Rap de rico? Tô fora
Mirian Duenhas
 |
Você deve conhecer Carlinhos Brown. Eu não conhecia, mas
moro fora do Brasil há muito tempo. Em compensação, imagino
que você nunca tenha ouvido falar em Jovanotti. Sorte sua.
Ele é o principal cantor de rap italiano. Porque na Itália,
ridiculamente, existe uma música rap. É um rap bem-comportado,
claro, como tudo o que acontece no país. Nada de vida no
gueto. Nada de relógios de ouro. Nada de pegar uma pistola
e querer sair matando policiais. Jovanotti, em seus raps,
trata de coisas como o amor que sente pelo filho recém-nascido,
a necessidade de pensar positivamente e as maravilhas do
mundo multiétnico.
Há duas semanas, Jovanotti e Carlinhos Brown apresentaram-se
juntos no Festival de Sanremo, o mais importante evento
de música popular da Itália. Dura cinco dias e, todos os
anos, invariavelmente, consegue bater recordes de audiência
na TV, além de ocupar três ou quatro páginas dos jornais,
inclusive os mais sérios. Para dar uma idéia do que isso
significa, um dos apresentadores do último festival era
o tenor Luciano Pavarotti, que conquistou a simpatia da
platéia de Sanremo, apesar de seus recentes problemas fiscais.
Pois bem: Jovanotti, acompanhado pelo tambor de Carlinhos
Brown, cantou um rap em que suplicava ao primeiro-ministro
italiano, Massimo D'Alema, o cancelamento da dívida dos
países mais pobres do mundo. Tudo fazia parte da campanha
Jubileu 2000, promovida por Bono, líder do grupo de rock
irlandês U2. Dois dias mais tarde, com grande solenidade,
D'Alema recebeu Jovanotti e o próprio Bono no palácio do
governo, prometendo perdoar 6 bilhões de reais da dívida
de vários países miseráveis. Para dar um contorno ainda
mais teatral ao evento, a TV mostrava, naquele exato momento,
as catastróficas inundações em Moçambique, um dos primeiros
beneficiários da iniciativa italiana.
O encontro com Bono rendeu grandes dividendos políticos
a D'Alema, reforçando-o junto ao eleitorado jovem. E também
foi útil para Bono, pois passou a impressão de que as dívidas
só foram canceladas graças à sua pressão, embora D'Alema
já tivesse enviado ao Parlamento um projeto de lei nesse
sentido. A oposição esperneou contra D'Alema, acusando-o
de instrumentalizar politicamente o evento, mas não teve
coragem de hostilizar Bono, para não correr o risco de tê-lo
como inimigo. Mesmo porque o cancelamento da dívida dos
países mais pobres é um tema inatacável. Diante de todos
os desastres provocados pelo colonialismo europeu, como
criticar uma decisão do gênero?
O problema é saber se o dinheiro economizado pelos países
mais pobres realmente vai chegar até a população miserável.
O que impede, por exemplo, que ele sirva para financiar
a corrupção ou a compra de armas, fomentando guerras civis
que criam ainda mais miséria? O fato é que os países ricos
sempre fazem confusão, seja quando pensam em seu próprio
interesse, seja quando tentam ajudar, como no caso da Somália
ou de Kosovo. No fim das contas, talvez os rappers mais
inócuos sejam aqueles que falam em pegar uma pistola e sair
matando policiais.