"Não acredito que haja o mal
absoluto"
João Moreira Salles não vai a festas, tem
pouquíssimos amigos e horror a multidões.
Passou a juventude lendo, trancado em casa. "Eu não
vivia: eu lia. Fui uma pessoa construída na literatura",
diz. Nesta entrevista, ele explica à jornalista Thaís
Oyama por que se envolveu com um dos maiores traficantes
do Rio, Marcinho VP.
Veja Como você está se sentindo
por ter despertado uma polêmica nacional?
João Salles É uma situação
completamente maluca para mim. Eu sou extremamente discreto
orgulho-me de nunca ter aparecido em seções
de colunáveis e sempre procurei não ser uma
pessoa pública.
Veja Isso exigiu esforço?
Salles Sim, foi uma opção clara.
Veja Que tipo de esforço?
Salles Por exemplo: eu jamais falo com a imprensa,
a não ser quando tenho de divulgar um documentário.
Em televisão não apareço jamais, nem
para falar dos meus filmes. Também me recuso a opinar
sobre qualquer assunto que não seja o meu trabalho.
Outro dia, um jornalista me ligou para perguntar que livro
eu estava lendo. Eu me nego a responder a questões
desse tipo. É uma coisa de foro íntimo! Ninguém
precisa saber o que estou lendo.
Veja Foi sempre assim?
Salles Sim. Namorei muito pouco, fiquei com a
mesma menina dos 16 aos 28 anos. Sempre tive um número
bem pequeno de amigos, fui somente a dois shows em toda
a minha vida, não vou a boate e você nunca
me verá numa festa, nem mesmo de família.
Para você ter uma idéia, não fui ao
casamento do meu irmão. No meu, havia eu, minha mulher
e o padre.
Veja Isso porque você é tímido?
Salles Tenho grande pudor de me expor e não
me sinto bem em multidões. Fico meio desnorteado,
meio tonto. Isso só não funciona em estádios
de futebol. Meu carro vai sozinho ao Maracanã. Lá
eu me transformo: grito, xingo, fico irreconhecível.
Sou botafoguense de alma, é uma opção
quase existencial.
Veja Não tem algum exagero nisso?
Salles Não. O Botafogo é certamente
uma das coisas mais importantes da minha vida. Decidi ser
botafoguense aos 20 anos. É um time muito peculiar,
porque não é como o Flamengo essa coisa
exuberante, vitoriosa, unânime. O Botafogo tem pouquíssimos
torcedores, todos melancólicos, meio desalentados,
uma gente que vai para ver o time perder, não para
vê-lo ganhar. É um time que nunca dá
muito certo, está sempre na contramão... É
a minha cara. Não tem nada mais igual a mim que o
Botafogo.
Veja Todo o episódio envolvendo sua relação
com o traficante Marcinho VP surgiu a partir da idéia
de fazer um documentário sobre a vida no morro. Algum
trabalho seu já fez com que você se envolvesse
de forma parecida com um personagem?
Salles Todos, de certa maneira. Eu e o Waltinho
(o cineasta Walter Salles Júnior, seu irmão
e sócio na produtora) sempre tivemos a seguinte
opinião: você não pode fazer um documentário,
usar as pessoas, ganhar prêmios e dinheiro com isso
e depois deixá-las na mesma situação
em que elas estavam. Foi assim com o Vinícius (personagem
principal de Central do Brasil, dirigido por Walter),
foi assim com o Márcio e foi assim também,
por exemplo, com dois dos meninos que aparecem armados em
Notícias de uma Guerra Particular. Ambos eram
analfabetos e, depois que o filme ficou pronto, nós
contratamos uma professora particular para eles. Dissemos
que, se largassem as armas, nós os alfabetizaríamos
e lhes daríamos uma bolsa.
Veja Deu certo?
Salles Deu certo durante sete meses. Depois,
eles voltaram para o tráfico, e acho que um foi morto.
De qualquer maneira, sempre acreditamos que tem de ser assim:
o filme cessa, mas a relação tem de continuar.
Você usou aquelas pessoas. Tem de dar algo em troca.
Veja Por que, em sua opinião, o episódio
com o Márcio ganhou tanta repercussão?
Salles Acho que as pessoas duvidam que possa
existir uma relação entre dois seres tão
diferentes apenas porque um desejou compreender o outro.
Acham que tem de ter um esqueleto no armário: "Ah,
o João deve cheirar, o João deve ter alguma
relação sacana com esse cara". Desconhecem
que toda a minha trajetória sempre foi nesse sentido:
de tentar compreender o que se passa no Rio, entender a
tragédia cotidiana desta cidade que faz com que tantos
meninos, diante da opção de ir para o mundo
legal e de pegar uma arma, prefiram pegar uma arma. Meu
interesse sempre foi esse: entender por que a pessoa, entre
o bem e o mal, fica com o mal, fica com o crime para
poder descobrir o antídoto para isso. Se você
fica matando a cobra o tempo todo, não vai descobrir
o antídoto para o veneno. Venho trabalhando com isso
há muito tempo. Pegar o evento Márcio e descontextualizá-lo
é injusto.
Veja Tirando esse interesse sociológico,
houve uma empatia entre você e o Márcio. O
que o atraiu nele?
Salles Olha, vou te dizer uma coisa: bandido
casa, bandido tem filho, tem mulheres que se apaixonam por
ele. Se fossem monstros, não conseguiriam ter nada
disso. Então, cada vez que você se aproxima
de um bandido, ele deixa de ser só um bandido. Durante
minha aproximação com o Márcio, eu
passei a vê-lo como um sujeito que é um criminoso,
sim, mas que tem uma série de outros atributos, um
lado iluminado.
Veja Como era esse lado?
Salles Ele demonstrava uma sede incrível
de entender o mundo. Tinha, por exemplo, uma vontade sincera
de entender o Moreira Salles, o sujeito que estava do lado
oposto ao dele.
Veja Fazia perguntas a você? De que tipo?
Salles Fazia muitas, e eram espontâneas.
Do tipo: "Como era a escola em que você estudou?"
"Por que é que alguém tem de falar francês?"
"Por que é importante ler Machado de Assis?" "O que
é que vai acontecer comigo se eu ler Machado de Assis?"
Essa curiosidade eu não posso ver como uma coisa
ruim. E depois não acredito que exista o mal absoluto.
Mesmo alguém tão comprometido com o crime
como o Márcio, pelo menos tão comprometido
segundo a mitologia do Rio, tinha centelhas de humanidade.
Eu acho que é bacana apostar nessa centelha.
Veja Muita gente classificou sua atitude como
uma tentativa de expiar uma culpa pelo fato de ser muito
rico. O que você acha disso?
Salles Se de fato eu sofro desse mal, ele não
nasceu junto com a minha relação com o Márcio.
Desde os 18 anos venho tentando fazer coisas parecidas.
Morei um ano na África, trabalhando como voluntário
num campo de refugiados, dei aula de arte na favela Santa
Marta durante mais de um ano e financio diversos projetos
voltados a oferecer uma alternativa para meninos da periferia
em contato com o crime. Mas o que eu penso antes de tudo
é que é muito difícil que alguém
neste país não tenha culpa social e
não precisa ser Moreira Salles para sentir isso.
Veja É melhor fazer algo movido a culpa
que não fazer nada?
Salles Você tem essa alternativa. A outra
é pensar que, agindo, vou estar só tentando
mitigar minha culpa para poder dormir tranqüilo. A
partir daí, decido não fazer nada e me orgulho
de, heroicamente, ficar rolando na cama à noite.
Diante dessas duas alternativas, eu, francamente, prefiro
a primeira.
Veja Você nasceu em uma família
muito rica e sempre viveu no Rio. Esse contraste entre a
miséria e a opulência o incomodava desde cedo?
Salles Quando era adolescente, esse contraste
ainda não era tão grande, mas eu observava
a questão do crime com muita curiosidade.
Veja Como assim?
Salles Dos meus 18 até os 24 anos estudei
com afinco a questão do bem e do mal na literatura.
E, de todos os autores que li, o que mais me influenciou
foi Platão. Ele diz que o mal é o desconhecimento
do bem. Ou seja, ele entende que, se alguém que faz
o mal conhecesse os efeitos do bem, optaria pelo bem. Eu
acredito sinceramente nessa frase.
Veja Mas isso veio da literatura. E o que você
observava nas ruas? Também o incomodava, fazia-o
pensar?
Salles Mas eu não era uma pessoa que vivia.
Eu era uma pessoa que lia. Eu passei a viver quando eu fui
para a África. Só aí eu passei a ter
experiências. Eu fui uma pessoa construída
na literatura.
Veja Onde você estudou?
Salles Estudei no Colégio Suíço-Brasileiro,
onde aprendi a inútil língua alemã,
que eu me esforço todo dia para esquecer...
Veja Por quê?
Salles Porque se eu tenho algum preconceito é
em relação à Alemanha e pelas
razões mais óbvias. Desde que eu passei a
entender o que a Alemanha representou para o mundo no século
XX, eu lamento falar alemão. Mas, depois do Colégio
Suíço, fui para o São Vicente, que
era uma escola liberal. Mais tarde, fiz economia na PUC.
Veja Para dar prosseguimento às atividades
da família?
Salles Não. Por total incapacidade de
decidir o que eu queria ser. Na verdade, descobri depois,
mas aí já havia perdido o bonde. Gostaria
de ter sido médico. De uns oito anos para cá,
penso obsessivamente nisso. Eu me vejo vestindo aquelas
roupas maravilhosas, trabalhando naquelas tribos africanas
cheias daqueles vírus absolutamente letais. Adoraria
ter sido um médico. Sabe por quê? Porque para
mim seria muito importante colocar a cabeça no travesseiro
toda noite e sentir que eu fiz alguma coisa que tivesse
alguma importância. E acho que só os médicos
têm essa sensação.