Edição 1 639 - 8/3/2000

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Reforma incompleta

"O Estado continua dividido em feudos, que
não se falam e
competem por poder. A reforma
não tinha a visão do novoEstado e, por não tê-la,
manteve a essência
do velho"

 
Ilustração: Alê Setti

O que a crise do salário mínimo, o auxílio-moradia para juízes, a "conta-petróleo" e os aumentos de energia elétrica têm em comum? Acertou quem pensou que são resultado de distorções no aparelho de Estado, objeto da prolongada safra de reformas que começou no primeiro semestre de 1995.

Na Previdência, só se pensou em eliminar privilégios e distorções, mas não se concebeu um modelo alternativo e complementar, permitindo que ela contribuísse para diminuir a pobreza, deixando de perpetuá-la, ao pagar um salário mínimo irrisório a mais de 60% de seus beneficiários (?). A greve de juízes só é possível porque não se fez a reforma do Judiciário nem se teve a visão de que Legislativo e Judiciário também são parte do Estado.

Não dá para admitir que a economia brasileira não possa pagar perto de 70 centavos por hora a seus trabalhadores menos qualificados. É claro que pode. E, no geral, tem pago mais. Quem não suporta isso são o INSS e grande parte das prefeituras de municípios criados sem base econômica alguma e que certamente empregam mais gente do que precisam e conseguem pagar.

Não é correto aprovar um auxílio-moradia para juízes. É uma saída hipócrita para uma falsa crise. O salário da magistratura é baixo, como de resto a maioria dos salários pagos no país. Mas não se poderia aceitar a greve, o argumento corporativista, a ameaça de agir como um trabalhador qualquer, da parte de magistrados escudados em suas prerrogativas: indemissibilidade, vitaliciedade e outros privilégios que exigem como contrapartida um comportamento exemplar e ultra-responsável.

Há quem ache razoável que se invente uma dívida do Tesouro para com a Petrobras – que eu, vocês, nós todos pagamos – porque ela incorre em certos ônus, decorrentes da situação privilegiadíssima de monopólio estatal. No fundo, a história é assim: nós pagamos para que a Petrobras seja estatal e pagamos para que ela seja uma empresa como outra qualquer. Eu não acho razoável a tese de que os preços dos combustíveis devam ser definidos como se todo o petróleo fosse importado pelo preço mais alto do mercado internacional. Mais da metade do petróleo que consumimos é produzido aqui. Com relação ao resto, a parte que é importada, a Petrobras, que é uma grande compradora, ganha desconto. Mas, quando ela não consegue passar esse preço maior para a gasolina, o Tesouro cobre a diferença – um pedágio, digamos, para ser verde-amarela: pagamos como consumidores, porque ela é mercado, e como contribuintes, porque ela é Estado. O certo seria abrir o mercado e deixar a Petrobras competir. O resto é com o xerife desse mercado, a Agência Nacional do Petróleo, ANP.

Há quem defenda até a morte o direito de as empresas privatizadas de energia elétrica terem seus preços indexados ao IGP-M, quando estamos proibidos de indexar nossos salários e demais preços. A indexação é o veneno que nos pode matar. Deveria ser proibida em cláusula pétrea da Constituição. O correto seria liberar os preços e regular adequadamente o comportamento de mercado das empresas. Mas o quadro regulatório é inadequado, as agências não estão preparadas para isso, faltam-lhes autonomia e recursos financeiros e institucionais.

Na reforma do Estado o quadro regulatório foi feito por uma parte do governo – e mal, tão mal que o Congresso teve de redesenhar a Agência Nacional de Energia Elétrica, Aneel. A reestruturação administrativa foi feita por outro grupo, que imaginava política regulatória diferente e mais acertada. A privatização veio de outro setor, que fazia tudo para vender as empresas, sem planejar o day after de modo a garantir que a privatização além de um bom negócio para os compradores trouxesse benefícios para os consumidores.

Todos esses males revelam que a reforma do Estado está incompleta. E não pelo que deixou de ser votado. Quase tudo foi votado. O que faltou foi uma visão estratégica, de conjunto, que juntasse privatização, desregulação e a criação de uma nova estrutura regulatória sob uma mesma ótica, para o benefício coletivo.

O Estado continua dividido em feudos, que não se falam e competem por poder. A reforma não tinha visão do novo Estado e, por não tê-la, manteve o velho na sua essência.

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)