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Brasil
Valério ameaça falar
Ele pode jogar o PMDB na lama do
mensalão e contar como o PT pagou
para Ratinho fazer elogios a Lula

Alexandre Oltramari e Otávio
Cabral
Dida Sampaio/AE
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| O publicitário Marcos Valério
está apreensivo com o fim iminente da CPI dos Correios:
três balas na agulha |
O publicitário Marcos Valério
Fernandes de Souza, o pagador do mensalão, sentindo-se emparedado
pela CPI dos Correios, anda ameaçando fazer revelações
capazes de dar nova dimensão à crise e, além
do PT, está deixando o PMDB de cabelo em pé. Do fim
de dezembro até agora, o publicitário conversou pelo
menos três vezes por telefone com o ex-deputado José
Borba, ex-líder do PMDB na Câmara que renunciou ao
mandato em outubro passado quando se descobriu que embolsara 2,1
milhões de reais no valerioduto. Nas conversas telefônicas
com Borba, Marcos Valério tem lembrado um acordo selado no
começo do escândalo: o PMDB colocaria na CPI dos Correios
um relator capaz de dar proteção a Marcos Valério,
que, em troca, manteria silêncio sobre o envolvimento de peemedebistas
com o mensalão. Como já ficou demonstrado que Osmar
Serraglio, o relator da CPI dos Correios, não fez acordo
algum nem pretende protegê-lo, Marcos Valério ameaça
contar o que sabe. VEJA ouviu dois senadores que conversaram com
Borba. Eles disseram que o publicitário ameaça disparar
três petardos que fisgam o PMDB e, claro, o PT. São
eles:
Valério tem ameaçado contar que, no início
do ano passado, repassou dinheiro para que José Borba pudesse
ficar como líder do PMDB na Câmara, comprando o apoio
da ala oposicionista do partido, que iniciara um movimento para
destituí-lo. (Soube-se, então, que Borba conseguira
neutralizar a rebelião dos oposicionistas, para felicidade
do Palácio do Planalto, que torcia por sua permanência.)
Valério tem dito ainda que Simone Vasconcelos, a
diretora da agência de publicidade SMPB, fazia pagamentos
do mensalão também para deputados do PMDB. (Ao depor
na CPI dos Correios, a diretora disse que várias vezes se
hospedou em hotéis em Brasília e, no quarto, contava
e distribuía dinheiro a engravatados, mas não soube
identificá-los.)
O publicitário tem avisado que pode revelar detalhes
de como, nos primeiros meses de 2004, repassou dinheiro para que
José Borba pagasse o apresentador Carlos Massa, o Ratinho.
O apresentador, em troca do dinheiro, passaria a usar seu programa
no SBT como palanque para promover o presidente Lula e a então
prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, que se encontrava em
campanha reeleitoral. (Como se sabe, Ratinho fez uma longa entrevista
com Lula durante um churrasco na Granja do Torto. A entrevista-churrasco
foi exaustivamente reprisada no seu programa, mas o apresentador
sempre negou que tivesse recebido qualquer pagamento.)
Joedson Alves/AE
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| José Borba, ex-líder do PMDB: viagens a São
Paulo e encontros com Valério e Delúbio |
O publicitário Marcos Valério,
de fato, manteve relações estreitas com José
Borba. Um ex-auxiliar do PMDB, que privou da intimidade do ex-deputado,
conta que Borba tinha encontros freqüentes com Marcos Valério
no hotel Sofitel, no bairro do Ibirapuera, em São Paulo.
Nesses encontros, além de Borba e Valério, outros
dois personagens das sombras costumavam aparecer: o então
tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e o advogado Roberto Bertholdo,
braço-direito de Borba e então membro do conselho
de administração de Itaipu. Entre setembro de 2004
e março de 2005, os quatro fizeram pelo menos quatro reuniões
no Sofitel. O ex-auxiliar do PMDB, que conversou com VEJA sob a
condição de ficar no anonimato, nunca participou das
reuniões, mas sabe que, depois delas, Borba voltava para
Brasília e, numa saleta ao lado de seu gabinete de líder,
recebia filas de deputados do PMDB. Mas havia uma logística
curiosa: os deputados entravam na saleta um a um, nunca em grupo.
O entra-e-sai ocorria quase sempre à noite.
O advogado Roberto Bertholdo,
sendo o principal assessor de José Borba, era o encarregado
de operar o mensalão dentro do PMDB. Um ex-aliado de Bertholdo,
em conversa de quase cinco horas com VEJA, contou detalhes da façanha.
Ele diz que Bertholdo distribuía o mensalão a 55 dos
81 deputados do PMDB. Todos os 55 deputados pertenciam à
base do governo. A mesada variava entre 15.000 reais e 200.000 reais,
conforme o cacife do deputado mensaleiro. O ex-aliado conta que
Bertholdo adorava exercer esse papel e, como trabalhava em nome
dos interesses do governo, achava que pairava acima da lei. Numa
ocasião, em meados de 2004, querendo exibir seu poder, Bertholdo
telefonou ao ex-aliado e convidou-o a visitá-lo no Aeroporto
Afonso Pena, em São José dos Pinhais. Era noite e
chovia nas franjas de Curitiba. Ao chegar ao aeroporto, o ex-aliado
encontrou Bertholdo a bordo do Citation II que costumava usar e
que pertencia ao empresário paranaense Wadi Debes. Dentro
do avião, esparramado sobre uma poltrona de couro, Bertholdo
mostrou ao amigo uma caixa de papelão, aberta, cheia de dinheiro.
"Tem 8 milhões de reais
aí", disse Bertholdo. Diante da surpresa do interlocutor,
que lhe perguntou se não tinha receio de ser preso com tanto
dinheiro vivo, Bertholdo respondeu com a empáfia que só
a certeza da impunidade proporciona: "Que perigo, o quê? Eu
tô operando para o governo". Na semana passada, VEJA teve
acesso a um conjunto de gravações de conversas de
Bertholdo nas quais fica claríssimo que, de fato, ele operava
em nome do governo e, nessas conversas, aparecem os bastidores
de uma negociação com quem? Com Ratinho, para fazer
propaganda do presidente Lula e da ex-prefeita Marta Suplicy. As
gravações, que somam quase 200 horas, foram realizadas
em 2004 pelo advogado Sérgio Renato Costa Filho, então
sócio de Bertholdo no escritório Bertholdo & Costa
Advogados. Como Costa Filho gravou as próprias conversas
com Bertholdo, a arapongagem não constitui crime embora
seu conteúdo, já em poder da Polícia Federal,
seja suficiente para enquadrar o homem da mala do PMDB em uma fieira
de artigos do Código Penal.
Em um dos trechos das gravações,
Bertholdo revela ao sócio que está intermediando um
acordo entre Ratinho e o PT para que o apresentador fale bem do
partido em 2004. "O PT topou pagar. Cinco paus", diz Bertholdo.
A polícia acredita que "cinco paus" sejam 5 milhões
de reais. Em outro trecho, Bertholdo informa que a negociação
conta também com a presença do então tesoureiro
do PT, Delúbio Soares (veja
transcrição). Como era maquinista do
trem pagador do PMDB, Bertholdo priorizava seu partido quando surgia,
digamos assim, um conflito de interesses. Um caso emblemático
ocorreu em Itaipu, onde Bertholdo foi conselheiro de 2003 a fevereiro
de 2005. Em uma das conversas gravadas pelo sócio, Bertholdo
diz que o diretor-geral de Itaipu, o petista Jorge Samek, cobrou
6 milhões de dólares de propina da empresa Voith Siemens
para perdoar uma dívida de 200 milhões de dólares
para com a estatal. Ele fica uma fera ao saber que o PMDB fora excluído
da negociata. "Temos que pegar pelo menos três", diz Bertholdo
(veja transcrição
da conversa).
Roberto Stuckert/PR
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| Lula conversa com Ratinho (ambos no centro
da foto), durante churrasco na Granja do Torto: tudo pago?
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O que torna essa gravação
perturbadora é o fato de que a Voith Siemens, de fato, tinha
um negócio de quase 200 milhões de dólares
com Itaipu e que, de fato, uma dívida sua com a estatal foi
perdoada de um modo heterodoxo. Em 2000, a Voith Siemens
comprometeu-se a entregar duas novas turbinas para Itaipu, num negócio
de 184,6 milhões de dólares, mas não conseguiu
cumprir o prazo. Sofreu uma multa de 2,6 milhões de dólares,
que foi devidamente paga, mas também tinha de sofrer outra
multa, de 18,6 milhões de dólares. A multa gorda,
porém, foi graciosamente perdoada e o prazo de entrega das
turbinas foi estendido. O mimo saiu na forma de um despacho, de
três páginas, assinado pelo diretor-geral Jorge Samek.
O novo prazo venceu em setembro do ano passado, mas também
não foi cumprido. Aliás, até agora Itaipu espera
as turbinas da Voith Siemens e a multa por esse atraso interminável
está hoje em 9 milhões de dólares, mas nem
um tostão foi pago. Ouvido por VEJA, Samek refutou a acusação
de pegar propina. "Jamais fiz qualquer acordo nesse sentido", afirma.
"Trata-se de um absurdo, uma infâmia, um crime contra a minha
honra." A Voith Siemens, por meio de sua assessoria de imprensa,
mandou dizer que "não paga propina a nenhuma instituição,
pessoa jurídica ou física".
Ana Araujo
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| Serraglio: sem proteção a Valério |
O diretor-geral de Itaipu, Jorge
Samek, integra o seleto grupo de amigos íntimos do presidente
Lula. Samek costuma participar de churrascos e festas de réveillon
na Granja do Torto. Foi por escolha direta de Lula que ele assumiu
a diretoria de Itaipu, onde permanece até hoje. Samek também
já foi bastante próximo de Bertholdo. Quando ambos
trabalhavam em Itaipu, Samek costumava ir a Brasília de carona
com Bertholdo no Citation das caixas de dinheiro. Mas, enquanto
Sameck se mantém firme no comando de Itaipu, Bertholdo caiu.
Renunciou ao cargo de conselheiro de Itaipu em fevereiro do ano
passado e está preso há quatro meses. Bertholdo
é acusado pela Polícia Federal de grampear um juiz
federal e de torturar seu ex-sócio Sérgio Renato Costa
Filho, no início do ano passado, numa violenta tentativa
de reaver as fitas nas quais faz algumas das confidências
relatadas nesta reportagem. Também é acusado de tráfico
de influência e lavagem de dinheiro. A acusação
de lavagem de dinheiro indica que a relação pecuniária
entre Bertholdo e Ratinho tem pelo menos um antecedente. Bertholdo
é acusado de lavar 200.000 reais para Ratinho, espalhando
o dinheiro em contas de funcionários, amigos e colaboradores
do apresentador. A Polícia Federal e o Ministério
Público, que investigam o caso, suspeitam que os 200.000
reais eram pagamento ao apoio de Ratinho a algum político
assessorado pelo homem da mala do PMDB.
Jose Luis da Conceição/AE
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No decorrer de 2004, o advogado
Roberto Bertholdo, membro do conselho de administração
de Itaipu até fevereiro de 2005, foi grampeado
por um ex-sócio. O ex-sócio, o também
advogado Sérgio Renato Costa Filho, gravou cerca
de 200 horas de conversa que ele próprio manteve
com Bertholdo. VEJA teve acesso a uma parte das gravações.
No trecho abaixo, Bertholdo faz menção
a um acordo pelo qual o PT pagaria "cinco paus" ao apresentador
Carlos Massa, o Ratinho, e conta que um dos negociadores
era Delúbio Soares, então tesoureiro petista.
A polícia acredita que "cinco paus" sejam 5 milhões
de reais
Bertholdo
É só fazer um acordo entre
o Ratinho e o PT.
Costa Filho
Ah, é?
Bertholdo
Aí, o Ratinho fala bem do PT até
o final do ano.
Costa Filho
Como foi a conversa com o Ratinho? Vocês
não foram lá para São Paulo?
Bertholdo
O Ratinho não tava lá. Nós
conversamos com o Sérgio (personagem não
identificado).
Costa Filho
Esse Sérgio que tá centralizando
tudo?
Bertholdo
O PT topou pagar. Cinco paus.
(...)
Bertholdo
Na segunda-feira eu vou, eu e o Ratinho
e o Borba (José Borba, então
líder do PMDB na Câmara dos Deputados),
no avião do Ratinho, pra pegar o Delúbio,
que é o tesoureiro. Pra fazer um acerto de uns
cinco paus.
Costa Filho
Hum-hum.
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Rose Brasil/ABR
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Augusto Junior/Gazeta do
Povo
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| Jorge Samek, de Itaipu,
e Roberto Bertholdo (à dir.): mimos
para a Siemens saíram na forma de um despacho
de três páginas |
Neste trecho, Bertholdo
conta, em conversa gravada por seu ex-sócio Sérgio
Renato Costa Filho, ter descoberto que a Siemens pagou
uma propina de "seis paus" de dólares ao diretor-geral
de Itaipu, Jorge Samek, em troca do perdão de
uma dívida milionária da empresa alemã
com a estatal. A polícia acredita que "seis paus"
sejam 6 milhões de dólares. Na mesma conversa,
Bertholdo mostra-se indignado porque Samek não
dividiu a propina com o PMDB
Bertholdo
Eu te falei que eu vou dar uma ferrada
no Samek?
Costa Filho
Não, não me contou.
Bertholdo
Eles fizeram um acerto com a Siemens e
perdoaram uma dívida de 200 milhões de
dólares.
Costa Filho
Duzentos milhões de dólares?
Bertholdo
É.
Costa Filho
P... que p...!
Bertholdo
Eu liguei. Foi naquele dia que eu não
fui pra reunião do conselho porque tinha não
sei o que lá em Brasília (no período
em que foi conselheiro de Itaipu, entre julho
de 2003 e fevereiro de 2005, Bertholdo faltou
a apenas duas das onze reuniões do conselho
de administração).
Costa Filho
Hã-hã.
Bertholdo
Aí eu liguei pro Samek. Falei:
'Samek, eu tô preocupado com isso, porque eu acho
que você não pode fazer dessa forma...'
(...) Depois é que eu fiquei sabendo que parece
que rolou grana. Eu vou chamar o Samek pra uma fiscalização
de controle. Vou chamar o Samek pra falar e vou chamar
o presidente da Siemens. Quando for pra chamar o Samek,
a gente taca a água fria. (...) Pelo que eu sei
pegaram seis paus em dólar.
Costa Filho
Seis paus em dólar?
Bertholdo
É, temos que pegar pelo menos três.
Costa Filho
Sim.
Bertholdo
(...) Se quiserem me tirar do conselho,
não me tiram por causa do PMDB. É minha
função lá dentro.
Costa Filho
Sim, claro.
Bertholdo
(...) O Samek não põe a
gente pra dentro do jogo. Vai tomar no c...
Costa Filho
Eu também acho. Podia ter chamado...
Bertholdo
Não. Podiam falar: 'Ó, tamo
fazendo...'
Costa Filho
Então...
Bertholdo
E aí pegar como doação
de campanha, mesmo...
Costa Filho
Hum-hum.
Bertholdo
Com gosto.
Costa Filho
Hum-hum.
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