Edição 1 639 - 8/3/2000

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Não perdôo Pinochet

Novo presidente chileno diz que a libertação
do ex-ditador na Inglaterra obriga-o a criar
condições de julgá-lo em seu país

Raul Juste Lores

 
"É uma evolução que os crimes contra a humanidade sejam julgados em qualquer parte do mundo"
Sygma

Ricardo Lagos, que toma posse como presidente do Chile no dia 11, já tem uma prioridade na agenda política. O problema causado pela libertação do ex-ditador Augusto Pinochet pela justiça inglesa e sua volta ao Chile. Lagos disse à VEJA que considera sua obrigação criar condições políticas para julgar o general. No passsado, membro da ala mais extremada do Partido Socialista, Lagos foi designado embaixador em Moscou pelo presidente Salvador Allende, mas nunca chegou a tomar posse. Surpreendido pelo golpe de Estado que inaugurou a ditadura de Pinochet, em 1973, exilou-se primeiro na Argentina e depois nos Estados Unidos. Sua eleição como o primeiro presidente socialista desde Allende decorreu em meio a grande tensão nacional, causada pela prisão de Pinochet. Com 62 anos, ele tem cinco filhos de dois casamentos e quatro netos. Joga tênis, não gosta muito de futebol e passa os fins de semana em uma chácara, onde cultiva a jardinagem e ouve música clássica. É formado em direito pela Universidade do Chile, com pós-graduação em economia pela Universidade de Duke, nos Estados Unidos, onde lecionou depois, entre 1974 e 1978. Lagos recebeu VEJA na semana passada para esta entrevista.

Veja – O ex-ditador Augusto Pinochet está de volta ao Chile. O senhor acredita que poderá julgá-lo em seu país?
Lagos –
Há condições para julgá-lo no Chile? Minha obrigação como presidente é dizer sim, senhor, há. É meu dever como presidente criar essas condições. De outra forma, somos uma democracia de mentira. Quando as pessoas de esquerda me dizem "Pinochet não pode voltar porque não há condições", eu lhes respondo: "É sua obrigação lutar para que haja condições".

Veja – O que o senhor acha de um ex-ditador latino-americano, como Pinochet, ter sido indiciado num país europeu?
Lagos –
O fato de certos crimes contra a humanidade poderem ser julgados em qualquer lugar do mundo é uma evolução. É legítimo que o Chile reclame o direito soberano de poder julgar Pinochet, mas eu entendo para onde o mundo vai. É espantoso, mas a Justiça inglesa considerou que Pinochet podia ser processado com base na convenção contra tortura que ele próprio assinou em 1988. O que aconteceu foi apenas a ponta do iceberg da globalização, que agora ocorre não apenas na economia, mas também nos direitos humanos e no meio ambiente. Ainda não chegamos à Justiça globalizada, mas vamos chegar.

Veja – A volta de Pinochet pode atrapalhar a transição chilena para a democracia?
Lagos –
A detenção do ex-presidente ensinou duas coisas aos chilenos. A primeira é que o mundo nos olha com certa suspeita, desconfia se somos um país democrático e sério. A segunda é que, exatamente porque nos olham com certa suspeita, temos de provar que somos capazes de fazer bem as coisas que precisam ser feitas. Depois do episódio Pinochet, se um juiz disser que pretende julgar alguém, o país vai dizer: "Não me incomodo". Se alguém disser: "Não pode, ficarei muito zangado", as pessoas vão falar "não, não, é melhor julgar". É o início de uma mudança. Os militares, por sua vez, também entendem que precisam desempenhar o papel que lhes cabe em qualquer país.

Veja – Como o senhor pretende aperfeiçoar a democracia chilena se 20% dos senadores ainda são biônicos?
Lagos –
Você poderia ter dito também que as promoções nos escalões superiores das Forças Armadas não dependem do presidente da República. E que o Conselho Nacional de Segurança é composto de forma peculiar... Tudo isso é parte de uma transição ainda por concluir. Nós, chilenos, ainda estamos em desacordo sobre muita coisa. A oposição direitista acreditava que precisava dessas salvaguardas, uma espécie de apólice de seguro contra a revanche. Nesse aspecto, é positivo que tenha obtido uma votação expressiva nas eleições presidenciais. Graças aos votos, sabe agora que não há o que temer.

Veja – Durante a campanha, seus assessores diziam que a detenção de Pinochet no exterior estava ajudando a candidatura de seu adversário, Joaquín Lavín. O senhor acha que a confusão em torno do ex-ditador favoreceu a direita chilena?
Lagos –
A direita sabe que sua única opção é se distanciar de Pinochet. E isso fica mais fácil quando ele não está no Chile. Se Pinochet estivesse ativo no Chile, subindo nos palanques e dizendo para votar no candidato da direita, seria um péssimo cabo eleitoral.

Veja – Mas por que seria assim? Vários setores da sociedade chilena são gratos a Pinochet pelo sucesso econômico do país.
Lagos –
A maré da economia neoliberal que atingiu o Chile sob o governo de Pinochet era uma tendência mundial nos anos 80. Cuidou-se de ter as contas públicas em ordem, em manter a inflação baixa e se adotou uma política de abertura da economia. Não quero diminuir o que fez Pinochet, mas é preciso contrabalançar isso com as tremendas violações dos direitos humanos. A História vai julgar mal o legado de Pinochet. Eu não perdôo Pinochet pelo que fez.

Veja – O que acontecerá no Chile com a volta de Pinochet?
Lagos –
Nada. Uns aplaudirão, outros vaiarão, ele vai descansar, há um juiz que está investigando seu caso. Se vai acontecer alguma coisa depende do juiz, não da volta dele.
 
Veja – O senhor, como presidente, pode influir sobre a decisão de julgar ou não Pinochet?
Lagos –
Não, não posso. Eu vou só assistir.

Veja – A direita chilena diz que não se deve olhar tanto para o passado...
Lagos –
Eles querem olhar para o futuro e esquecer o passado porque o passado deles é ruim. Eu também não quero ficar olhando para o passado, estou de olho no futuro, mas tenho de ser capaz de dar respostas ao passado. Há muitas feridas abertas, famílias que ainda buscam os corpos dos filhos para enterrar. Temos uma lei de reparação às vítimas, mas a indenização é insuficiente. Precisamos fazer do Chile uma democracia mais sólida, para que nunca mais seja subestimada. Que nunca mais se pense que as diferenças de opinião se resolvem com torturas ou com prisões.

Veja – Pelo precedente de Pinochet, o senhor acha que Fidel Castro deve ser julgado por violações dos direitos humanos?
Lagos –
O caso é um pouco distinto, não? Há um paradoxo, alguns dirão, porque Fidel tem grande respaldo da maioria. Mas não me agrada um país em que não existem liberdades como nós as entendemos, que não haja imprensa livre, um Parlamento independente.

Veja – Adolf Hitler também tinha o respaldo popular. Não deveria ter sido julgado?
Lagos –
O julgamento dos líderes nazistas em Nuremberg foi um caso excepcional. Mas acho que a tendência é, a longo prazo, levar os ditadores em geral a julgamento.

Veja – A direita cresceu muito nas últimas eleições. Como será governar um país dividido?
Lagos –
O crescimento da oposição é resultado de uma eleição no contexto de uma situação econômica muito difícil. Nosso PIB cresceu de 6% a 7% nos últimos dez anos, mas estacionou no último ano. Tínhamos um desemprego médio de 5% ou 6%, que saltou para 11%. Tivemos uma eleição em situações econômicas muito difíceis. Quero acreditar que muita gente votou na direita como protesto. De qualquer forma, não necessito buscar a unidade do país. Entendo que devo governar com uma oposição importante.

Veja – Qual a diferença entre Ricardo Lagos embaixador do governo Allende em Moscou, em 1970, e Ricardo Lagos presidente da República?
Lagos –
Eu mudei e o mundo mudou. Os anos 70 eram os da Guerra Fria, da luta entre as superpotências, dos não-alinhados, do Muro de Berlim. Pela primeira vez, em mais de 300 anos, vivemos em um mundo no qual há apenas um superpoder. Hoje todos nós aceitamos o papel importante do mercado. A diferença é que uns querem uma economia de mercado e uma sociedade de mercado. Eu acho que a economia de mercado é boa, mas não a sociedade de mercado, que é profundamente desigual.

Veja – O senhor ainda se considera um socialista?
Lagos –
Que é ser um socialista hoje em dia? Socialista é aquele que acredita na liberdade e em um estado crescente de igualdade. Há 300 anos, a diferença decorria de ser ou não dono da terra. E havia a luta pela terra. Há cerca de 150, Marx disse que só interessava quem tinha o controle dos meios de produção. E a luta era por quem dominaria os operários. Não é mais assim. A maior fortuna do mundo, a de Bill Gates, não vem dos meios de produção, e sim das idéias. Hoje, o acesso à informação é determinante. Ser socialista é diferenciar pela educação, aplicar recursos para que a igualdade de oportunidades em educação seja real. Quando a criança tem fome, junto com a educação você tem de dar alimentação, pois isso reflete em seu desempenho escolar. Como anteontem pela terra, ontem lutávamos pelos meios de produção, hoje devemos lutar por educação de igual qualidade, ajudando mais quem mais precisa. A direita acha que devemos dar tudo igual, preservando as desigualdades já existentes.

Veja – O momento na América do Sul é das privatizações. Como socialista, o senhor concorda em transferir serviços públicos para a iniciativa privada?
Lagos –
O problema não é privatizar, é como regulamentar o que foi privatizado. Quando fui ministro de Obras Públicas, participei da privatização das empresas de saneamento básico. No Chile, praticamente 100% das áreas urbanas têm água potável e esgotos, mas o sistema de tratamento ainda é muito ruim. Para isso, precisamos do capital privado. Mas, antes de privatizar, quero criar as regras do jogo. Porque o custo das empresas vai ser diferente de acordo com a regulamentação. Bom serviço é água limpa e tarifa justa. Um monopólio acaba sendo uma péssima opção.

Veja – Suas idéias privatizantes são bem recebidas por seus partidários socialistas?
Lagos –
Quando fui ministro, nós precisamos triplicar os investimentos em rodovias, mas só tínhamos metade do dinheiro necessário. Introduzi o capital privado, regulamentei o preço máximo do pedágio e, logo, com o dinheiro que não gastei nas estradas principais, fiz estradas nas áreas rurais e pobres. Criticavam-me por ser um socialista que privatizava estradas. Na verdade, eu era um socialista que queria usar os recursos públicos em benefício dos mais pobres.

Veja – O senhor é amigo de FHC, não é?
Lagos –
Eu o conheço há muito tempo. Fernando Henrique trabalhou com meu sogro e foi seu vizinho em Santiago. Depois convivemos por oito anos no Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais. Quando houve o golpe de Estado no Chile, ele tinha voltado ao Brasil e estava no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, Cebrap. A primeira ligação que recebi do exterior, após o golpe, foi de Fernando. Ele me disse que tinha feito uma vaquinha e estava enviando o dinheiro. E sabe o que fizemos com o dinheiro? Inventamos um conjunto de seminários que se realizavam em Buenos Aires. A passagem Santiago–Buenos Aires custava 50 dólares e todos os cientistas chilenos que corriam perigo de ser detidos pela ditadura começaram a viajar para Buenos Aires, convidados pelos mais distintos seminários, que eram uma forma de nos ajudar a sair do Chile. Só conseguimos com a vaquinha que o Fernando Henrique organizou.

Veja – Além de Fernando Henrique, o senhor é amigo pessoal de Fernando de la Rúa, presidente da Argentina. Isso facilitará a criação de vínculos mais firmes entre os três países?
Lagos –
Há fatores da política internacional que estão além dos governos, mas a amizade ajuda. O Chile é um pequeno país e para que se escute nossa voz devemos falar junto com outras vozes. O Mercosul é uma ótima instância para falarmos com uma única voz, representando esta parte do mundo. Precisamos pertencer a um bloco regional forte, se pensamos no futuro. Dou o exemplo da Espanha, que pôs abaixo os Pireneus e se integrou à Europa. A Espanha é importante na Europa, então é importante no mundo. Não é só uma questão de tarifas alfandegárias.

Veja – Então a prioridade do Chile será o Mercosul e não o Nafta, que reúne os Estados Unidos, o México e o Canadá? Lagos – Claro. O Nafta, para nós, é um acordo comercial. O Mercosul é mais do que isso, é político, estratégico. Eu adoraria que o Chile aderisse rápido ao Mercosul. Há temas econômicos que ainda têm de ser debatidos, mas devemos superá-los.

Veja – É verdade que sua mãe o apresentava para as amigas, quando pequeno, como "meu filho Ricardo, o que vai ser presidente da República"?
Lagos –
Espalharam essa história, mas não era bem assim. Minha mãe era de classe média e queria que eu contribuísse com o país. Mas, para ela, se eu fosse professor universitário já estava muito bom. E isso eu também fui.