Edição 1 639 - 8/3/2000

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Nobreza sobre rodas

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Slide show dos lançamentos do Salão do Automóvel de Genebra

Donas de marcas famosas, três famílias da Europa tentam conservar suas fábricas


Juliana De Mari

No começo do século, o filósofo comunista Antonio Gramsci definiu o empresário Giovanni Agnelli, dono da Fiat, como um "autocrata de um pequeno Estado absoluto". O que era uma crítica ao poderoso industrial acabou se transformando na melhor tradução do poderio que algumas famílias européias passaram a ter nas mãos quando decidiam produzir automóveis. Na virada do milênio, três grandes dinastias do capitalismo ainda reinam sobre domínios fundeados em quatro rodas na Europa. Ou, melhor dizendo, resistem como podem ao assédio das grandes corporações que querem comprar suas marcas famosas. Além dos Agnelli, os Quandt, da BMW, e os Peugeot, da PSA Peugeot-Citroën, ainda são pequenos autocratas em impérios vistosos e cobiçados. Na semana passada, às vésperas da inauguração do Salão do Automóvel de Genebra (veja quadro), um dos mais importantes da Europa, uma surda boataria insistia em que a BMW tinha aceito como inevitável a fusão com a Volkswagen. Os donos apressaram-se a desmentir. "Há uma ligação emocional entre a família e a empresa. Eles não vão vender", repete o porta-voz dos Quandt, Thomas Gaully. O mesmo fazem os Agnelli e os Peugeot quando as especulações batem em suas portas.

A indústria automobilística européia sempre esteve ligada aos desbravadores desse negócio bilionário. Mas poucas famílias resistiram. Os herdeiros de Louis Renault, de André Citroën e de Adam Opel preferiram abrir mão do controle das empresas em momentos de maior dificuldade. Hoje em dia é consenso que, para ser competitiva, uma grande marca de automóveis precisa comercializar entre 4 e 5 milhões de unidades por ano em todo o mundo. Em 1998, a Fiat vendeu 2,3 milhões de carros, enquanto a Peugeot e a BMW negociaram, respectivamente, 2,2 milhões e 1,2 milhão. Por esse raciocínio numérico, são empresas na marca do pênalti. Nenhuma delas, contudo, parece querer entregar o bastão de luta. A Fiat aposta no Punto, um carrinho que está vendendo bem e responde por um quarto da produção mundial da marca italiana. Os Peugeot se fiam em manter a segunda colocação em vendas na Europa em 1999, enquanto a BMW continua imbatível como marca de luxo. E assim as famílias vão solenemente esnobando os possíveis compradores.

Tão mítica quanto os carros que fabrica, a família Quandt é idolatrada na Bavária, região no sul da Alemanha. Foi Herbert Quandt quem salvou a empresa de ser absorvida pela Daimler-Benz nos anos 50. Foi ele também quem poliu o prestígio internacional da marca até morrer, em 1982. Sua viúva, Johanna, é a atual dona da BMW. Aos 72 anos, é tão arredia quanto discreta e depois da morte do marido se tornou dona de uma das maiores fortunas da Europa. Johanna era secretária de Herbert quando conquistou seu coração. Casaram-se em 1960 e tiveram dois filhos, Susanne e Stefan, de 36 e 32 anos, respectivamente. À moda alemã, os herdeiros se esforçaram para construir suas carreiras fora da BMW. Susanne, que usa o sobrenome do marido, Klatten, foi editora e é dona de um grande laboratório farmacêutico. Stefan trabalhou algum tempo nos Estados Unidos e tem uma empresa de roupas e medicamentos homeopáticos. A perfeita tradução da dignidade, mesmo para uma dinastia que teve no passado relações comerciais mais do que íntimas com o regime nazista. Muitos dos aviões de Hitler eram equipados de motores BMW.

O perfil discreto dos Quandt contrasta com o dos Agnelli, milionários expansivos e bon vivants, donos de um império que fatura o equivalente a 4% do produto interno bruto da Itália. Aos 78 anos, o patriarca Gianni Agnelli, neto do fundador do grupo e que carrega o mesmo nome do avô, é aclamado como o rei não coroado da Itália. Seu império inclui 803 empresas espalhadas por 62 países. Assim que assumiu a companhia, em 1966, aos 45 anos de idade, reconheceu que não tinha a menor idéia de como se fazia um carro. Mas acabou norteando o crescimento do grupo para países emergentes, como o Brasil, onde a montadora fincou bases em 1973. Hoje, a divisão de automóveis brasileira responde por 11% das vendas. Agnelli afastou-se do comando direto da empresa depois de trinta anos de papado e entregou a Fiat mundial a um executivo profissional. Mas continua a dividir com o irmão Umberto as principais decisões da empresa. Em crise sucessória, os Agnelli ainda procuram entre os jovens da família um herdeiro com talento para tocar o império.

A dinastia Peugeot é vasta. São mais de 100 membros descendentes de dois irmãos protestantes que começaram a subir na vida fabricando serras no início do século XIX. Os primeiros carros foram feitos há mais de 100 anos. Quatro membros da família – Pierre, Roland, Bertrand e Robert – ocupam os postos-chave no conselho consultivo. Outros seis estão em cargos administrativos, entre eles Thierry Peugeot, de 42 anos, diretor da fábrica de Lyon. Ele foi o encarregado de montar, há quase dez anos, o braço da empresa no Brasil e lançar as bases para a fábrica que será inaugurada no Rio de Janeiro ainda neste ano. Entre as três grandes dinastias, a dos Peugeot é a única que sinaliza com simpatia a possíveis alianças com outras montadoras. No mundo das grandes finanças, o que se diz é que a família acabará cedendo aos assédios da DaimlerChrysler.

 

Os irmãos Jean-Pierre e
Jean-Frédéric Peugeot começaram fabricando serras em 1810. Pularam para o ramo de bicicletas e daí para os carros. Hoje Pierre Peugeot é presidente do conselho e vários parentes ocupam cargos na empresa.

Fatia da família na empresa:
37,4% das ações

Faturamento da
Peugeot: 38,6 bilhões de dólares

 

A família Quandt está no
comando desde 1920. Em 1960, a matriarca Johanna (com o filho,
abaixo)
casou-se com o patrão,
Herbert Quandt, e herdou
a fábrica em 1982.
Os filhos, Susanne
e Stefan, tomam as decisões na fábrica
de carros de luxo.

AFP

Fatia da família na empresa:
46,6% das ações

Faturamento da BMW:
34,9 bilhões de dólares

 

A Fabbrica Italiana Automobili Torino foi fundada em 1899 por desportistas, entre eles Giovanni Agnelli. Em três anos, Agnelli ficou dono. O negócio está na terceira geração. Gianni Agnelli, 78 anos, ocupa a presidência honorária
de um império
de 803 empresas

Fatia da família na empresa:
30% da ações

Faturamento da Fiat:
47 bilhões de dólares

 

Beleza americana

Os maiores fabricantes de automóveis dos Estados Unidos estão concentrando toda a sua artilharia na conquista da Europa. É um mercado voraz e exigente que apenas no ano passado comprou 15 milhões de carros novos. Na semana passada, durante o Salão do Automóvel de Genebra, na Suíça, a Chrysler e a
General Motors exibiram as armas
que vão usar para enfrentar as concorrentes européias.
AP
AP

OPEL SPEEDSTER
Desenhado pela divisão européia da GM, carrega um motor de alumínio capaz de ir de zero a 160 quilômetros por hora em menos de seis segundos.
O conversível, que chegará às lojas ainda neste ano, tem dois lugares e espaço para guardar a capota atrás dos bancos.

CHRYSLER ESX3
É um carro politicamente correto, bem ao gosto europeu.
Tem motor híbrido, movido
a energia elétrica e diesel, é mais econômico e menos poluente.
Alguns componentes
internos são feitos com material reciclado. É ainda um carro conceito, sem data para ser lançado.

 

Saiba mais
Da internet
  www.salon-auto.ch