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Edição
1 639 - 8/3/2000
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Há momentos mágicos na era industrial em que algumas empresas são redesenhadas pelos produtos que fabricam. É o que está acontecendo neste instante com a Sony. A gigante japonesa, uma das líderes mundiais na produção de equipamentos eletrônicos, dona de um faturamento de 56 bilhões de dólares em 1999 e com valor de mercado estimado em 129 bilhões de dólares, está sendo reinventada pelo PlayStation2. O barulho causado pela chegada desse produto ao mercado japonês só é comparável à grande agitação que se seguiu ao lançamento do programa Windows 95, da Microsoft. O PlayStation2 é o mais moderno videogame do mundo e só por essa razão já teria motivo para levantar muita poeira. Esse é um mercado bilionário, que movimenta 7 bilhões de dólares por ano só nos Estados Unidos. A questão é que o novo aparelho é muito mais do que um console que roda jogos eletrônicos. Ele também pode tocar CD, reproduzir DVD e ser utilizado para navegar pela internet. A Sony reuniu alguns de seus principais produtos num único aparelho e pretende utilizá-lo para se firmar como uma empresa poderosa na era digital. Se a estratégia der certo, a companhia japonesa passará a ser um competidor mais do que respeitável num mercado até agora dominado de alto a baixo por empresas americanas. Se algo sair errado, a Sony cairá num precipício do qual dificilmente se reerguerá.
Até agora, tudo indica, a Sony fez uma aposta ousada. Muitos analistas acreditam que ela se mostrará também certeira. Duas semanas antes do lançamento do brinquedo, que consumiu algumas centenas de milhões de dólares em pesquisas, a empresa decidiu testar a expectativa do mercado em torno do produto. Resolveu colocá-lo à venda, apenas para consumidores japoneses, em seu site na internet. Isso atraiu um tráfego espetacular, mais de 100 000 pessoas por minuto. Os computadores da Sony, que nunca tinham visto algo parecido, ficaram congestionados. Não conseguiram atender todo mundo e a empresa teve de cancelar as vendas do artigo pela rede. Outro dado: desde o anúncio do lançamento do brinquedo, em março do ano passado, as ações da Sony não param de subir. Só nos dois primeiros meses deste ano, os papéis tiveram quase 60% de valorização na Bolsa de Nova York. Sua concorrente mais poderosa, a Matsushita, fabricante do videogame Nintendo, viu no mesmo período o preço de suas ações subir apenas 0,6%. A pergunta é: como pode um simples brinquedo mexer tanto numa companhia gigantesca como a Sony? A verdade é que, para a Sony, o PlayStation2 é muito mais do que um produto. Ele é o próprio futuro e significa um salto muito maior do que a mais famosa ousadia do lendário Akio Morita, a criação do walkman. Morita viu um de seus executivos ouvir música de um gravador pesadão usando fones de ouvido. Resolveu criar o walkman. Foi um sucesso e firmou a imagem da Sony como uma empresa de tecnologia avançada. Depois, a companhia patrocinou outras ousadias (veja quadro), mas nenhuma delas se compara ao lançamento do PlayStation2. Descendente direto do PlayStation, um videogame que vendeu cerca de 60 milhões de unidades desde seu lançamento em 1994, o aparelho revela a tentativa de a Sony entrar de corpo e alma na internet. Com o PlayStation2, a empresa pretende transformar-se no maior portal de videogames do mundo. Ela faz o aparelho e cria os jogos que poderão ser comercializados pela internet. Até pouco tempo atrás, os analistas consideravam irrelevante o fato de a Sony ser dona de uma das maiores gravadoras de discos do mundo se os artistas que ela contratava ou seja, os geradores de conteúdo eram americanos, brasileiros ou europeus. Com o PlayStation2, a Sony fecha um ciclo. Ela se prepara para ser a dona da tecnologia e também do conteúdo. Antes mesmo do lançamento, já haviam sido lançados no mercado japonês mais de trinta jogos especialmente desenhados para o aparelho. Eles ainda não exploram nem a metade das possibilidades técnicas que o novo produto oferece. "Antes, a criatividade dos programadores que produziam os jogos eletrônicos era limitada", diz Reinaldo Normand, diretor do site brasileiro OuterSpace, especializado em jogos. "Agora, vai demorar muitos anos até alguém criar um jogo que explore todas as possibilidades do PlayStation2." Nas imagens do novo jogo, os personagens têm sombras que variam de acordo com a posição da luz, suas roupas tremulam conforme a direção do vento, os cabelos ficam desalinhados e os olhos piscam. Os projetistas da Sony se orgulham de que em seu novo videogame os personagens podem reproduzir digitalmente todos os movimentos do corpo humano, bem como todas as máscaras faciais que uma pessoa exibe quando faz esforço extremo ou demonstra pânico ou alegria. A alma do aparelho é um chip batizado pela empresa, não sem certa dose de megalomania, de emotion engine (motor da emoção, em inglês), que tem justamente a tarefa de dar aos jogos essa riqueza de detalhes visuais. Com imagens em terceira dimensão, o que dá a noção de profundidade, o aparelho é capaz de processar 75 milhões de imagens por segundo. Para essa tarefa específica, o PlayStation2 é duas vezes mais rápido que o mais poderoso processador Pentium existente no mercado ou quinze vezes superior a um computador comum. A capacidade de mostrar boas imagens proporciona ao PlayStation2 a chance de dar a qualquer jogo a qualidade de áudio e vídeo de um desenho animado como Toy Story, a fenomenal história digital dos estúdios Disney e da empresa de animação em computador Pixar. A capacidade gráfica do novo chip da Sony é brutal. Numa comparação com os computadores pessoais, ele deixa para trás a mais espetacular das máquinas. Os analistas sugerem que, mantido o ritmo de desenvolvimento dos computadores pessoais, eles vão atingir a mesma potência gráfica do PlayStation2 somente dentro de cinco anos. Está-se falando aqui de uma indústria, a de PCs que vêm conseguindo dobrar a capacidade operacional de suas máquinas a cada dezoito meses. O PlayStation2 é hiperdimensionado. A Sony, antes mesmo do lançamento, deixou claro para todo mundo que haveria dificuldades em acessar a internet com seu novo videogame utilizando-se as linhas telefônicas comuns. É que o grau de detalhamento das imagens acaba exigindo muito da rede de computadores. A navegação só ficará eficaz a partir do próximo ano, quando a empresa lançará modelos equipados de um programa que lhe permitirá acessar a internet utilizando o cabo ou as conexões telefônicas de alta velocidade conhecidas como ADSL. Obviamente não bastará à Sony equipar suas máquinas para navegar na internet veloz. Será preciso também que os usuários tenham acesso a essas novas tecnologias. Mesmo nos Estados Unidos, onde a onda de acesso à internet em conexões de banda larga é uma obsessão, somente dentro de quatro ou cinco anos haverá uma maioria de usuários aproveitando-se dessa comodidade. A chegada dos primeiros modelos às lojas estava sendo aguardada com grande ansiedade na semana passada. Corria o boato de que o poderoso chip do PlayStation2 esquentava demais, o que obrigaria a Sony a instalar um segundo sistema de ventilação na máquina. Se for verdade, isso a tornaria não apenas mais cara e mais pesada mas também uma voraz devoradora de energia. Ou seja, todo o projeto inicial teria de ser repensado. Apesar das dúvidas, o aparelho parece fadado a fazer mais sucesso que o previsto pelo mais otimista dos executivos da Sony. A fila de espera no Japão, o único país em que já foi lançado, reúne milhares de pessoas. Nos Estados Unidos e na Europa, aonde o artigo só deverá chegar na época do Natal, já há compradores fazendo encomendas. No Brasil, onde nem a primeira versão do PlayStation foi lançada oficialmente, o aparecimento do modelo deverá dar-se por volta do Natal de 2001. A empresa espera vender mais de 100 milhões desses aparelhos em todo o mundo nos próximos cinco anos. É claro que a Sony não estará sozinha nesse mercado por muito tempo. Nesta semana, o fundador da Microsoft, Bill Gates, promete uma apresentação detalhada de seu novo projeto. Trata-se de uma engenhoca batizada de XBOX, que vem sendo, até aqui, um dos segredos mais bem guardados pela companhia. O XBOX é um console para videogame parecidíssimo com o produto Sony. Os fabricantes do Nintendo também preparam para o segundo semestre deste ano uma nova versão de seu console para enfrentar de igual para igual o produto da Sony. Vai ser uma dura contenda. O PlayStation2 deu um salto adiante muito longo. "O novo console equivaleria, no cinema, a pular direto da época dos filmes mudos para produções coloridas e com som estereofônico", compara Bertrand Chaverot, diretor da produtora de jogos para computador e videogame UbiSoft. O brinquedo virou coisa séria.
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