Edição 1946 . 8 de março de 2006

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Brasil
E os outros 70%?

Ex-assessor e amigo de Palocci,
Rogério Buratti diz que só contou
30% do que sabe. Ele voltou a
depor na polícia


Marcio Aith e Fábio Portela

 
Dida Sampaio/AE
Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
Buratti aprofundou e detalhou à polícia as acusações que faz ao ministro Palocci


NESTA EDIÇÃO
Valério ameaça falar
Os perigos da quebra de sigilo de Okamotto

Sete meses atrás, o advogado Rogério Buratti colocou o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, na linha de tiro da crise política. Ex-auxiliar do ministro, Buratti havia contado que a empreiteira Leão&Leão pagava um mensalão de 50.000 reais à prefeitura de Ribeirão Preto durante a segunda gestão de Palocci como prefeito. Segundo Buratti, esse dinheiro era repassado ao caixa dois do Partido dos Trabalhadores. Palocci negou o fato. Disse que poderia até ter ocorrido algum ato de corrupção isolado na prefeitura, mas que, se fosse o caso de corrupção sistemática, ele teria tomado conhecimento. O ministro saiu chamuscado do episódio. Palocci manteve-se vivo politicamente, contando com uma vigorosa boa vontade da oposição e do imenso time de brasileiros gratos por seu impecável trabalho de condução da economia. Não havia nenhuma acusação de que Palocci tivesse negociado pessoalmente o pagamento da propina ou que dela tivesse se beneficiado. Em novo depoimento prestado à Polícia Civil de São Paulo, Buratti voltou à carga. VEJA teve acesso a trechos do depoimento que até agora vinham sendo mantidos em sigilo. Neles, Buratti identifica Palocci como o personagem central do esquema de corrupção e apresenta os seguintes detalhes:

Foi o próprio prefeito quem negociou o mensalão de 50.000 reais com a Leão&Leão, empresa da qual Buratti se tornou diretor depois de deixar a prefeitura

Embora a maior parte do dinheiro fosse repassada para o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, Palocci sempre reservava uma parcela para si

Em troca da propina, Palocci organizou um sistema contábil fraudulento pelo qual a empresa sempre ganhava da prefeitura valores maiores que os fixados no contrato inicial de varrição de lixo

O relacionamento entre Palocci e a Leão&Leão era tão próximo que o então prefeito tinha à sua disposição uma reserva financeira para ser usada sempre que necessário

Mesmo depois que Palocci deixou a prefeitura para se tornar ministro, a propina de 50 000 reais continuou a ser paga pela Leão&Leão com o conhecimento de seu sucessor, Gilberto Maggioni.

Palocci soube das novas acusações assim que Buratti saiu do depoimento, em 4 de fevereiro passado. Tomou duas providências. Negociou com o Ministério Público de São Paulo que as partes do depoimento que o envolviam fossem mantidas em sigilo. É por essa razão que, até agora, a imprensa só havia tido acesso a trechos periféricos do documento. Para obter essa garantia, Palocci contou com a discrição dos promotores que, no ano passado, foram criticados por dar publicidade instantânea às primeiras acusações de Buratti. A segunda providência do ministro foi pedir a seu amigo do peito Juscelino Dourado, ex-chefe de seu gabinete no Ministério da Fazenda, que tentasse convencer Buratti a fechar sua boca de uma vez por todas. Juscelino não obteve essas garantias.

Buratti pode estar mentindo em suas acusações? Sim, e o ministro tem o benefício da dúvida. Mas a cada novo depoimento Buratti enriquece a narrativa de detalhes e, a seu favor, diga-se que não caiu ainda em contradição. Palocci recusa-se a processar seu ex-assessor e, mesmo pressionado por parlamentares em seu depoimento à CPI dos Bingos, em janeiro, evitou dizer que Buratti é mentiroso. Se nem Palocci (o maior interessado, diga-se) afirma que Buratti mente, as acusações do advogado tendem a ganhar maior credibilidade. Planilhas internas da Leão e notas fiscais frias emitidas para justificar o pagamento da propina dão sustentação material a algumas das denúncias.

Nos últimos dias, Buratti tem dito a amigos que contou "apenas uns 30%" do que sabe sobre o ministro. Como um bom matemático que é, o médico Palocci está ciente de que, se a conta de Buratti for verdadeira, os outros 70% podem ser fatais não só para ele como para os sonhos de reeleição do presidente Lula, que, num voto de confiança ao ministro, pode escalá-lo como um dos coordenadores de sua campanha. Palocci já avisou que, mesmo que venha a aceitar a missão, não quer ter uma das incumbências de 2002. Ficará longe da arrecadação de recursos.

 

A VOLTA DO FANTASMA DE RIBEIRÃO

Em novo depoimento, Buratti diz que Palocci não só tinha conhecimento do esquema de propina de Ribeirão como também foi seu principal mentor e beneficiário. Segundo ele, o ministro "praticamente mantinha uma reserva" junto à empresa Leão&Leão

O QUE BURATTI DISSE EM AGOSTO DE 2005...
A Leão&Leão pagava 50 000 reais por mês à prefeitura de Ribeirão Preto na gestão Antonio Palocci
Quem recebia o dinheiro era o secretário de Finanças, Ralf Barquete, morto em 2004
O dinheiro era repassado por Barquete para o diretório nacional do PT
Palocci autorizou seu assessor a receber o mensalão
A empresa deu 150 000 reais para a campanha de Palocci à prefeitura de Ribeirão Preto em 2000

...E O QUE ELE ACRESCENTOU AGORA
O pagamento do 50 000 reais foi uma exigência feita pelo próprio Palocci à direção da empreiteira
Parte do mensalão da Leão&Leão ficava com o próprio Palocci
"Outras pessoas ligadas à política" também recebiam propina da empresa
A Leão&Leão negociava diretamente com Palocci formas de elevar artificialmente o pagamento que a empresa recebia pela varrição da cidade
Palocci mantinha uma reserva financeira fixa junto à empreiteira, usada sempre em períodos eleitorais

 
 
 
 
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