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Tales
Alvarenga A maré popularesca
"A
América Latina só terá uma oportunidade de sair da maré
do atraso se abandonar a retórica
obsoleta de seus líderes retrógrados"
A Bolívia
elegeu seu primeiro índio como presidente da República. Muita gente
comemorou. A eleição de Evo Morales seria uma vitória da
causa popular sobre o domínio elitista na Bolívia. Gente que não
tolera a citação da origem étnica das pessoas sob nenhum
pretexto, porque isso significa racismo, se congratula abertamente pelo fato de
o presidente boliviano ter sangue indígena. Lula também já
foi incensado como ex-operário. Sua eleição teria representado
o rompimento da tradição brasileira de distribuir o poder apenas
entre as classes dominantes. Mas o fato de ter sido operário não
dá a Lula e o fato de ser índio não dá a Morales nenhuma
sensibilidade superior para lidar com as questões de Estado.
Lula e Morales são exemplos de conquista pessoal. A sagacidade desses dois
homens não é um fenômeno trivial. Coisa diferente, no entanto,
é imaginar que o exercício da Presidência nos dois casos se
beneficiou pelo fato de eles nunca terem passado pela formação dada
aos filhos da burguesia. A esquerda,
no entanto, se embriaga com esses mitos popularescos, especialmente quando eles
vêm embebidos em ideologia. Por isso fazem tanto sucesso nesse meio a utopia
indígena de Evo Morales e a utopia bolivariana de Hugo Chávez, rotas
certas para o desastre. A esquerda e seus ídolos não gostam de fórmulas
testadas e bem-sucedidas. Desdenham a experiência chilena, que deu certo
na prática, mas não foi seguida pelos vizinhos.
O Chile acaba de eleger Michelle Bachelet como presidente. Bachelet, socialista
de biografia impecável, não contestou as políticas que todos
os governos chilenos, de direita e esquerda, aplicam infalivelmente. O Chile segue
rigorosa disciplina fiscal, tem a economia privatizada e persegue o aumento da
produtividade. Por isso, cresce mais do que os vizinhos.
Com satisfação, a esquerda fala numa "maré vermelha" na América
do Sul. Comemora a eleição de tantos socialistas ao mesmo tempo.
O que se vê é uma maré de retrocesso que deixará muito
desapontamento no ar. Evo Morales
quer implantar na Bolívia um socialismo indígena. Sua ministra da
Justiça é índia sindicalista. O ministro das Relações
Exteriores também é índio sindicalista. Evo Morales, chefe
da tribo, levará para morar com ele no palácio do governo o vice-presidente
da República, o presidente da Câmara e o do Senado. "Socialismo é
viver em comunidade e igualdade", diz Morales. Espera-se que Lula não siga
o exemplo carregando José Alencar, Renan Calheiros e Aldo Rebelo para morar
com ele e dona Marisa. No Peru, o
candidato a presidente Ollanta Humala quer a nacionalização da economia
e democracia direta, falando com o povo sem a intermediação dos
parlamentares. É a fórmula usada na Venezuela pelo segundo maior
ídolo do exotismo latino-americano, o coronel Hugo Chávez, que pouco
a pouco vai tomando o lugar de Fidel Castro como o grande pajé da esquerda
no continente. A América Latina
só terá uma oportunidade de sair dessa maré de atraso se
abandonar a retórica obsoleta de seus líderes retrógrados
e experimentar a convivência com a moderna sociedade capitalista globalizada.
Querendo ou não, terá de enfrentar esse desafio, mais cedo ou mais
tarde. |