Estados Unidos
Gangue fardada
Los Angeles descobre que seus policiais
mentem, roubam e falsificam provas
Reuters
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Perez, o delator: escândalo
histórico
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Os brasileiros tendem a pensar que certas tristezas, como
corrupção e violência na polícia,
só ocorrem por aqui ou, na pior das hipóteses,
em países do Terceiro Mundo. Não é
bem assim. Foi preciso apenas um de seus integrantes abrir
o bico para que a força policial de Los Angeles,
a segunda maior cidade dos Estados Unidos, fosse identificada
como um refúgio para tiras desonestos, que pouco
diferem dos criminosos que deveriam combater. No que se
considera o maior escândalo da história da
polícia local, nada menos que quarenta condenações
já foram anuladas por terem sido fruto de armações
e falsos depoimentos cinicamente perpetrados por homens
de farda. As denúncias são em quantidade assombrosa
e podem envolver mais de setenta policiais. Num dos casos
que chegaram ao conhecimento dos promotores, em 1996 dois
policiais invadiram o apartamento de Javier Francisco Ovando,
de 19 anos, membro de uma gangue. Sem perguntas nem voz
de prisão, feriram-no a bala no peito e na cabeça.
Ovando sobreviveu, mas está preso a uma cadeira de
rodas. Os policiais modificaram a cena para parecer que
ele havia recebido a polícia a tiros, o que levou
à condenação de Ovando a 23 anos de
prisão. A reviravolta veio quando um dos dois investigadores
envolvidos no caso, Rafael Perez, foi preso pelo roubo de
4 quilos de cocaína apreendida. Ao entregar seus
colegas em troca da redução de sua pena, de
catorze para cinco anos de prisão, ele se tornou
o centro do escândalo. Ovando foi solto em setembro,
depois de quase três anos na cadeia, e dezenas de
outros presos estão ganhando a liberdade. Eram todos
vítimas de uma verdadeira quadrilha policial.
Como em vários outros lugares do mundo, policiais
corruptos, violentos e com forte inclinação
para o banditismo aproveitaram-se do clima de histeria provocado
pela alta criminalidade. A unidade à qual pertencia
Rafael Perez, a Rampart, uma delegacia do centro de Los
Angeles, criou anos atrás um grupo especializado
no combate às gangues, o Crash. Alguns de seus membros
passaram não apenas a usar violência em excesso,
mas a lucrar com o medo da população. Envolvimento
com tráfico de drogas e extorsão eram apenas
algumas das atividades de rotina descritas por Perez. Organizados
como uma gangue fardada, esses policiais tinham gritos de
guerra próprios e realizavam rituais de iniciação
em que os novos membros eram espancados. Os responsáveis
pela investigação, que já contam com
o auxílio do FBI, a polícia federal, estão
debruçados sobre 17.000
casos cujos resultados podem ter sido forjados. Há
a possibilidade de as indenizações às
vítimas atingirem a salgada quantia de 125 milhões
de dólares. Mas numa força policial já
manchada por um caso de imensa repercussão
o espancamento de um motorista negro flagrado por um cinegrafista
amador em 1991 , que se tornou pivô de uma batalha
racial nas ruas de Los Angeles um ano depois, esse dinheiro
dificilmente recuperará um bem maior: a credibilidade.
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