Edição 1 639 - 8/3/2000

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Só com fiador

Governo cria um novo programa de crédito
educativo para tentar escapar ao calote

Vladimir Netto

Ricardo Benichio
A pediatra Renata, que se formou com ajuda do Creduc: dívida renegociada


Em 1993, a pediatra paulista Renata Gonçalves recebeu um empréstimo do Programa de Crédito Educativo (Creduc) do governo federal e com ele pagou os últimos anos do curso de medicina na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. A ajuda representou 80% das mensalidades. O dinheiro devia começar a ser devolvido um ano depois da formatura, mas ela descobriu que as prestações estavam infladas por juros e correção monetária. Ela tentou, sem sucesso, renegociar a dívida e acabou engordando o índice de inadimplência do programa. Só voltou a pagar depois que o governo editou uma medida provisória autorizando a renegociação. Para quitar a dívida de 24.000 reais, precisou de outro empréstimo, dessa vez da família. Histórias de inadimplência como as de Renata, que deixaram um rombo de 1,2 bilhão de reais nos cofres públicos, levaram o governo a rever o antigo Creduc.

Na semana passada, terminou a seleção de 82.000 universitários para a nova versão do programa, que passou a se chamar Programa de Financiamento Estudantil, Fies. Além do nome, há também novas regras. O valor do empréstimo e o prazo para quitação da dívida mudaram, além das exigências de fiança para evitar o calote. O perfil dos selecionados também mudou: agora em vez de muito pobres, pertencem na maioria à classe média baixa. Em breve, o governo vai anunciar oficialmente a abertura de 50.000 novas vagas para este semestre. E, antes do final do ano, outras 50.000. Esses 182.000 estudantes serão a ponta-de-lança de um programa que nasceu com a pretensão de continuar garantindo ajuda financeira a quem não tem condições de pagar uma universidade particular e impedir que o rombo no caixa do governo continue crescendo.

 

Criado em 1976, o Creduc atendeu no decorrer de sua existência mais de 1 milhão de alunos. Nos últimos dez anos, emprestou 5 bilhões de reais. Boa parte dos estudantes pegou o dinheiro e nunca o devolveu. Nos registros da Caixa Econômica Federal está faltando 1,5 bilhão, mas só 300 milhões devem retornar aos cofres públicos. A inadimplência foi a causa da falência de programas similares ao brasileiro em países como a Argentina e o México. Nos Estados Unidos, ao contrário, onde até bancos privados financiam os estudos de quem precisa, esse tipo de empréstimo funciona porque o estudante é cobrado como se fosse um devedor comum. "O sistema de cobrança é o calcanhar-de-aquiles de qualquer programa de crédito educativo", diz Daniel Juckowfky, diretor-presidente da Associação de Profissionais Liberais do Rio Grande do Sul, que mantém há 28 anos o mais respeitado sistema privado de empréstimo para a educação no Brasil.

Alguns anos atrás, havia apenas 2,5 milhões de alunos no 2º grau. Hoje são 8 milhões. Em breve serão 15 milhões, boa parte oriunda da classe média baixa. E são esses que o governo quer ajudar. O plano é, em dez anos, colocar 30% dos jovens entre 18 e 24 anos na faculdade. Hoje, menos de 10% estão fazendo curso superior. "Isso acontece porque eles não podem pagar, precisam de ajuda", afirma Floriano Pesaro, diretor do Fies. Como ninguém espera um investimento maciço do governo nas universidades públicas, a saída só pode ser o financiamento do estudante.