Edição 1942 . 8 de fevereiro de 2006

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Tales Alvarenga
A maré popularesca

"A América Latina só terá uma
oportunidade de sair da maré
do
atraso se abandonar a retórica
obsoleta de seus líderes retrógrados"

NESTA EDIÇÃO
Memória: Tales Alvarenga (1944 - 2006)

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A Bolívia elegeu seu primeiro índio como presidente da República. Muita gente comemorou. A eleição de Evo Morales seria uma vitória da causa popular sobre o domínio elitista na Bolívia. Gente que não tolera a citação da origem étnica das pessoas sob nenhum pretexto, porque isso significa racismo, se congratula abertamente pelo fato de o presidente boliviano ter sangue indígena. Lula também já foi incensado como ex-operário. Sua eleição teria representado o rompimento da tradição brasileira de distribuir o poder apenas entre as classes dominantes. Mas o fato de ter sido operário não dá a Lula e o fato de ser índio não dá a Morales nenhuma sensibilidade superior para lidar com as questões de Estado.

Lula e Morales são exemplos de conquista pessoal. A sagacidade desses dois homens não é um fenômeno trivial. Coisa diferente, no entanto, é imaginar que o exercício da Presidência nos dois casos se beneficiou pelo fato de eles nunca terem passado pela formação dada aos filhos da burguesia.

A esquerda, no entanto, se embriaga com esses mitos popularescos, especialmente quando eles vêm embebidos em ideologia. Por isso fazem tanto sucesso nesse meio a utopia indígena de Evo Morales e a utopia bolivariana de Hugo Chávez, rotas certas para o desastre. A esquerda e seus ídolos não gostam de fórmulas testadas e bem-sucedidas. Desdenham a experiência chilena, que deu certo na prática, mas não foi seguida pelos vizinhos.

O Chile acaba de eleger Michelle Bachelet como presidente. Bachelet, socialista de biografia impecável, não contestou as políticas que todos os governos chilenos, de direita e esquerda, aplicam infalivelmente. O Chile segue rigorosa disciplina fiscal, tem a economia privatizada e persegue o aumento da produtividade. Por isso, cresce mais do que os vizinhos.

Com satisfação, a esquerda fala numa "maré vermelha" na América do Sul. Comemora a eleição de tantos socialistas ao mesmo tempo. O que se vê é uma maré de retrocesso que deixará muito desapontamento no ar.

Evo Morales quer implantar na Bolívia um socialismo indígena. Sua ministra da Justiça é índia sindicalista. O ministro das Relações Exteriores também é índio sindicalista. Evo Morales, chefe da tribo, levará para morar com ele no palácio do governo o vice-presidente da República, o presidente da Câmara e o do Senado. "Socialismo é viver em comunidade e igualdade", diz Morales. Espera-se que Lula não siga o exemplo carregando José Alencar, Renan Calheiros e Aldo Rebelo para morar com ele e dona Marisa.

No Peru, o candidato a presidente Ollanta Humala quer a nacionalização da economia e democracia direta, falando com o povo sem a intermediação dos parlamentares. É a fórmula usada na Venezuela pelo segundo maior ídolo do exotismo latino-americano, o coronel Hugo Chávez, que pouco a pouco vai tomando o lugar de Fidel Castro como o grande pajé da esquerda no continente.

A América Latina só terá uma oportunidade de sair dessa maré de atraso se abandonar a retórica obsoleta de seus líderes retrógrados e experimentar a convivência com a moderna sociedade capitalista globalizada. Querendo ou não, terá de enfrentar esse desafio, mais cedo ou mais tarde.

 
 
 
 
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