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Diogo
Mainardi
A omertà brasileira
"Nosso negócio é
o acobertamento.
Nosso negócio é a cumplicidade. O
mesmo código do silêncio que vigora
nas favelas dominadas por traficantes
vigora também nos gabinetes e escritórios"
Continuo na mesma. Continuo tentando
derrubar Lula. O assunto já ficou velho. Mas não consegui
encontrar outro melhor. Lula é meu Moby Dick. Lula é
minha Lolita. Lula é meu rato Ignatz.
Há quem prefira que Lula
perca nas urnas. Não me animo com essa possibilidade. Uma
derrota nas urnas, por mais esmagadora que fosse, não teria
aquele caráter de exemplaridade que a abertura de um processo
criminal contra ele poderia ter. Por isso não acompanho com
muito interesse o resultado das pesquisas de opinião. Eu
não sou cabo eleitoral de ninguém. Lula pode ganhar
ou perder em outubro. Para mim dá mais ou menos na mesma.
Lula não é o primeiro e certamente não será
o último espertalhão a conquistar o poder. Bem mais
útil do que derrotá-lo no voto seria desmontar alguns
dos esquemas clandestinos que o beneficiaram nos últimos
anos.
Lula alega que não há
documentos que o incriminem diretamente. Ele está certo.
Eu diria o mesmo se estivesse em seu lugar. Esse é um dos
pontos mais inquietantes sobre a crise do mensalão: faltam
documentos. Não me refiro aos que circularam nas CPIs, como
relatórios do Coaf ou quebras de sigilo bancário.
CPIs são inúteis porque os políticos sempre
acabam protegendo uns aos outros. Refiro-me a documentos fornecidos
por gente comum, como a agenda da secretária de Marcos Valério,
Fernanda Karina Somaggio. Quantas foram as secretárias que
testemunharam crimes cometidos por seus empregadores e escolheram
calar a boca? Quantos foram os pilotos de jato particular que transportaram
malas de dinheiro e preferiram ficar na moita? Quantos foram os
assessores parlamentares que negociaram com doleiros e não
denunciaram seus chefes? Quantos foram os contínuos que receberam
ordens para destruir papéis comprometedores? Quantos foram
os diretores financeiros que falsificaram balancetes de suas empresas
para desviar recursos para os partidos?
Estou seguindo, neste momento,
quatro histórias sobre Lula. Uma mais entusiasmante do que
a outra. Mas há muito mais material explosivo dando sopa
por aí. Bastaria que as pessoas se dispusessem a compartilhá-lo.
Nos Estados Unidos, inúmeros sites dependem apenas disso:
da qualidade dos documentos desencavados pelos internautas. No Brasil,
algo assim jamais funcionaria. Ninguém cede espontaneamente
cartas, fotografias, contratos, recibos, reservas de hotel, passagens
aéreas, extratos bancários, ordens de pagamento e
outros documentos que envolvam autoridades. Os brasileiros ainda
não foram tomados pelo espírito do parajornalismo.
Nosso negócio é o acobertamento. Nosso negócio
é a cumplicidade. O mesmo código do silêncio
que vigora nas favelas dominadas por traficantes vigora também
nos gabinetes e escritórios.
De qualquer maneira, não
custa tentar: se alguém aí tem documentos contra Lula,
ou contra qualquer outro candidato a cargo público, e se
eles forem verdadeiros, remeta-os a VEJA, em meu nome. Continuo
aqui, na mesma.
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