Edição 1 639 - 8/3/2000

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O radical e o chique

As relações perigosas entre o intelectual
rico com preocupações sociais e o criminoso
metido a revolucionário

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Entrevista com João Moreira Salles

 

Ronaldo França

Estetizar a pobreza foi sempre a saída clássica do carioca de talento obrigado a conviver com a miséria dos morros. Alvorada lá no morro que beleza/ ninguém chora não há tristeza/ ninguém sente dissabor, cantou Cartola, glória eterna da Mangueira. Os compositores do asfalto foram mais ousados. Eles glamourizaram a malandragem e o crime. Chico Buarque mandou "chamar o ladrão" e na canção Meu Guri passa uma mão terna na cabeça dos meninos que assaltam os burgueses e levam a féria para os pais nos barracos ao fim do dia. Coisa de artista. Na semana passada, os cariocas entretinham-se com uma polêmica em torno de uma atitude ainda mais radical. O jornal O Globo revelou que o cineasta João Moreira Salles vinha mantendo uma relação próxima e duradoura com Marcinho VP, um dos mais conhecidos e procurados traficantes de cocaína do Rio.

João Salles, um dos herdeiros do Unibanco, o terceiro maior banco privado do país, conheceu o traficante em 1997 quando rodou um documentário no Morro Dona Marta. Depois disso, tornaram-se próximos. João Salles, um rapaz introvertido e de intensa atividade intelectual, recomendava livros ao traficante e ouvia dele opiniões sobre as injustiças da sociedade e a inevitabilidade do tráfico em lugares como os morros cariocas. Interessado pelas aventuras de Marcinho VP, João Salles chegou a enviar regularmente ao traficante 1.200 reais por mês, durante quatro meses, em troca dos originais de um livro autobiográfico que o bandido estaria escrevendo na Argentina, onde esteve foragido por algum tempo. A encomenda do livro e o pagamento da mesada eram também uma tentativa de João Salles de tirar o traficante da senda criminosa. Entre 1997 e 1998, Salles e Marcinho VP se encontraram mais de setenta vezes. A revelação provocou um barulho fenomenal. João Salles foi chamado a depor pelo Ministério Público Estadual, pela CPI do Narcotráfico e pela corregedoria da polícia fluminense.

 

A ficha de Marcinho VP

Tráfico de drogas: condenado a 42 anos em regime fechado

Corrupção de menores: responde a processo por contratar crianças para entregar droga

Assassinatos: aguarda julgamento por tentativa de homicídio. A polícia investiga seu bando por outras trinta mortes no Morro Dona Marta

No Rio de Janeiro pré-carnavalesco, a história de um rapaz multimilionário e romântico que se torna amigo e financiador do grande traficante de drogas, e ainda nutre a esperança de redimi-lo, adquiriu os contornos de uma parábola. "João Salles é um herói da cidade", disse o cineasta Cacá Diegues. "O país estaria melhor se nossa elite tivesse a preocupação social desse filho de banqueiro", disse o escritor e jornalista Zuenir Ventura. O governador Anthony Garotinho convocou reuniões intermináveis com os responsáveis pela segurança pública, culminando-as com entrevistas coletivas à imprensa. "É justo que alguém dê a um foragido da Justiça, matador, traficante, estuprador 1.200 reais para ele levar boa vida em Buenos Aires? Lugar de bandido é na cadeia e não dançando tango", decretou o governador.

Trinta anos, bem falante, nascido numa família de gente humilde e honesta, e vivendo numa favela da Zona Sul do Rio de Janeiro, Marcinho VP não é bem o tipo perfeito para ilustrar a cantilena do marginal levado a delinqüir pelas adversidades. Integrante de um bando que, conforme suspeita a polícia, tem trinta assassinatos nas costas, o bandido, no entanto, apresenta-se como uma vítima da sociedade. Filho de família nordestina que migrou para o Rio em busca de oportunidade, estudou até a 5ª série do 1º grau, tornou-se surfista na Praia do Leme e andava em companhia de garotos de classe média. Aos 16 anos, virou as costas aos exemplos da mãe, que trabalhava fora para sustentar as mensalidades da escola particular do filho, e entrou para o tráfico, com uma vantagem sobre seus colegas criminosos. Marcinho VP, um rapaz insinuante, desenvolveu um marketing eficiente para vender-se, a ponto de exercer fascínio sobre moças de famílias ricas da Zona Sul. Uma delas, além de rica, intelectualizada e rebelde, tornou-se sua amante recentemente.

É fácil perceber a razão do romantismo que desperta o marginal VP, com uma metralhadora na mão e um discurso social na ponta da língua. "Sou traficante porque meu povo está escravizado pelo sistema", disse certa vez numa entrevista. Ele lista o subcomandante Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional, do México, como um de seus ídolos. E divulga a lenda aceita por boa parte da classe média intelectualizada do Rio de que os traficantes são protetores e libertadores das comunidades carentes abandonadas pelo poder público. Tudo falso. Suas práticas para a manutenção do poder seguem o mesmo rito de intimidação e demonstração de força comum a todos que oprimem pelo terror e pelo poder das armas. Numa entrevista dada ao programa Fantástico, da Rede Globo, no domingo passado, o traficante disse que pretende liderar um certo Movimento Social Revolucionário pela Favelania – um neologismo rastaqüera, que junta favela e cidadania. Segundo ele, 30% das crianças que moram em morros e favelas acabam envolvidas com o tráfico. Ele próprio contribuiu bastante para essa estatística. Além das acusações de tráfico e homicídio, Marcinho VP responde a processo por crime de corrupção de menores em que incorreu ao aliciar crianças, usadas em seu bando como "aviões", os encarregados de entregar droga aos compradores. VP, alcunha montada com as primeiras letras de palavrões muito conhecidos, dominou o tráfico no Morro Dona Marta até o mês passado, quando um rival tomou-lhe os pontos-de-venda de droga na comunidade de 12 000 moradores, localizada a menos de 200 metros da sede da prefeitura carioca. Aos comparsas, segundo a polícia, Marcinho VP já anunciou que quando puder vai tentar retomar à força o controle do morro hoje em mãos do traficante Zaca.

João Salles interessou-se por VP ­ e VP por João. Filho mais novo do ex-embaixador e banqueiro Walther Moreira Salles, João Salles tem 37 anos e um temperamento tão introspectivo que já o levou a passar réveillons totalmente isolado no Alasca e na Islândia. Estudou nos melhores colégios do Rio de Janeiro e Paris e, segundo seus amigos, construiu uma sólida formação cultural, paralelamente a uma grande preocupação social. "É o intelectual da família", diz um amigo. Graças a esse perfil politicamente correto, já foi parar no Quênia, onde passou um ano ensinando os alunos de uma missão protestante a fazer vídeos. Ao longo dos anos construiu um trabalho de ajuda a comunidades carentes. Junto com Walter Salles Júnior, seu festejado irmão diretor de Central do Brasil, financiou várias ações em favelas. Durante algum tempo, freqüentou o Dona Marta todas as semanas, dando aulas de história da arte. Falava, por exemplo, do pintor e arquiteto florentino Giotto di Bondone (1266-1337) aos favelados. Giotto foi um divisor de águas na história da arte, rompendo com a religiosidade asfixiante da arte medieval e abrindo-se ao Renascimento. Salles voltava das aulas empolgado com o interesse das crianças pobres pela arte erudita.

Enquanto isso, emprestava livros de Machado de Assis e do escritor franco-argelino Albert Camus a Marcinho VP. Salles lia e discutia os textos com o bandido. O improvável diálogo entre dois personagens de origem e formação tão distintas foi possível exatamente porque o traficante do Dona Marta se mostrou interessado num mundo caro a Salles – o da literatura e das questões sociais. Previsivelmente, Salles encantou-se pelo personagem. "Essa relação é uma fraude social", diagnostica o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. "O Moreira Salles pensou, certamente, que ao se aproximar do Marcinho VP estava se aproximando de todos os marcinhos. Essa metáfora o rico acaba tomando como realidade."

Não é um exotismo brasileiro. Nos anos 60, artistas e intelectuais americanos, tendo à frente os jovens progressistas que integravam a chamada Nova Esquerda, encantaram-se com os membros do movimento Panteras Negras. Em seu discurso radical, os Panteras pregavam a luta armada contra a dominação branca e a criação de um Vietnã em cada quarteirão dos Estados Unidos. Na prática, entre os líderes desse movimento radical havia assassinos, traficantes de drogas e estupradores. Mas quem ia preocupar-se com isso na audiência dos privilegiados? Não era, para começar, uma atitude politicamente correta. Afinal, raciocinavam os jovens brancos da Nova Esquerda, os Panteras eram violentos porque a injustiça, a exclusão e a opressão social os fizeram assim. Cada vez que um Pantera injuriava uma platéia daqueles brancos bem-sucedidos que festejavam seu radicalismo, isso o tornava ainda mais admirado entre os ouvintes. Fez história uma recepção dada pelo maestro Leonard Bernstein a um grupo de Panteras Negras em seu apartamento da Quinta Avenida, em Nova York. "Lenny" Bernstein convidou as mais invejadas celebridades do momento para o encontro, de artistas a colunistas badalados de jornais. Os presentes se prostraram diante dos argumentos dos Panteras, especialistas em vituperar interlocutores ricos e famosos como aqueles. Poucas vozes críticas se fizeram ouvir contra a cantilena pró-violência dos convidados de honra, entra elas o sotaque germânico do diretor de cinema Otto Preminger e a navalha verbal da apresentadora de TV Barbara Walters. Os outros se renderam. Foi um sucesso social extraordinário. No outro dia, só se falava disso nas altas-rodas. Essa festa, patrocinada por aqueles que o escritor Tom Wolfe chamaria de "radicais chiques", tornou-se um símbolo desse namoro dos bem pensantes com a transgressão.

A polícia tomou conhecimento do envolvimento do cineasta com o criminoso em outubro do ano passado. Nessa época, Marcinho estava foragido. A polícia acredita que o traficante tenha saído do Brasil em março de 1999. Durante as investigações para a captura do traficante, foram instaladas escutas telefônicas nas linhas dos familiares e amigos de Marcinho. Mais de vinte fitas foram gravadas e constatou-se que havia uma relação do bandido com o cineasta. Inicialmente a polícia não deu atenção porque sabia que ele tinha ligação com intelectuais, jornalistas e líderes comunitários. O caso só começou a se tornar público quando Salles se sentiu ameaçado pela informação de que suas conversas haviam sido grampeadas.

Temendo chantagem ou a divulgação sensacionalista do conteúdo das fitas, resolveu procurar as autoridades fluminenses e contar sua história. Foi apresentado, no início de dezembro do ano passado, ao coordenador de Segurança do Estado do Rio, Luiz Eduardo Soares. "Entendi as razões do João e quis ajudá-lo", revela Soares, que é antropólogo e coordena os principais projetos do governo Garotinho na área de segurança. "Ele me pareceu uma pessoa extremamente sensível e transparente." Durante alguns dias, os dois consultaram juristas para saber se a ajuda financeira a Marcinho VP configuraria um crime. Não é. Quatro advogados criminais e cíveis ouvidos por VEJA informam que a lei brasileira não obriga os cidadãos a delatar um foragido da Justiça. É ilegal ajudar materialmente um criminoso a esconder ou escapar da perseguição policial. A se acreditar em João Salles ele estava mesmo interessado no rico material documental que o bandido poderia dar-lhe com sua narrativa. Nesse ponto o instinto de Salles é elogiável. Grandes obras literárias em todos os tempos nasceram desse tipo de iniciativa. Toda a polêmica nesse caso do Rio de Janeiro deixaria de existir se Marcinho estivesse preso e João Salles o contratasse para escrever suas memórias atrás das grades, em vez de financiá-lo na Argentina. Apenas a título de raciocínio: e o que teria acontecido se João Salles, em vez de herdeiro de banco, fosse um anônimo bancário cineasta e, nessa situação, tivesse dado dinheiro a um foragido da Justiça?

Com reportagem de Consuelo Dieguez e Marcelo Carneiro