueza produzida demora para chegar às camadas mais pobres.
Isso acontece, em parte, porque é necessário mais
de uma geração para qualificar a mão-de-obra
de um país a maneira mais segura de ascensão
social. O crescimento econômico costuma se concentrar nos
centros urbanos. Dos 2,3 bilhões de habitantes da Índia
e da China, mais da metade, ou 1,5 bilhão de pessoas, vive
na zona rural e ganha menos de 2 dólares por dia. O crescimento
indiano dos últimos anos fez diminuir a miséria absoluta,
mas o contraste entre campo e cidade aumentou. Há quinze
anos, o país abandonou o modelo estatizante, abriu a economia
e investiu pesado em educação. A renda per capita
elevou-se de 359 para 640 dólares. Os primeiros beneficiados
foram os mais de 200 milhões de indianos que engrossam a
classe média nas grandes cidades mas o abismo da desigualdade
continua profundo. "A Índia ainda vai levar muitos anos para
tirar sua população da miséria, mesmo que sua
economia continue crescendo acima da média mundial", disse
a VEJA o economista indiano Pranab Bardhan, da Universidade da Califórnia,
nos Estados Unidos. "Como essa demora é inevitável,
as tentativas para melhorar um pouco que seja a vida dos moradores
rurais são bem-vindas", ele completa.
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