Edição 1 639 - 8/3/2000

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O inimigo número 1
dos verdes

Robert Shapiro, o homem por trás dos
transgênicos, tem medo do ecoterrorismo

Alexandre Mansur e Vladimir Netto

 
Tina Coelho
Shapiro, em Brasília: comportamento discreto devido à fúria dos ambientalistas

O americano Robert Shapiro é presidente de uma das maiores empresas do mundo, a Monsanto. Com faturamento de 9,6 bilhões de dólares por ano e investimento anual de 4 bilhões em pesquisas, a companhia tem uma lista de produtos inovadores que trazem benefícios a milhões de pessoas. No ano passado, por meio da subsidiária Searle, lançou o remédio Celebrex, contra artrite. Foi o medicamento novo mais vendido do ano nos Estados Unidos. Presidentes de empresas desse porte geralmente têm status equivalente ao de chefes de Estado. Por onde vão, são recebidos com festas, discursos, palanques e afagos de políticos preeminentes. Com Shapiro é diferente. Ele evita aparições públicas, entra e sai sorrateiramente dos países. Há duas semanas, veio ao Brasil sem nenhum anúncio, conversou com senadores e ministros em Brasília e foi embora no dia seguinte para os Estados Unidos, tão silenciosamente quanto chegou. O comportamento discreto não se deve ao medo de seqüestro – mas, sim, à fúria dos ambientalistas, que o perseguem com protestos por onde vai. Isso ocorre porque os ecologistas de todo o mundo o escolheram como inimigo número 1.

O pesadelo de Shapiro é resultado de um sonho ambicioso. Até 1993 a Monsanto era uma empresa que fabricava pesticidas e produtos químicos para uso industrial, como fibras para carpete. Recém-empossado como presidente da empresa, Shapiro apostou que o futuro da companhia estava no que batizou de "ciências da vida". Com base na biotecnologia, a Monsanto criaria vegetais capazes de revolucionar a medicina: sementes que baixassem o nível de colesterol das pessoas, batatas que não apenas alimentassem mas servissem como vacina. Os problemas começaram com o lançamento do primeiro produto da nova tecnologia, a soja transgênica. Trata-se de uma semente que, graças à manipulação genética, resiste ao mais potente herbicida. A vantagem é que é possível exterminar as ervas daninhas sem prejudicar seu crescimento. Mais tarde vieram novas variedades de milho, algodão e canola mais resistentes aos insetos, reduzindo a necessidade de pesticidas.

O sucesso comercial foi espetacular. O FDA, o rigoroso órgão do governo americano que fiscaliza remédios e alimentos, aprovou os produtos. Os transgênicos estão hoje presentes em cerca de 60% de toda a comida processada no país. Estima-se que sejam consumidos por 2,5 bilhões de pessoas em todo o mundo. O desastre foi de relações públicas. Os ambientalistas reagiram aos transgênicos como se a Monsanto tivesse libertado Frankenstein. São preocupações justificáveis, pois se mexeu no material genético de plantas e ninguém sabe com certeza em que isso pode dar. Temeu-se que as sementes se espalhassem pela natureza criando uma vegetação de pesadelo ou fizessem mal à saúde. Nenhuma pesquisa científica confirmou essas suspeitas de forma séria e definitiva. No ano passado, a empresa anunciou que passaria a fornecer sementes transgênicas estéreis, de modo a eliminar o risco de proliferação na natureza. A notícia foi mal recebida porque se viu que embutia uma estratégia comercial perversa: também iria impedir que o agricultor usasse parte da produção no plantio da próxima safra, obrigando-o a comprar novo estoque da Monsanto. "Essa é uma empresa que as pessoas adoram odiar", observa o americano Richard Stover, analista do mercado farmacêutico.

O principal foco de resistência está na Europa, onde vários países impõem restrições ao plantio e ao consumo. Alimentos transgênicos são proibidos no próprio restaurante da fábrica da Monsanto na Inglaterra, por exigência dos funcionários. No Brasil é proibido plantar, exceto em estações experimentais. Shapiro veio ao país exatamente para pedir às autoridades urgência na liberação do produto. Olhando para trás, o presidente da Monsanto acha que, no momento do lançamento da soja transgênica, avaliou mal a reação do público. "Tínhamos imensa confiança na tecnologia e sempre vimos nossos produtos como benéficos para os agricultores e para o meio ambiente", diz Shapiro. "Acho que acreditamos ingenuamente que o resto do mundo iria chegar à mesma conclusão." O erro de estratégia talvez tenha sido começar com um produto cujas vantagens são difíceis de explicar ao público em geral. Em lugar dos prometidos alimentos com propriedades medicinais, o que a empresa está vendendo é um produto cujos benefícios diretos só são plenamente percebidos pelos agricultores.

Em vez de se acomodar, o alarido dos ecologistas só cresceu com o passar dos anos. A Monsanto investiu 8 bilhões de dólares para comprar grandes empresas de sementes, como a Cargill, alimentando o medo de que vá monopolizar a produção mundial de sementes. "Quem controla as sementes também controla o suprimento de alimentos", alerta a americana Hope Shand, diretora da organização ambientalista Rafi. No final de 1998, ao ser atingido no rosto por uma torta vegetariana, Shapiro entendeu que sua cabeça está a prêmio entre os ecoterroristas. Na sua casa em Chicago, onde vive com a mulher e os dois filhos pequenos, a segurança foi reforçada. Ele ainda sai nos finais de semana e faz programas normais, como levar a família ao zoológico, mas sempre com esquemas especiais de segurança. "O perigo é real. Recentemente explodiu uma bomba no laboratório de manipulação genética na Universidade de Michigan", diz Shapiro. "Uma coisa é você não concordar com meus argumentos, outra bem diferente é a violência." Ele tem certeza de que a biotecnologia agrícola será, mais cedo ou mais tarde, reconhecida pelos críticos como um "instrumento valioso para alimentar a população do mundo e para proteger o meio ambiente". Mas então o senhor transgênico já terá saído de cena. Depois da fusão da Monsanto com a Pharmacia & Upjohn, uma megaempresa farmacêutica, o presidente da Pharmacia, Fred Hassan, assumirá a direção da nova corporação. Shapiro, de 61 anos, vai se afastar da Monsanto em meados do ano que vem.

 
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  www.monsanto.com
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