Os dois tipos de idealistas
"A sociedade brasileira nunca fez filantropia
com seu próprio dinheiro. Mas é ilimitado
o idealismo que se pode ter com o dinheiro dos outros"
Ilustração: Alê
Setti
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Há dois tipos de idealistas no mundo. O primeiro
grupo é composto de pessoas que querem ver um mundo
melhor, acabar com as desigualdades, injustiças sociais
e assim por diante. Gastam tempo como voluntários,
doam dinheiro para entidades beneficentes e se engajam em
campanhas das mais diversas. Os americanos e europeus são
campeões nessa área, com os Ted Turners, Packards
e Georges Soros da vida doando bilhões de dólares.
O segundo grupo de idealistas é aquele composto de
pessoas que querem fazer a mesma coisa, mas que nunca pagam
a conta. São os chamados "idealistas-com-o-dinheiro-dos-outros".
Com o nosso dinheiro, para ser mais preciso. Você
não participa das decisões, eles raramente
prestam contas de para onde vai todo o dinheiro e os resultados
estão aí, nossos problemas sociais se agravando.
Recentemente, assisti ao Seminário contra a Pobreza,
em que o ex-governador Cristovam Buarque expôs suas
idéias sobre como erradicar a pobreza. O plano era
pagar às crianças pobres para que pudessem
estudar e a conta seria de 30 bilhões de reais. Fiquei
curioso em saber se o plano era consistente e quem iria
pagar a conta caso houvesse inconsistência.
Não tive de esperar nem dois minutos pela resposta.
O segundo debatedor, Luís Inácio Lula da Silva,
fuzilou uma inconsistência do plano: aluno com fome
não aprende. Salvou-nos 30 bilhões de reais,
ou acrescentou mais 6 bilhões de despesas em alimentação
nos planos de Buarque. Ao longo do dia, outros três
políticos e professores apresentaram soluções
diversas para a pobreza do Brasil e, no final da tarde,
a conta para o contribuinte brasileiro já chegava,
pelos meus cálculos, a 120 bilhões de reais.
É ilimitado o idealismo que se pode ter com o dinheiro
dos outros. O que é mais curioso é que nenhum
dos planos apresentados abordou a geração
de empregos, a única solução eficaz,
a longo prazo, para o problema da pobreza do Brasil.
Há quem diga que a sociedade brasileira nunca fez
filantropia com seu próprio dinheiro. Não
somos uma nação cidadã. Por isso, o
Estado tem de ocupar esse espaço vazio. Um argumento
forte e infelizmente apropriado. Mas a alternativa também
não deu certo, pois entregamos 30% do PIB ao Estado
e muito pouco acaba sendo gasto no social.
A maior parte das despesas é com a aposentadoria
de funcionários públicos, com salários
públicos e com juros sobre a dívida pública.
Não é à toa que 84% das pessoas acham
que o governo poderia melhorar na área social (vide
pesquisa no site filantropia.org).
Com a falência do Estado, surgiu recentemente o
Terceiro Setor, que, com muito menos dinheiro, fruto de
doações e trabalho voluntário do setor
privado (o segundo setor), está resolvendo os problemas
com muito mais eficiência do que o governo (o primeiro
setor). Mas ainda representa menos de 1% do PIB.
Como passar do estágio atual de paternalismo e
idealismo do Estado, que consome 40% dos recursos, para
uma sociedade civil organizada e preocupada com o social?
Obviamente por etapas, a primeira sendo a volta da dedutibilidade
do imposto de renda de todas as doações a
entidades beneficentes atuantes e competentes do país,
como já houve no passado. Lentamente, faríamos
filantropia com nosso dinheiro, criaríamos uma sociedade
civil solidária e sem burocracia no meio. Assim,
resolveríamos os problemas sociais com maior rapidez,
com menor custo, e os contribuintes seriam os próprios
fiscalizadores das entidades. As cartas de agradecimento
iriam para quem as merecesse, e não para políticos
e burocratas que repassam o nosso dinheiro.
Então, geraríamos o círculo virtuoso
da filantropia. Pequenos donativos no início e curtas
cartas de agradecimento. Maiores donativos com o decorrer
do tempo e placas de reconhecimento em salas de aula e hospitais,
por exemplo. Finalmente, teríamos enormes donativos,
de heranças e fundações, com edifícios
inteiros batizados com o nome do doador, como a maioria
das faculdades e hospitais americanos. É só
começar.
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Stephen Kanitz é
administrador de empresas (www.kanitz.com.br)