Honra a Dom Obá II,
Príncipe do Povo
Carnaval da Mangueira homenageia personagem
louco mas lógico, delirante mas cheio de razões
Nesta semana Dom Obá II d'África, o Príncipe
do Povo, volta às ruas do Rio de Janeiro. Será
um retorno fugaz: Dom Obá volta como enredo da Mangueira
para o Carnaval. "Sou Dom Obá, o Príncipe
do Povo/ rei da ralé/ nos meus delírios, um
mundo novo/ eu tenho fé", cantará a escola,
no Sambódromo da Marquês de Sapucaí.
A aparição não durará mais que
o trajeto entre a concentração e a Praça
da Apoteose. Metido no fraque invariável, ele cumprimentará
com a cartola e acenará com o guarda-chuva. Atente-se
para a nobre figura. Dom Obá merece ser mais conhecido.
Dom Obá, ou Cândido da Fonseca Galvão,
nos documentos civis, nasceu por volta de 1825 em Lençóis,
na Bahia. Era um negro, mas negro livre, pois nascido de
pai forro. Serviu na Guerra do Paraguai, entre 1865 e 1866,
e é por isso que o samba dirá que veio do
sertão "pra defender a nossa pátria/ mãe
gentil". Na década de 1870, estabelece-se no Rio,
e é aí que começa sua carreira imperial.
Dizendo-se descendente de família nobre de Oyó,
país ioruba que ocupava parte do território
da atual Nigéria, faz-se chamar Obá rei,
em idioma ioruba. Em homenagem ao pai, que seria o primeiro,
assume o título de Obá II. Morava em cortiços
e vivia pela rua, quase sempre desempregado, mas não
perdia a majestade. Usava fraque e cartola. Nos braços,
carregava bengala e guarda-chuva. Um contemporâneo
testemunhou que costumava passear pelas ruas "cumprimentando
sem ser cumprimentado, distribuindo cortesias e afabilidades
de soberano". Aos sábados, freqüentava o beija-mão
do imperador, dom Pedro II, ao lado de notáveis nacionais
e visitantes estrangeiros. Era um rei visitando outro. "Trata
a todos de cima para baixo, como convém a um poderoso
príncipe", descreveu um contemporâneo que o
encontrou no palácio.
Até aqui, nosso personagem é o Napoleão
do hospício. Ou, então, o rei bufão
dos esfarrapados. O problema é que há alguma
lógica nessa loucura. Dom Obá não apenas
se dizia rei era reconhecido como tal, pelo pessoal da
Gamboa e da Saúde, da Cidade Nova e de Santo Cristo,
os bairros onde se concentravam os negros da cidade. De
certa forma, era o representante dos desrepresentados. O
sinal de que o reconheciam era que o subsidiavam. Pagavam,
com os pobres vinténs que lhes sobravam, quando sobravam,
o imposto que carece pagar a um rei. E o que fazia Obá
II com o dinheiro? Publicava matéria paga nos jornais,
em que defendia os interesses do "povo em massa", como dizia.
"Freqüentei o palácio imperial/ critiquei
a elite no jornal", diz o samba da Mangueira. Obá
II, num português arrevesado, com caricata pretensão
à linguagem erudita, de fato revelava sensibilidade
social. "Que época estamos atravessando, tão
cheia de espinhos e economias para um lado onde é
mais preciso a fartura, que é o lado da pobreza",
escreveu. Mas, na verdade, não chegava a criticar
a elite. Seu pensamento era conservador. Tinha respeito
pelas instituições, a começar pela
monarquia. "Nunca meu punho passou mão na débil
pena para escrever contra as monarquias", escreveu. Claro,
era também um monarca. Não queria saber de
revoluções. Pregava o respeito "às
vivas razões da Constituição que nos
rege". Era o contrário de um Zumbi, outro rei negro
da História do Brasil. Aceitava que a Abolição
viesse num processo gradativo. Mas enxergava uma questão
dolorosa que seria dos negros, depois?
Essa preocupação levou-o a opor-se à
imigração de europeus, algo muito debatido
na época. "Não acreditem em colonos brancos",
advertiu num dos artigos. Os brancos, argumentava, tão
logo pudessem abandonariam a lavoura para ser "caixeiros,
negociantes e outro qualquer modo de vida". Os brasileiros,
se vingasse a tese de Obá II, não estariam
hoje assistindo a Terra Nostra. Ele temia o que realmente
aconteceu o abandono dos negros, condenados a vagar à
margem da economia. Também se opôs à
importação de chineses, tese defendida pelo
propagandista republicano Quintino Bocaiúva. Se viessem
a faltar braços, que se importassem africanos livres,
eis sua original tese.
Obá II por um lado freqüentava o palácio
e por outro a delegacia de polícia. Foi preso algumas
vezes por abusar da parati, segundo as autoridades,
por suas "idéias", segundo ele. Foi um rei e um bêbado,
a um tempo. Era um bufão, mas não deixava
de fazer sentido. Sua reaparição no Carnaval
é apropriada. Vivia fantasiado, fingindo ser o que
não era. Macaqueava os brancos metidos a besta, até
no jeito de escrever. Mas talvez tenha se carnavalizado
por esperteza. Era o jeito de candidatar-se a interlocutor
de uma sociedade em que a obrigação de ouvi-lo
não constava do programa. "Quinhentos anos Brasil/
e a raça negra não viu/ o clarão da
igualdade", cantará a Mangueira. Em sua volta, Dom
Obá ainda é um rei delirante. Só por
troça, reconhecem-lhe a majestade.
P.S.: Recomenda-se, a quem se interessar por Obá
II, o livro Dom Obá II d'África, o Príncipe
do Povo, de Eduardo Silva (Companhia das Letras, 1997),
do qual foram tiradas as informações desta
página.