O radical e o chique
As relações perigosas entre
o intelectual
rico com preocupações sociais e o criminoso
metido a revolucionário
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Ronaldo França
Estetizar a pobreza foi sempre a saída clássica
do carioca de talento obrigado a conviver com a miséria
dos morros. Alvorada lá no morro que beleza/ ninguém
chora não há tristeza/ ninguém sente
dissabor, cantou Cartola, glória eterna da Mangueira.
Os compositores do asfalto foram mais ousados. Eles glamourizaram
a malandragem e o crime. Chico Buarque mandou "chamar o
ladrão" e na canção Meu Guri
passa uma mão terna na cabeça dos meninos
que assaltam os burgueses e levam a féria para os
pais nos barracos ao fim do dia. Coisa de artista. Na semana
passada, os cariocas entretinham-se com uma polêmica
em torno de uma atitude ainda mais radical. O jornal O
Globo revelou que o cineasta João Moreira Salles
vinha mantendo uma relação próxima
e duradoura com Marcinho VP, um dos mais conhecidos e procurados
traficantes de cocaína do Rio.
João Salles, um dos herdeiros do Unibanco, o terceiro
maior banco privado do país, conheceu o traficante
em 1997 quando rodou um documentário no Morro Dona
Marta. Depois disso, tornaram-se próximos. João
Salles, um rapaz introvertido e de intensa atividade intelectual,
recomendava livros ao traficante e ouvia dele opiniões
sobre as injustiças da sociedade e a inevitabilidade
do tráfico em lugares como os morros cariocas. Interessado
pelas aventuras de Marcinho VP, João Salles chegou
a enviar regularmente ao traficante 1.200
reais por mês, durante quatro meses, em troca dos
originais de um livro autobiográfico que o bandido
estaria escrevendo na Argentina, onde esteve foragido por
algum tempo. A encomenda do livro e o pagamento da mesada
eram também uma tentativa de João Salles de
tirar o traficante da senda criminosa. Entre 1997 e 1998,
Salles e Marcinho VP se encontraram mais de setenta vezes.
A revelação provocou um barulho fenomenal.
João Salles foi chamado a depor pelo Ministério
Público Estadual, pela CPI do Narcotráfico
e pela corregedoria da polícia fluminense.
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A ficha de Marcinho VP
Tráfico
de drogas: condenado a
42 anos em
regime fechado
Corrupção
de menores: responde a processo por contratar
crianças para entregar droga
Assassinatos:
aguarda julgamento por tentativa de homicídio.
A polícia investiga seu bando por outras trinta
mortes no Morro Dona Marta
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No Rio de Janeiro pré-carnavalesco, a história
de um rapaz multimilionário e romântico que
se torna amigo e financiador do grande traficante de drogas,
e ainda nutre a esperança de redimi-lo, adquiriu
os contornos de uma parábola. "João Salles
é um herói da cidade", disse o cineasta Cacá
Diegues. "O país estaria melhor se nossa elite tivesse
a preocupação social desse filho de banqueiro",
disse o escritor e jornalista Zuenir Ventura. O governador
Anthony Garotinho convocou reuniões intermináveis
com os responsáveis pela segurança pública,
culminando-as com entrevistas coletivas à imprensa.
"É justo que alguém dê a um foragido
da Justiça, matador, traficante, estuprador 1.200
reais para ele levar boa vida em Buenos Aires? Lugar de
bandido é na cadeia e não dançando
tango", decretou o governador.
Trinta anos, bem falante, nascido numa família
de gente humilde e honesta, e vivendo numa favela da Zona
Sul do Rio de Janeiro, Marcinho VP não é bem
o tipo perfeito para ilustrar a cantilena do marginal levado
a delinqüir pelas adversidades. Integrante de um bando
que, conforme suspeita a polícia, tem trinta assassinatos
nas costas, o bandido, no entanto, apresenta-se como uma
vítima da sociedade. Filho de família nordestina
que migrou para o Rio em busca de oportunidade, estudou
até a 5ª série do 1º grau, tornou-se
surfista na Praia do Leme e andava em companhia de garotos
de classe média. Aos 16 anos, virou as costas aos
exemplos da mãe, que trabalhava fora para sustentar
as mensalidades da escola particular do filho, e entrou
para o tráfico, com uma vantagem sobre seus colegas
criminosos. Marcinho VP, um rapaz insinuante, desenvolveu
um marketing eficiente para vender-se, a ponto de exercer
fascínio sobre moças de famílias ricas
da Zona Sul. Uma delas, além de rica, intelectualizada
e rebelde, tornou-se sua amante recentemente.
É fácil perceber a razão do romantismo
que desperta o marginal VP, com uma metralhadora na mão
e um discurso social na ponta da língua. "Sou traficante
porque meu povo está escravizado pelo sistema", disse
certa vez numa entrevista. Ele lista o subcomandante Marcos,
do Exército Zapatista de Libertação
Nacional, do México, como um de seus ídolos.
E divulga a lenda aceita por boa parte da classe média
intelectualizada do Rio de que os traficantes são
protetores e libertadores das comunidades carentes abandonadas
pelo poder público. Tudo falso. Suas práticas
para a manutenção do poder seguem o mesmo
rito de intimidação e demonstração
de força comum a todos que oprimem pelo terror e
pelo poder das armas. Numa entrevista dada ao programa Fantástico,
da Rede Globo, no domingo passado, o traficante disse que
pretende liderar um certo Movimento Social Revolucionário
pela Favelania um neologismo rastaqüera, que junta
favela e cidadania. Segundo ele, 30% das crianças
que moram em morros e favelas acabam envolvidas com o tráfico.
Ele próprio contribuiu bastante para essa estatística.
Além das acusações de tráfico
e homicídio, Marcinho VP responde a processo por
crime de corrupção de menores em que incorreu
ao aliciar crianças, usadas em seu bando como "aviões",
os encarregados de entregar droga aos compradores. VP, alcunha
montada com as primeiras letras de palavrões muito
conhecidos, dominou o tráfico no Morro Dona Marta
até o mês passado, quando um rival tomou-lhe
os pontos-de-venda de droga na comunidade de 12 000 moradores,
localizada a menos de 200 metros da sede da prefeitura carioca.
Aos comparsas, segundo a polícia, Marcinho VP já
anunciou que quando puder vai tentar retomar à força
o controle do morro hoje em mãos do traficante Zaca.
João Salles interessou-se por VP e VP por
João. Filho mais novo do ex-embaixador e banqueiro
Walther Moreira Salles, João Salles tem 37 anos e
um temperamento tão introspectivo que já o
levou a passar réveillons totalmente isolado no Alasca
e na Islândia. Estudou nos melhores colégios
do Rio de Janeiro e Paris e, segundo seus amigos, construiu
uma sólida formação cultural, paralelamente
a uma grande preocupação social. "É
o intelectual da família", diz um amigo. Graças
a esse perfil politicamente correto, já foi parar
no Quênia, onde passou um ano ensinando os alunos
de uma missão protestante a fazer vídeos.
Ao longo dos anos construiu um trabalho de ajuda a comunidades
carentes. Junto com Walter Salles Júnior, seu festejado
irmão diretor de Central do Brasil, financiou
várias ações em favelas. Durante algum
tempo, freqüentou o Dona Marta todas as semanas, dando
aulas de história da arte. Falava, por exemplo, do
pintor e arquiteto florentino Giotto di Bondone (1266-1337)
aos favelados. Giotto foi um divisor de águas na
história da arte, rompendo com a religiosidade asfixiante
da arte medieval e abrindo-se ao Renascimento. Salles voltava
das aulas empolgado com o interesse das crianças
pobres pela arte erudita.
Enquanto isso, emprestava livros de Machado de Assis e
do escritor franco-argelino Albert Camus a Marcinho VP.
Salles lia e discutia os textos com o bandido. O improvável
diálogo entre dois personagens de origem e formação
tão distintas foi possível exatamente porque
o traficante do Dona Marta se mostrou interessado num mundo
caro a Salles o da literatura e das questões sociais.
Previsivelmente, Salles encantou-se pelo personagem. "Essa
relação é uma fraude social", diagnostica
o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos.
"O Moreira Salles pensou, certamente, que ao se aproximar
do Marcinho VP estava se aproximando de todos os marcinhos.
Essa metáfora o rico acaba tomando como realidade."
Não é um exotismo brasileiro. Nos anos 60,
artistas e intelectuais americanos, tendo à frente
os jovens progressistas que integravam a chamada Nova Esquerda,
encantaram-se com os membros do movimento Panteras Negras.
Em seu discurso radical, os Panteras pregavam a luta armada
contra a dominação branca e a criação
de um Vietnã em cada quarteirão dos Estados
Unidos. Na prática, entre os líderes desse
movimento radical havia assassinos, traficantes de drogas
e estupradores. Mas quem ia preocupar-se com isso na audiência
dos privilegiados? Não era, para começar,
uma atitude politicamente correta. Afinal, raciocinavam
os jovens brancos da Nova Esquerda, os Panteras eram violentos
porque a injustiça, a exclusão e a opressão
social os fizeram assim. Cada vez que um Pantera injuriava
uma platéia daqueles brancos bem-sucedidos que festejavam
seu radicalismo, isso o tornava ainda mais admirado entre
os ouvintes. Fez história uma recepção
dada pelo maestro Leonard Bernstein a um grupo de Panteras
Negras em seu apartamento da Quinta Avenida, em Nova York.
"Lenny" Bernstein convidou as mais invejadas celebridades
do momento para o encontro, de artistas a colunistas badalados
de jornais. Os presentes se prostraram diante dos argumentos
dos Panteras, especialistas em vituperar interlocutores
ricos e famosos como aqueles. Poucas vozes críticas
se fizeram ouvir contra a cantilena pró-violência
dos convidados de honra, entra elas o sotaque germânico
do diretor de cinema Otto Preminger e a navalha verbal da
apresentadora de TV Barbara Walters. Os outros se renderam.
Foi um sucesso social extraordinário. No outro dia,
só se falava disso nas altas-rodas. Essa festa, patrocinada
por aqueles que o escritor Tom Wolfe chamaria de "radicais
chiques", tornou-se um símbolo desse namoro dos bem
pensantes com a transgressão.
A polícia tomou conhecimento do envolvimento do
cineasta com o criminoso em outubro do ano passado. Nessa
época, Marcinho estava foragido. A polícia
acredita que o traficante tenha saído do Brasil em
março de 1999. Durante as investigações
para a captura do traficante, foram instaladas escutas telefônicas
nas linhas dos familiares e amigos de Marcinho. Mais de
vinte fitas foram gravadas e constatou-se que havia uma
relação do bandido com o cineasta. Inicialmente
a polícia não deu atenção porque
sabia que ele tinha ligação com intelectuais,
jornalistas e líderes comunitários. O caso
só começou a se tornar público quando
Salles se sentiu ameaçado pela informação
de que suas conversas haviam sido grampeadas.
Temendo chantagem ou a divulgação sensacionalista
do conteúdo das fitas, resolveu procurar as autoridades
fluminenses e contar sua história. Foi apresentado,
no início de dezembro do ano passado, ao coordenador
de Segurança do Estado do Rio, Luiz Eduardo Soares.
"Entendi as razões do João e quis ajudá-lo",
revela Soares, que é antropólogo e coordena
os principais projetos do governo Garotinho na área
de segurança. "Ele me pareceu uma pessoa extremamente
sensível e transparente." Durante alguns dias, os
dois consultaram juristas para saber se a ajuda financeira
a Marcinho VP configuraria um crime. Não é.
Quatro advogados criminais e cíveis ouvidos por VEJA
informam que a lei brasileira não obriga os cidadãos
a delatar um foragido da Justiça. É ilegal
ajudar materialmente um criminoso a esconder ou escapar
da perseguição policial. A se acreditar em
João Salles ele estava mesmo interessado no rico
material documental que o bandido poderia dar-lhe com sua
narrativa. Nesse ponto o instinto de Salles é elogiável.
Grandes obras literárias em todos os tempos nasceram
desse tipo de iniciativa. Toda a polêmica nesse caso
do Rio de Janeiro deixaria de existir se Marcinho estivesse
preso e João Salles o contratasse para escrever suas
memórias atrás das grades, em vez de financiá-lo
na Argentina. Apenas a título de raciocínio:
e o que teria acontecido se João Salles, em vez de
herdeiro de banco, fosse um anônimo bancário
cineasta e, nessa situação, tivesse dado dinheiro
a um foragido da Justiça?
Com reportagem de Consuelo
Dieguez e Marcelo Carneiro