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Donas de marcas famosas, três famílias
da Europa tentam conservar suas fábricas
Juliana De Mari
No começo do século, o filósofo comunista
Antonio Gramsci definiu o empresário Giovanni Agnelli,
dono da Fiat, como um "autocrata de um pequeno Estado absoluto".
O que era uma crítica ao poderoso industrial acabou
se transformando na melhor tradução do poderio
que algumas famílias européias passaram a
ter nas mãos quando decidiam produzir automóveis.
Na virada do milênio, três grandes dinastias
do capitalismo ainda reinam sobre domínios fundeados
em quatro rodas na Europa. Ou, melhor dizendo, resistem
como podem ao assédio das grandes corporações
que querem comprar suas marcas famosas. Além dos
Agnelli, os Quandt, da BMW, e os Peugeot, da PSA Peugeot-Citroën,
ainda são pequenos autocratas em impérios
vistosos e cobiçados. Na semana passada, às
vésperas da inauguração do Salão
do Automóvel de Genebra (veja
quadro), um dos mais importantes da Europa, uma
surda boataria insistia em que a BMW tinha aceito como inevitável
a fusão com a Volkswagen. Os donos apressaram-se
a desmentir. "Há uma ligação emocional
entre a família e a empresa. Eles não vão
vender", repete o porta-voz dos Quandt, Thomas Gaully. O
mesmo fazem os Agnelli e os Peugeot quando as especulações
batem em suas portas.
A indústria automobilística européia
sempre esteve ligada aos desbravadores desse negócio
bilionário. Mas poucas famílias resistiram.
Os herdeiros de Louis Renault, de André Citroën
e de Adam Opel preferiram abrir mão do controle das
empresas em momentos de maior dificuldade. Hoje em dia é
consenso que, para ser competitiva, uma grande marca de
automóveis precisa comercializar entre 4 e 5 milhões
de unidades por ano em todo o mundo. Em 1998, a Fiat vendeu
2,3 milhões de carros, enquanto a Peugeot e a BMW
negociaram, respectivamente, 2,2 milhões e 1,2 milhão.
Por esse raciocínio numérico, são empresas
na marca do pênalti. Nenhuma delas, contudo, parece
querer entregar o bastão de luta. A Fiat aposta no
Punto, um carrinho que está vendendo bem e responde
por um quarto da produção mundial da marca
italiana. Os Peugeot se fiam em manter a segunda colocação
em vendas na Europa em 1999, enquanto a BMW continua imbatível
como marca de luxo. E assim as famílias vão
solenemente esnobando os possíveis compradores.
Tão mítica quanto os carros que fabrica,
a família Quandt é idolatrada na Bavária,
região no sul da Alemanha. Foi Herbert Quandt quem
salvou a empresa de ser absorvida pela Daimler-Benz nos
anos 50. Foi ele também quem poliu o prestígio
internacional da marca até morrer, em 1982. Sua viúva,
Johanna, é a atual dona da BMW. Aos 72 anos, é
tão arredia quanto discreta e depois da morte do
marido se tornou dona de uma das maiores fortunas da Europa.
Johanna era secretária de Herbert quando conquistou
seu coração. Casaram-se em 1960 e tiveram
dois filhos, Susanne e Stefan, de 36 e 32 anos, respectivamente.
À moda alemã, os herdeiros se esforçaram
para construir suas carreiras fora da BMW. Susanne, que
usa o sobrenome do marido, Klatten, foi editora e é
dona de um grande laboratório farmacêutico.
Stefan trabalhou algum tempo nos Estados Unidos e tem uma
empresa de roupas e medicamentos homeopáticos. A
perfeita tradução da dignidade, mesmo para
uma dinastia que teve no passado relações
comerciais mais do que íntimas com o regime nazista.
Muitos dos aviões de Hitler eram equipados de motores
BMW.
O perfil discreto dos Quandt contrasta com o dos Agnelli,
milionários expansivos e bon vivants, donos de um
império que fatura o equivalente a 4% do produto
interno bruto da Itália. Aos 78 anos, o patriarca
Gianni Agnelli, neto do fundador do grupo e que carrega
o mesmo nome do avô, é aclamado como o rei
não coroado da Itália. Seu império
inclui 803 empresas espalhadas por 62 países. Assim
que assumiu a companhia, em 1966, aos 45 anos de idade,
reconheceu que não tinha a menor idéia de
como se fazia um carro. Mas acabou norteando o crescimento
do grupo para países emergentes, como o Brasil, onde
a montadora fincou bases em 1973. Hoje, a divisão
de automóveis brasileira responde por 11% das vendas.
Agnelli afastou-se do comando direto da empresa depois de
trinta anos de papado e entregou a Fiat mundial a um executivo
profissional. Mas continua a dividir com o irmão
Umberto as principais decisões da empresa. Em crise
sucessória, os Agnelli ainda procuram entre os jovens
da família um herdeiro com talento para tocar o império.
A dinastia Peugeot é vasta. São mais de
100 membros descendentes de dois irmãos protestantes
que começaram a subir na vida fabricando serras no
início do século XIX. Os primeiros carros
foram feitos há mais de 100 anos. Quatro membros
da família Pierre, Roland, Bertrand e Robert
ocupam os postos-chave no conselho consultivo. Outros seis
estão em cargos administrativos, entre eles Thierry
Peugeot, de 42 anos, diretor da fábrica de Lyon.
Ele foi o encarregado de montar, há quase dez anos,
o braço da empresa no Brasil e lançar as bases
para a fábrica que será inaugurada no Rio
de Janeiro ainda neste ano. Entre as três grandes
dinastias, a dos Peugeot é a única que sinaliza
com simpatia a possíveis alianças com outras
montadoras. No mundo das grandes finanças, o que
se diz é que a família acabará cedendo
aos assédios da DaimlerChrysler.
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Os
irmãos Jean-Pierre e
Jean-Frédéric Peugeot começaram
fabricando serras em 1810. Pularam para o ramo de
bicicletas e daí para os carros. Hoje Pierre
Peugeot é presidente do conselho e vários
parentes ocupam cargos na empresa.
Fatia da família
na empresa:
37,4% das ações
Faturamento da
Peugeot: 38,6 bilhões
de dólares
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A
família Quandt está no
comando desde 1920. Em 1960, a matriarca Johanna (com
o filho,
abaixo) casou-se com o patrão,
Herbert Quandt, e herdou
a fábrica em 1982.
Os filhos, Susanne
e Stefan, tomam as decisões na fábrica
de carros de luxo.
AFP
Fatia da família
na empresa:
46,6% das ações
Faturamento da
BMW:
34,9 bilhões de
dólares
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A Fabbrica Italiana Automobili
Torino foi fundada em 1899 por desportistas, entre
eles Giovanni Agnelli. Em três anos, Agnelli
ficou dono. O negócio está na terceira
geração. Gianni Agnelli, 78 anos, ocupa
a presidência honorária
de um império
de 803 empresas
Fatia da família
na empresa:
30% da ações
Faturamento da
Fiat:
47 bilhões de dólares
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Beleza
americana
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Os maiores fabricantes de
automóveis dos Estados Unidos
estão concentrando toda a sua artilharia na
conquista da Europa. É um
mercado voraz e exigente que
apenas no ano passado comprou
15 milhões de carros novos. Na semana passada,
durante o Salão do Automóvel de Genebra,
na Suíça, a Chrysler e a
General Motors exibiram as armas
que vão usar para enfrentar as
concorrentes européias.
AP
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AP
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OPEL SPEEDSTER
Desenhado
pela divisão européia da
GM, carrega um motor de alumínio
capaz de ir de zero a 160 quilômetros
por hora em menos de seis segundos.
O conversível,
que chegará às lojas ainda neste
ano, tem dois lugares e espaço para
guardar a capota atrás dos bancos.
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CHRYSLER ESX3
É
um carro politicamente correto, bem ao
gosto europeu.
Tem motor híbrido, movido a
energia elétrica e diesel, é mais
econômico
e menos poluente.
Alguns componentes internos
são feitos com material reciclado.
É ainda um carro conceito,
sem data para
ser lançado.
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