Edição 1 639 - 8/3/2000

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Rap de rico? Tô fora

 
Mirian Duenhas

Você deve conhecer Carlinhos Brown. Eu não conhecia, mas moro fora do Brasil há muito tempo. Em compensação, imagino que você nunca tenha ouvido falar em Jovanotti. Sorte sua. Ele é o principal cantor de rap italiano. Porque na Itália, ridiculamente, existe uma música rap. É um rap bem-comportado, claro, como tudo o que acontece no país. Nada de vida no gueto. Nada de relógios de ouro. Nada de pegar uma pistola e querer sair matando policiais. Jovanotti, em seus raps, trata de coisas como o amor que sente pelo filho recém-nascido, a necessidade de pensar positivamente e as maravilhas do mundo multiétnico.

Há duas semanas, Jovanotti e Carlinhos Brown apresentaram-se juntos no Festival de Sanremo, o mais importante evento de música popular da Itália. Dura cinco dias e, todos os anos, invariavelmente, consegue bater recordes de audiência na TV, além de ocupar três ou quatro páginas dos jornais, inclusive os mais sérios. Para dar uma idéia do que isso significa, um dos apresentadores do último festival era o tenor Luciano Pavarotti, que conquistou a simpatia da platéia de Sanremo, apesar de seus recentes problemas fiscais.

Pois bem: Jovanotti, acompanhado pelo tambor de Carlinhos Brown, cantou um rap em que suplicava ao primeiro-ministro italiano, Massimo D'Alema, o cancelamento da dívida dos países mais pobres do mundo. Tudo fazia parte da campanha Jubileu 2000, promovida por Bono, líder do grupo de rock irlandês U2. Dois dias mais tarde, com grande solenidade, D'Alema recebeu Jovanotti e o próprio Bono no palácio do governo, prometendo perdoar 6 bilhões de reais da dívida de vários países miseráveis. Para dar um contorno ainda mais teatral ao evento, a TV mostrava, naquele exato momento, as catastróficas inundações em Moçambique, um dos primeiros beneficiários da iniciativa italiana.

O encontro com Bono rendeu grandes dividendos políticos a D'Alema, reforçando-o junto ao eleitorado jovem. E também foi útil para Bono, pois passou a impressão de que as dívidas só foram canceladas graças à sua pressão, embora D'Alema já tivesse enviado ao Parlamento um projeto de lei nesse sentido. A oposição esperneou contra D'Alema, acusando-o de instrumentalizar politicamente o evento, mas não teve coragem de hostilizar Bono, para não correr o risco de tê-lo como inimigo. Mesmo porque o cancelamento da dívida dos países mais pobres é um tema inatacável. Diante de todos os desastres provocados pelo colonialismo europeu, como criticar uma decisão do gênero?

O problema é saber se o dinheiro economizado pelos países mais pobres realmente vai chegar até a população miserável. O que impede, por exemplo, que ele sirva para financiar a corrupção ou a compra de armas, fomentando guerras civis que criam ainda mais miséria? O fato é que os países ricos sempre fazem confusão, seja quando pensam em seu próprio interesse, seja quando tentam ajudar, como no caso da Somália ou de Kosovo. No fim das contas, talvez os rappers mais inócuos sejam aqueles que falam em pegar uma pistola e sair matando policiais.