Edição 1 639 - 8/3/2000

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Na idade da beleza

Fotos: Oscar Cabral e Fernando Pimentel

Cristina Poles, Monica Gailewitch
e Sandra Boccia

 

Luiza, Mara Lúcia, Fátima, Cristiana, Claudia e Luma passaram dos 35 anos. Como toda uma geração atual de mulheres que se cuidam com as mais modernas técnicas da estética e recursos da medicina, elas não têm a menor saudade do corpo que exibiam aos 20 anos. A palavra é delas:
Fisicamente estou melhor do que antes e psicologicamente me sinto mais segura atesta a ex-modelo e empresária Luiza Brunet, 37 anos, dois filhos, uma de 12 anos e outro de 9 meses.
Aproveito a experiência dos 40 anos com um corpo de 20 orgulha-se Fátima Simonsen, de 39 anos, mãe de duas meninas, a mais velha de 11 e a caçula de 8.

Até pouco tempo atrás, seria inimaginável ouvir uma mulher falar com tanto entusiasmo, sem uma ponta de dissimulação, sobre a chegada à idade madura. "Hoje, a mulher madura não faz mais parte do arquivo morto", diz o psiquiatra Claudio Novaes Soares, pesquisador da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Pode ser Luiza, pode ser Fátima, qualquer uma que chegue à idade delas, com a mesma jovialidade, é o espelho do avanço dos costumes e da ciência, que encaminhou soluções práticas para a proteção e o tratamento do corpo feminino. Foi preciso muito tempo para que a medicina desvendasse as peculiaridades do sexo feminino. Até o século XIX, do ponto de vista dos médicos, as mulheres não passavam de um par de ovários ligados a um ser humano, conforme a clássica definição do antropólogo e pesquisador alemão Rudolf Virchow (1821-1902), pioneiro do estudo das doenças pelo exame das células. Somente a partir dos anos 20 os cientistas explicaram de uma vez por todas como funciona o ciclo menstrual. Por muito tempo, acreditou-se que a ovulação acontecia durante a menstruação tal qual ocorre entre os animais.

 

Fotos: Oscar Cabral e Armando Gonçalves

Luma, em 1990 e hoje: da flacidez escondida sob a meia às pernas torneadas


Com a derrubada definitiva dessa tese, abriu-se o caminho para o entendimento mais preciso da reprodução humana, que culminou no desenvolvimento da pílula anticoncepcional. A pílula mudou mais a vida das mulheres do que o sufrágio universal e a minissaia. Os estudiosos sustentam que foi só a partir dessa descoberta que a medicina bifurcou-se, criando o ramo especializado na fisiologia feminina, que começa agora a dar seus resultados mais evidentes. Desde então, as pesquisas científicas sobre o comportamento, a saúde e a psicologia feminina se multiplicaram. A possibilidade de envelhecer com beleza e saúde é uma conquista recente na história das mulheres. Com poucas exceções, as mães das jovens adultas de hoje eram consideradas aposentadas para a beleza e para o sexo ali pelos 40 anos. Por assim dizer, estavam fora do mercado a partir dessa faixa etária, muitas vezes bem antes. Os inimigos eram facilmente identificáveis. Pele do rosto ressecada ou estufada por bolsas de gordura. Flacidez nas nádegas e nas coxas, além de celulite em demasia. Peitos e braços amatronados (pelo volume excessivo ou pelo relaxamento dos tecidos). Isso era o que se via por fora. Por dentro também se processava um envelhecimento que, para os padrões de hoje, era prematuro.

Os métodos de diagnóstico e tratamento de doenças tipicamente femininas passaram a ocupar um papel central. Descobriu-se, como regra geral, que é preciso atuar precocemente sobre o organismo. Até o início dos anos 90, a mamografia, por exemplo, só era indicada depois dos 45 anos. "Hoje, o tempo ideal para o diagnóstico foi adiantado em dez anos", alerta o ginecologista João Carlos Mantese, de São Paulo. O acompanhamento de perda de massa óssea para a detecção precoce da osteoporose agora também foi antecipado: a partir dos 40 anos. O controle da pressão arterial e dos níveis de colesterol no sangue para prevenir doenças do coração também é uma nova arma em favor das mulheres. Até dez anos atrás, era preocupação majoritariamente masculina.

 

Fotos: Ana Elisa Oriente e Claudio Rossi


Cristiana: fisionomia mais jovem hoje do que há quinze anos
graças
a mudanças de hábito


Rugas, flacidez, gordura localizada, celulite. Infertilidade, tensão pré-menstrual, osteoporose, câncer de mama e de útero, menopausa. Os fantasmas a ameaçar o bem-estar e a beleza femininas são muitos. As armas para retardar o envelhecimento e evitar as doenças típicas da idade estão atualmente ao alcance de um número maior de mulheres do que em qualquer outra época da história. As clínicas de estética espalham-se por todo o país oferecendo tratamentos refinados que antes eram caros e inacessíveis. O sonho dourado de toda mulher nos anos 70 e 80 era passar uma temporada na clínica da doutora Anna Aslan, uma misteriosa geriatra romena que atendia milionários, estrelas de cinema e chefes de Estado em seu xanadu em Bucareste. Uma semana na clínica Aslan, que chegou a ter no seu corpo médico o cirurgião sul-africano Christian Barnard, pioneiro dos transplantes de coração, custava 10 000 dólares. Só o tratamento. A hospedagem e a viagem aérea tornavam o custo de consultar-se na clínica um luxo acessível a poucos mortais.

Pois bem, a qualidade dos tratamentos que se pode obter atualmente em uma clínica estética de boa reputação e com médicos geriatras em qualquer grande cidade brasileira dá de goleada nos ungüentos à base de embrião de carneiro com que a médica romena lambuzava o rosto e o corpo dos poderosos no passado. O que não faltam são consumidoras. Em 1999, os cremes e as loções antienvelhecimento movimentaram 466 milhões de reais um salto de quase 30% em relação ao ano anterior. Foram feitas mais de 300.000 operações plásticas nos hospitais brasileiros no mesmo período. Um crescimento de quase 500% em dez anos.

Os tratamentos e os cremes atuais são tão potentes que sua formulação saiu do reino da cosmética para o da medicina. O FDA, organismo governamental americano, que dá a garantia de segurança para remédios e alimentos vendidos nos Estados Unidos, passou recentemente a se ocupar de cosméticos. O FDA criou o Office of Women's Health, uma divisão inteira dedicada exclusivamente a cuidar de questões ligadas aos tratamentos médicos e estéticos oferecidos às mulheres. A Associação Médica das Mulheres Americanas reúne milhares de profissionais especialistas em questões femininas. Criada há dois anos, a entidade já concentra um enorme banco de dados de pesquisas sobre a mulher madura. "Exames rotineiros podem detectar doenças em seu estágio inicial. Dietas saudáveis e exercícios moderados e regulares podem prevenir problemas de saúde e melhorar a aparência e saúde das mulheres maduras", escreveu a médica Judith Ahronheim, num artigo sobre o atual estágio das pesquisas.

 

Fotos: Oscar Cabral/Arquivo pessoal

Viva o bisturi: o corpo de Mara aos 43 anos dá de 10 na silhueta
que
ela ostentava aos 28


A formulação da frase acima é simples. Seus resultados práticos são formidáveis. "O importante é intercalar as atividades e diversificar os movimentos", ensina o personal trainer Mauro Guiselini, de São Paulo. Luiza Brunet que o diga. Anos atrás, ela imaginava que só conseguiria um corpo bem esculpido se abusasse da musculação. "Puxava ferro", como se diz no jargão das academias, diariamente pesos de 50 quilos nos exercícios para as pernas. Hoje, não. Combina a musculação com aeróbica e alongamento. Depois de duas gestações, aos 37 anos, a silhueta dela é mais equilibrada e sua saúde mais sólida que no passado.

Ao engravidar pela primeira vez, em 1985, a empresária Cristiana Arcangeli foi alertada que fazer atividades físicas durante a gestação era um perigo. No máximo, uma sessão de ioga aqui, outra de relaxamento ali. Resultado: quando Bianca nasceu, a mãe estava 12 quilos acima do peso. Foram necessários seis meses para voltar à forma. No final da década de 90, pesquisadores americanos jogaram uma pá de cal no velho mito. A prática regular de ginástica durante a gravidez não é apenas hábito seguro, mas recomendado. Quatro horas semanais de atividade aeróbica, com moderação, evitam o parto prematuro ao aprimorar o tônus muscular e o sistema imunológico. Quem olha para Cristiana hoje não diz que há cinco meses ela deu à luz Isabela. A empresária está enxutérrima: barriga durinha, braços e pernas com músculos delineados. Como? Exercitando-se (moderadamente, é bom repetir) até o sétimo mês de gravidez. Hoje, aos 38 anos, sente-se, e parece realmente, mais bonita e mais bem disposta que aos 23.


Fotos: Selmy Yassuda/Arquivo pessoal


Claudia deu adeus às formas retas e à pele sem viço: ginástica disciplinada


As mulheres mudam o jeito de olhar para si mesmas. "Elas estão se sentindo mais atraentes e confiantes", diz o psicólogo Angelo Monesi. A libido masculina atinge o ápice por volta dos 20 anos. A feminina, por volta dos 35. Só isso já é uma vantagem espetacular para o campo das mulheres. "A revolução sexual, na década de 60, foi apenas o pontapé inicial na libertação feminina", afirma a psicóloga Amparo Caridade, da Universidade Católica de Pernambuco. "Agora é a hora da explosão da feminilidade." As jovens senhoras sabem disso. "Foi-se o tempo em que só a mulher jovem era bonita e atraente", diz a advogada carioca Claudia Slopper, 40 anos, um filho de 24 e outro de 21. Dona de curvas voluptuosas, Claudia vira o centro dos olhares masculinos por onde passa.

Com os avanços na criação de outras técnicas e no aperfeiçoamento dos instrumentos, as cirurgias estéticas tornaram-se menos invasivas e mais seguras. Em 1980, a lipoaspiração ampliou os limites da plástica. Passou a ser possível retocar cinturas, culotes e nádegas sem as cicatrizes deixadas pelas cirurgias tradicionais. Na época, a gordura ainda era aspirada com cânulas de grosso calibre 1,2 centímetro de diâmetro. Os resultados, não raras vezes, pioravam a situação. Hoje, além de agulhas bem mais finas, surgiram outras técnicas, como a lipoaspiração ultra-sônica. As ondas emitidas pelo aparelho destroem as células gordurosas, reduzindo o sangramento e a agressão ao organismo do paciente. Novas próteses de silicone, texturizadas ou cobertas com esponja de poliuretano, reduzem o processo de cicatrização interno. "Com isso, o risco de endurecimento das mamas caiu de 40% para 4% dos casos", afirma Luiz Carlos Garcia, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Aos 35 anos, a ex-modelo e empresária Luma de Oliveira é prova esfuziante desses avanços. Em 1996, depois do nascimento do segundo filho, lipoaspirou as gordurinhas extras da barriga. No ano seguinte, afilou o nariz. No outro, avolumou os seios o tamanho do sutiã foi do 38 para o 40. Além das intervenções cirúrgicas, há dois anos Luma decidiu suar de verdade. Três horas de ginástica por dia corrida na esteira, musculação e 400 abdominais. Resultado: 58 quilos distribuídos em 1,74 metro de altura. Ela hoje está apenas 2 quilos acima do que apontava a balança quando começou a carreira, aos 16 anos. A simples aritmética nesse caso significa pouco. Uma das grandes descobertas em busca da silhueta alinhada é a certeza de que o peso em si não é um indicador muito confiável. Músculo pesa mais que gordura. Por isso, apesar de mais pesada, a Luma rainha da bateria da Viradouro deste Carnaval não tem aquela barriguinha saliente e molenga da Luma musa da Caprichosos de Pilares do Carnaval de 1990. Tem mais. As pernas bem esculpidas de agora dispensam as meias usadas para disfarçar a celulite e flacidez das pernas da Luma de 25 anos de idade. Naquela época ela tinha a juventude do lado dela, mas o arsenal médico e estético a favor da beleza ainda era um tanto arcaico.

 

Fotos: Antonio Milena/Arquivo pessoal

De mocinha franzina a mulherão: Fátima ganhou
um novo perfil
graças à musculação

 

Com reportagem de Silvia Rogar, do Rio de Janeiro


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