Edição 1 639 - 8/3/2000

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Honra a Dom Obá II,
Príncipe do Povo

Carnaval da Mangueira homenageia personagem louco mas lógico, delirante mas cheio de razões

Nesta semana Dom Obá II d'África, o Príncipe do Povo, volta às ruas do Rio de Janeiro. Será um retorno fugaz: Dom Obá volta como enredo da Mangueira para o Carnaval. "Sou Dom Obá, o Príncipe do Povo/ rei da ralé/ nos meus delírios, um mundo novo/ eu tenho fé", cantará a escola, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. A aparição não durará mais que o trajeto entre a concentração e a Praça da Apoteose. Metido no fraque invariável, ele cumprimentará com a cartola e acenará com o guarda-chuva. Atente-se para a nobre figura. Dom Obá merece ser mais conhecido.

Dom Obá, ou Cândido da Fonseca Galvão, nos documentos civis, nasceu por volta de 1825 em Lençóis, na Bahia. Era um negro, mas negro livre, pois nascido de pai forro. Serviu na Guerra do Paraguai, entre 1865 e 1866, e é por isso que o samba dirá que veio do sertão "pra defender a nossa pátria/ mãe gentil". Na década de 1870, estabelece-se no Rio, e é aí que começa sua carreira imperial. Dizendo-se descendente de família nobre de Oyó, país ioruba que ocupava parte do território da atual Nigéria, faz-se chamar Obá – rei, em idioma ioruba. Em homenagem ao pai, que seria o primeiro, assume o título de Obá II. Morava em cortiços e vivia pela rua, quase sempre desempregado, mas não perdia a majestade. Usava fraque e cartola. Nos braços, carregava bengala e guarda-chuva. Um contemporâneo testemunhou que costumava passear pelas ruas "cumprimentando sem ser cumprimentado, distribuindo cortesias e afabilidades de soberano". Aos sábados, freqüentava o beija-mão do imperador, dom Pedro II, ao lado de notáveis nacionais e visitantes estrangeiros. Era um rei visitando outro. "Trata a todos de cima para baixo, como convém a um poderoso príncipe", descreveu um contemporâneo que o encontrou no palácio.

Até aqui, nosso personagem é o Napoleão do hospício. Ou, então, o rei bufão dos esfarrapados. O problema é que há alguma lógica nessa loucura. Dom Obá não apenas se dizia rei – era reconhecido como tal, pelo pessoal da Gamboa e da Saúde, da Cidade Nova e de Santo Cristo, os bairros onde se concentravam os negros da cidade. De certa forma, era o representante dos desrepresentados. O sinal de que o reconheciam era que o subsidiavam. Pagavam, com os pobres vinténs que lhes sobravam, quando sobravam, o imposto que carece pagar a um rei. E o que fazia Obá II com o dinheiro? Publicava matéria paga nos jornais, em que defendia os interesses do "povo em massa", como dizia.

"Freqüentei o palácio imperial/ critiquei a elite no jornal", diz o samba da Mangueira. Obá II, num português arrevesado, com caricata pretensão à linguagem erudita, de fato revelava sensibilidade social. "Que época estamos atravessando, tão cheia de espinhos e economias para um lado onde é mais preciso a fartura, que é o lado da pobreza", escreveu. Mas, na verdade, não chegava a criticar a elite. Seu pensamento era conservador. Tinha respeito pelas instituições, a começar pela monarquia. "Nunca meu punho passou mão na débil pena para escrever contra as monarquias", escreveu. Claro, era também um monarca. Não queria saber de revoluções. Pregava o respeito "às vivas razões da Constituição que nos rege". Era o contrário de um Zumbi, outro rei negro da História do Brasil. Aceitava que a Abolição viesse num processo gradativo. Mas enxergava uma questão dolorosa – que seria dos negros, depois?

Essa preocupação levou-o a opor-se à imigração de europeus, algo muito debatido na época. "Não acreditem em colonos brancos", advertiu num dos artigos. Os brancos, argumentava, tão logo pudessem abandonariam a lavoura para ser "caixeiros, negociantes e outro qualquer modo de vida". Os brasileiros, se vingasse a tese de Obá II, não estariam hoje assistindo a Terra Nostra. Ele temia o que realmente aconteceu – o abandono dos negros, condenados a vagar à margem da economia. Também se opôs à importação de chineses, tese defendida pelo propagandista republicano Quintino Bocaiúva. Se viessem a faltar braços, que se importassem africanos livres, eis sua original tese.

Obá II por um lado freqüentava o palácio e por outro a delegacia de polícia. Foi preso algumas vezes – por abusar da parati, segundo as autoridades, por suas "idéias", segundo ele. Foi um rei e um bêbado, a um tempo. Era um bufão, mas não deixava de fazer sentido. Sua reaparição no Carnaval é apropriada. Vivia fantasiado, fingindo ser o que não era. Macaqueava os brancos metidos a besta, até no jeito de escrever. Mas talvez tenha se carnavalizado por esperteza. Era o jeito de candidatar-se a interlocutor de uma sociedade em que a obrigação de ouvi-lo não constava do programa. "Quinhentos anos Brasil/ e a raça negra não viu/ o clarão da igualdade", cantará a Mangueira. Em sua volta, Dom Obá ainda é um rei delirante. Só por troça, reconhecem-lhe a majestade.

P.S.: Recomenda-se, a quem se interessar por Obá II, o livro Dom Obá II d'África, o Príncipe do Povo, de Eduardo Silva (Companhia das Letras, 1997), do qual foram tiradas as informações desta página.