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Brasil
E os outros 70%?
Ex-assessor e amigo de Palocci,
Rogério Buratti diz que só contou
30% do que sabe. Ele voltou a
depor na polícia

Marcio Aith e Fábio Portela
Dida Sampaio/AE
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Roberto Stuckert Filho/Ag.
O Globo
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| Buratti aprofundou e detalhou
à polícia as acusações que faz ao
ministro Palocci |
Sete meses atrás, o advogado
Rogério Buratti colocou o ministro da Fazenda, Antonio Palocci,
na linha de tiro da crise política. Ex-auxiliar do ministro,
Buratti havia contado que a empreiteira Leão&Leão
pagava um mensalão de 50.000 reais à prefeitura de
Ribeirão Preto durante a segunda gestão de Palocci
como prefeito. Segundo Buratti, esse dinheiro era repassado ao caixa
dois do Partido dos Trabalhadores. Palocci negou o fato. Disse que
poderia até ter ocorrido algum ato de corrupção
isolado na prefeitura, mas que, se fosse o caso de corrupção
sistemática, ele teria tomado conhecimento. O ministro saiu
chamuscado do episódio. Palocci manteve-se vivo politicamente,
contando com uma vigorosa boa vontade da oposição
e do imenso time de brasileiros gratos por seu impecável
trabalho de condução da economia. Não havia
nenhuma acusação de que Palocci tivesse negociado
pessoalmente o pagamento da propina ou que dela tivesse se beneficiado.
Em novo depoimento prestado à Polícia Civil de São
Paulo, Buratti voltou à carga. VEJA teve acesso a trechos
do depoimento que até agora vinham sendo mantidos em sigilo.
Neles, Buratti identifica Palocci como o personagem central do esquema
de corrupção e apresenta os seguintes detalhes:
Foi o próprio prefeito quem negociou o mensalão de
50.000 reais com a Leão&Leão, empresa da qual
Buratti se tornou diretor depois de deixar a prefeitura
Embora a maior parte do dinheiro fosse repassada para o ex-tesoureiro
do PT Delúbio Soares, Palocci sempre reservava uma parcela
para si
Em troca da propina, Palocci organizou um sistema contábil
fraudulento pelo qual a empresa sempre ganhava da prefeitura valores
maiores que os fixados no contrato inicial de varrição
de lixo
O relacionamento entre Palocci e a Leão&Leão era
tão próximo que o então prefeito tinha à
sua disposição uma reserva financeira para ser usada
sempre que necessário
Mesmo depois que Palocci deixou a prefeitura para se tornar ministro,
a propina de 50 000 reais continuou a ser paga pela Leão&Leão
com o conhecimento de seu sucessor, Gilberto Maggioni.
Palocci soube das novas acusações
assim que Buratti saiu do depoimento, em 4 de fevereiro passado.
Tomou duas providências. Negociou com o Ministério
Público de São Paulo que as partes do depoimento que
o envolviam fossem mantidas em sigilo. É por essa razão
que, até agora, a imprensa só havia tido acesso a
trechos periféricos do documento. Para obter essa garantia,
Palocci contou com a discrição dos promotores que,
no ano passado, foram criticados por dar publicidade instantânea
às primeiras acusações de Buratti. A segunda
providência do ministro foi pedir a seu amigo do peito Juscelino
Dourado, ex-chefe de seu gabinete no Ministério da Fazenda,
que tentasse convencer Buratti a fechar sua boca de uma vez por
todas. Juscelino não obteve essas garantias.
Buratti pode estar mentindo em
suas acusações? Sim, e o ministro tem o benefício
da dúvida. Mas a cada novo depoimento Buratti enriquece a
narrativa de detalhes e, a seu favor, diga-se que não caiu
ainda em contradição. Palocci recusa-se a processar
seu ex-assessor e, mesmo pressionado por parlamentares em seu depoimento
à CPI dos Bingos, em janeiro, evitou dizer que Buratti é
mentiroso. Se nem Palocci (o maior interessado, diga-se) afirma
que Buratti mente, as acusações do advogado tendem
a ganhar maior credibilidade. Planilhas internas da Leão
e notas fiscais frias emitidas para justificar o pagamento da propina
dão sustentação material a algumas das denúncias.
Nos últimos dias, Buratti
tem dito a amigos que contou "apenas uns 30%" do que sabe sobre
o ministro. Como um bom matemático que é, o médico
Palocci está ciente de que, se a conta de Buratti for verdadeira,
os outros 70% podem ser fatais não só para ele como
para os sonhos de reeleição do presidente Lula, que,
num voto de confiança ao ministro, pode escalá-lo
como um dos coordenadores de sua campanha. Palocci já avisou
que, mesmo que venha a aceitar a missão, não quer
ter uma das incumbências de 2002. Ficará longe da arrecadação
de recursos.
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A VOLTA DO FANTASMA
DE RIBEIRÃO
Em novo depoimento, Buratti
diz que Palocci não só tinha conhecimento
do esquema de propina de Ribeirão como também
foi seu principal mentor e beneficiário. Segundo
ele, o ministro "praticamente mantinha uma reserva"
junto à empresa Leão&Leão
O QUE BURATTI
DISSE EM AGOSTO
DE 2005...
A Leão&Leão pagava 50 000 reais por
mês à prefeitura de Ribeirão Preto
na gestão Antonio Palocci
Quem recebia o dinheiro era o secretário de Finanças,
Ralf Barquete, morto em 2004
O dinheiro era repassado por Barquete para o diretório
nacional do PT
Palocci autorizou seu assessor
a receber o mensalão
A empresa deu 150 000 reais
para a campanha de Palocci à prefeitura de Ribeirão
Preto em 2000
...E O QUE
ELE ACRESCENTOU
AGORA
O pagamento do 50 000 reais foi uma exigência
feita pelo próprio Palocci à direção
da empreiteira
Parte do mensalão
da Leão&Leão ficava com o próprio
Palocci
"Outras pessoas ligadas
à política" também recebiam propina
da empresa
A Leão&Leão
negociava diretamente com Palocci formas de elevar artificialmente
o pagamento que a empresa recebia pela varrição
da cidade
Palocci mantinha uma reserva
financeira fixa junto à empreiteira, usada sempre
em períodos eleitorais
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