Edição 1 639 - 8/3/2000

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Estados Unidos

Gangue fardada

Los Angeles descobre que seus policiais mentem, roubam e falsificam provas

 
Reuters

Perez, o delator: escândalo histórico

Os brasileiros tendem a pensar que certas tristezas, como corrupção e violência na polícia, só ocorrem por aqui ou, na pior das hipóteses, em países do Terceiro Mundo. Não é bem assim. Foi preciso apenas um de seus integrantes abrir o bico para que a força policial de Los Angeles, a segunda maior cidade dos Estados Unidos, fosse identificada como um refúgio para tiras desonestos, que pouco diferem dos criminosos que deveriam combater. No que se considera o maior escândalo da história da polícia local, nada menos que quarenta condenações já foram anuladas por terem sido fruto de armações e falsos depoimentos cinicamente perpetrados por homens de farda. As denúncias são em quantidade assombrosa e podem envolver mais de setenta policiais. Num dos casos que chegaram ao conhecimento dos promotores, em 1996 dois policiais invadiram o apartamento de Javier Francisco Ovando, de 19 anos, membro de uma gangue. Sem perguntas nem voz de prisão, feriram-no a bala no peito e na cabeça. Ovando sobreviveu, mas está preso a uma cadeira de rodas. Os policiais modificaram a cena para parecer que ele havia recebido a polícia a tiros, o que levou à condenação de Ovando a 23 anos de prisão. A reviravolta veio quando um dos dois investigadores envolvidos no caso, Rafael Perez, foi preso pelo roubo de 4 quilos de cocaína apreendida. Ao entregar seus colegas em troca da redução de sua pena, de catorze para cinco anos de prisão, ele se tornou o centro do escândalo. Ovando foi solto em setembro, depois de quase três anos na cadeia, e dezenas de outros presos estão ganhando a liberdade. Eram todos vítimas de uma verdadeira quadrilha policial.

Como em vários outros lugares do mundo, policiais corruptos, violentos e com forte inclinação para o banditismo aproveitaram-se do clima de histeria provocado pela alta criminalidade. A unidade à qual pertencia Rafael Perez, a Rampart, uma delegacia do centro de Los Angeles, criou anos atrás um grupo especializado no combate às gangues, o Crash. Alguns de seus membros passaram não apenas a usar violência em excesso, mas a lucrar com o medo da população. Envolvimento com tráfico de drogas e extorsão eram apenas algumas das atividades de rotina descritas por Perez. Organizados como uma gangue fardada, esses policiais tinham gritos de guerra próprios e realizavam rituais de iniciação em que os novos membros eram espancados. Os responsáveis pela investigação, que já contam com o auxílio do FBI, a polícia federal, estão debruçados sobre 17.000 casos cujos resultados podem ter sido forjados. Há a possibilidade de as indenizações às vítimas atingirem a salgada quantia de 125 milhões de dólares. Mas numa força policial já manchada por um caso de imensa repercussão – o espancamento de um motorista negro flagrado por um cinegrafista amador em 1991 –, que se tornou pivô de uma batalha racial nas ruas de Los Angeles um ano depois, esse dinheiro dificilmente recuperará um bem maior: a credibilidade.

 
Saiba mais
Dos arquivos de VEJA
  A criminalidade entre policiais assusta
 
Da internet
  www.fbi.gov
  www.lapdonline.org