Edição 1 639 - 8/3/2000

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"Não acredito que haja o mal absoluto"

João Moreira Salles não vai a festas, tem pouquíssimos amigos e horror a multidões. Passou a juventude lendo, trancado em casa. "Eu não vivia: eu lia. Fui uma pessoa construída na literatura", diz. Nesta entrevista, ele explica à jornalista Thaís Oyama por que se envolveu com um dos maiores traficantes do Rio, Marcinho VP.

Veja – Como você está se sentindo por ter despertado uma polêmica nacional?
João Salles –
É uma situação completamente maluca para mim. Eu sou extremamente discreto – orgulho-me de nunca ter aparecido em seções de colunáveis e sempre procurei não ser uma pessoa pública.

Veja – Isso exigiu esforço?
Salles –
Sim, foi uma opção clara.

Veja – Que tipo de esforço?
Salles –
Por exemplo: eu jamais falo com a imprensa, a não ser quando tenho de divulgar um documentário. Em televisão não apareço jamais, nem para falar dos meus filmes. Também me recuso a opinar sobre qualquer assunto que não seja o meu trabalho. Outro dia, um jornalista me ligou para perguntar que livro eu estava lendo. Eu me nego a responder a questões desse tipo. É uma coisa de foro íntimo! Ninguém precisa saber o que estou lendo.

Veja – Foi sempre assim?
Salles –
Sim. Namorei muito pouco, fiquei com a mesma menina dos 16 aos 28 anos. Sempre tive um número bem pequeno de amigos, fui somente a dois shows em toda a minha vida, não vou a boate e você nunca me verá numa festa, nem mesmo de família. Para você ter uma idéia, não fui ao casamento do meu irmão. No meu, havia eu, minha mulher e o padre.

Veja – Isso porque você é tímido?
Salles –
Tenho grande pudor de me expor e não me sinto bem em multidões. Fico meio desnorteado, meio tonto. Isso só não funciona em estádios de futebol. Meu carro vai sozinho ao Maracanã. Lá eu me transformo: grito, xingo, fico irreconhecível. Sou botafoguense de alma, é uma opção quase existencial.

Veja – Não tem algum exagero nisso?
Salles –
Não. O Botafogo é certamente uma das coisas mais importantes da minha vida. Decidi ser botafoguense aos 20 anos. É um time muito peculiar, porque não é como o Flamengo – essa coisa exuberante, vitoriosa, unânime. O Botafogo tem pouquíssimos torcedores, todos melancólicos, meio desalentados, uma gente que vai para ver o time perder, não para vê-lo ganhar. É um time que nunca dá muito certo, está sempre na contramão... É a minha cara. Não tem nada mais igual a mim que o Botafogo.

Veja – Todo o episódio envolvendo sua relação com o traficante Marcinho VP surgiu a partir da idéia de fazer um documentário sobre a vida no morro. Algum trabalho seu já fez com que você se envolvesse de forma parecida com um personagem?
Salles –
Todos, de certa maneira. Eu e o Waltinho (o cineasta Walter Salles Júnior, seu irmão e sócio na produtora) sempre tivemos a seguinte opinião: você não pode fazer um documentário, usar as pessoas, ganhar prêmios e dinheiro com isso e depois deixá-las na mesma situação em que elas estavam. Foi assim com o Vinícius (personagem principal de Central do Brasil, dirigido por Walter), foi assim com o Márcio e foi assim também, por exemplo, com dois dos meninos que aparecem armados em Notícias de uma Guerra Particular. Ambos eram analfabetos e, depois que o filme ficou pronto, nós contratamos uma professora particular para eles. Dissemos que, se largassem as armas, nós os alfabetizaríamos e lhes daríamos uma bolsa.

Veja – Deu certo?
Salles –
Deu certo durante sete meses. Depois, eles voltaram para o tráfico, e acho que um foi morto. De qualquer maneira, sempre acreditamos que tem de ser assim: o filme cessa, mas a relação tem de continuar. Você usou aquelas pessoas. Tem de dar algo em troca.  

Veja – Por que, em sua opinião, o episódio com o Márcio ganhou tanta repercussão?
Salles –
Acho que as pessoas duvidam que possa existir uma relação entre dois seres tão diferentes apenas porque um desejou compreender o outro. Acham que tem de ter um esqueleto no armário: "Ah, o João deve cheirar, o João deve ter alguma relação sacana com esse cara". Desconhecem que toda a minha trajetória sempre foi nesse sentido: de tentar compreender o que se passa no Rio, entender a tragédia cotidiana desta cidade que faz com que tantos meninos, diante da opção de ir para o mundo legal e de pegar uma arma, prefiram pegar uma arma. Meu interesse sempre foi esse: entender por que a pessoa, entre o bem e o mal, fica com o mal, fica com o crime – para poder descobrir o antídoto para isso. Se você fica matando a cobra o tempo todo, não vai descobrir o antídoto para o veneno. Venho trabalhando com isso há muito tempo. Pegar o evento Márcio e descontextualizá-lo é injusto.

Veja – Tirando esse interesse sociológico, houve uma empatia entre você e o Márcio. O que o atraiu nele?
Salles –
Olha, vou te dizer uma coisa: bandido casa, bandido tem filho, tem mulheres que se apaixonam por ele. Se fossem monstros, não conseguiriam ter nada disso. Então, cada vez que você se aproxima de um bandido, ele deixa de ser só um bandido. Durante minha aproximação com o Márcio, eu passei a vê-lo como um sujeito que é um criminoso, sim, mas que tem uma série de outros atributos, um lado iluminado.

Veja – Como era esse lado?
Salles –
Ele demonstrava uma sede incrível de entender o mundo. Tinha, por exemplo, uma vontade sincera de entender o Moreira Salles, o sujeito que estava do lado oposto ao dele.

Veja – Fazia perguntas a você? De que tipo?
Salles –
Fazia muitas, e eram espontâneas. Do tipo: "Como era a escola em que você estudou?" "Por que é que alguém tem de falar francês?" "Por que é importante ler Machado de Assis?" "O que é que vai acontecer comigo se eu ler Machado de Assis?" Essa curiosidade eu não posso ver como uma coisa ruim. E depois não acredito que exista o mal absoluto. Mesmo alguém tão comprometido com o crime como o Márcio, pelo menos tão comprometido segundo a mitologia do Rio, tinha centelhas de humanidade. Eu acho que é bacana apostar nessa centelha.

Veja – Muita gente classificou sua atitude como uma tentativa de expiar uma culpa pelo fato de ser muito rico. O que você acha disso?
Salles –
Se de fato eu sofro desse mal, ele não nasceu junto com a minha relação com o Márcio. Desde os 18 anos venho tentando fazer coisas parecidas. Morei um ano na África, trabalhando como voluntário num campo de refugiados, dei aula de arte na favela Santa Marta durante mais de um ano e financio diversos projetos voltados a oferecer uma alternativa para meninos da periferia em contato com o crime. Mas o que eu penso antes de tudo é que é muito difícil que alguém neste país não tenha culpa social – e não precisa ser Moreira Salles para sentir isso.

Veja – É melhor fazer algo movido a culpa que não fazer nada?
Salles –
Você tem essa alternativa. A outra é pensar que, agindo, vou estar só tentando mitigar minha culpa para poder dormir tranqüilo. A partir daí, decido não fazer nada e me orgulho de, heroicamente, ficar rolando na cama à noite. Diante dessas duas alternativas, eu, francamente, prefiro a primeira.

Veja – Você nasceu em uma família muito rica e sempre viveu no Rio. Esse contraste entre a miséria e a opulência o incomodava desde cedo?
Salles –
Quando era adolescente, esse contraste ainda não era tão grande, mas eu observava a questão do crime com muita curiosidade.

Veja – Como assim?
Salles –
Dos meus 18 até os 24 anos estudei com afinco a questão do bem e do mal na literatura. E, de todos os autores que li, o que mais me influenciou foi Platão. Ele diz que o mal é o desconhecimento do bem. Ou seja, ele entende que, se alguém que faz o mal conhecesse os efeitos do bem, optaria pelo bem. Eu acredito sinceramente nessa frase.

Veja – Mas isso veio da literatura. E o que você observava nas ruas? Também o incomodava, fazia-o pensar?
Salles –
Mas eu não era uma pessoa que vivia. Eu era uma pessoa que lia. Eu passei a viver quando eu fui para a África. Só aí eu passei a ter experiências. Eu fui uma pessoa construída na literatura.

Veja – Onde você estudou?
Salles –
Estudei no Colégio Suíço-Brasileiro, onde aprendi a inútil língua alemã, que eu me esforço todo dia para esquecer...

Veja – Por quê?
Salles –
Porque se eu tenho algum preconceito é em relação à Alemanha – e pelas razões mais óbvias. Desde que eu passei a entender o que a Alemanha representou para o mundo no século XX, eu lamento falar alemão. Mas, depois do Colégio Suíço, fui para o São Vicente, que era uma escola liberal. Mais tarde, fiz economia na PUC.

Veja – Para dar prosseguimento às atividades da família?
Salles –
Não. Por total incapacidade de decidir o que eu queria ser. Na verdade, descobri depois, mas aí já havia perdido o bonde. Gostaria de ter sido médico. De uns oito anos para cá, penso obsessivamente nisso. Eu me vejo vestindo aquelas roupas maravilhosas, trabalhando naquelas tribos africanas cheias daqueles vírus absolutamente letais. Adoraria ter sido um médico. Sabe por quê? Porque para mim seria muito importante colocar a cabeça no travesseiro toda noite e sentir que eu fiz alguma coisa que tivesse alguma importância. E acho que só os médicos têm essa sensação.