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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo A
empáfia é a mesma, mas...
Um
estudo comparativo entre Nelson
Jobim e Charles de Gaulle, semelhanças
físicas à parte
Com quem ele se parece, mesmo? Esse rosto, esse perfil, esse porte... Ele lembra
alguém. Um personagem histórico, sim, deve ser isso... Mas qual?
A imagem do ministro Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal, suscita
a busca nos arquivos fotográficos da memória. Procura-se, procura-se...
Até que Loredano, supremo mestre da caricatura, traz a solução.
De Gaulle! A figura física de Nelson Jobim é um clone de De Gaulle.
Loredano publicou, no jornal O Estado de S. Paulo de quinta-feira, uma
dupla caricatura do presidente do STF de frente e de perfil. De frente
sobressaem as orelhas, dominantes como asas de borboleta. De perfil se destaca
o nariz, imperioso como arma apontada para o adversário. Em um e outro
caso, os olhos são pequenos e a cabeça, larga nas faces, vai se
estreitando como funil no percurso até o cocuruto. O artista não
explicitou nenhuma comparação com De Gaulle. Talvez isso não
lhe tivesse passado pela cabeça. Não importa. Talvez até
à sua revelia, ele prestou o serviço de expor à luz do dia
o De Gaulle que há dentro de Nelson Jobim.
Jobim encontra-se no centro de um conflito que, da política, se deslocou
para o Supremo Tribunal Federal. Com poucos dias de intervalo, ele bloqueou duas
quebras de sigilo bancário que haviam sido decretadas pela CPI dos Bingos
a primeira do presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, amigão do presidente
Lula, e a segunda do empresário Roberto Kurzweil, envolvido com a turma
de Ribeirão Preto. Para investigações que vão de mal
a pior, graças ao infeliz casamento da esperteza dos investigados com a
incompetência dos investigadores, foi um golpe de morte. Mas isso até
que é o de menos, diante de outro aspecto da questão as suspeitas
que se acumulam em torno do presidente do STF.
Desde o começo do escândalo do mensalão, ele tem primado pelas
manobras que tentam ajeitar o Supremo ao gosto do governo. Ao ex-ministro José
Dirceu, por exemplo, tentou ajudar de diversos modos e em diversas ocasiões.
A mais vistosa ocorreu durante o julgamento da tese de que Dirceu não poderia
ser submetido a processo de cassação na Câmara porque, à
época da quebra de decoro de que o acusavam, era ministro de Estado. Quando
o ministro Ayres de Britto defendeu que, com mais razão ainda, por estar
no cargo de ministro, um deputado deveria se comportar com decoro, Jobim cortou:
"Essa é uma leitura udenista da questão. E foi o udenismo que levou
ao suicídio de Vargas". Em vão se procurará o que faziam
o udenismo e o suicídio de Vargas num arrazoado que se deveria tecer à
luz das razões constitucionais. Jobim, cada vez mais nervoso, meteu-se
ainda a provocar o ministro Gilmar Mendes. O Supremo, por artes de seu presidente,
viveu um dia de bate-boca de botequim. Mas, vá
lá isso também, em certo sentido, é o de menos. O
de mais, o espantoso, o insuperável é que, segundo se diz há
meses, e Jobim não desmente, ele será candidato nas próximas
eleições. O Brasil já sofre de pane do Executivo e da inoperância
endêmica do Legislativo. O que menos precisava, ainda mais num ano de eleições,
e numa fase de escândalos em série, era de um comandante do Judiciário
roído pela ambição política. Atribui-se a Jobim o
desejo de ser o vice de Lula. Essa seria a prioridade, mas, se não der,
também aceitaria ser o vice de José Serra. Se ainda não der,
não descartaria o governo do Rio Grande do Sul nem quem sabe uma vaga no
Senado ou na Câmara. A flexibilidade ideológica só não
é maior do que a disponibilidade para diferentes cargos. Num discurso na
semana passada, comemorativo da abertura do ano judiciário, Jobim disse
que seu período no Supremo "caminha para o final". Era mais um indício
de que ele sairá a tempo de candidatar-se. No mesmo dia, chegava ao Supremo,
assinada por 36 personalidades, entre as quais o jurista paulista Goffredo da
Silva Telles e o arcebispo de Mariana, dom Luciano Mendes de Almeida, uma interpelação
requerendo que Jobim declare se é ou não candidato. Em caso positivo,
que ele renuncie imediatamente, sob pena de sofrer processo de impeachment. Não
se tem notícia de um ministro do Supremo submetido a constrangimento parecido.
E De Gaulle com isso? A porção De
Gaulle do presidente do Supremo vai por conta da empáfia com que reage
aos questionamentos. Sua marca é o olhar superior; seu método, o
desprezo pelo argumento contrário. Como De Gaulle, ele se pretende habitante
de um olimpo. Fim da comparação. A empáfia de De Gaulle salvou
a França. Ele cismou que a França de verdade era como ele, resoluta,
indomável, inflexível, e assim conseguiu transportá-la da
derrota humilhante à condição de potência vencedora
da II Guerra. A empáfia de Jobim não se desculpa por nenhuma causa
nobre. Ele é um De Gaulle a serviço de si mesmo, que ao forçar
caminho para suas ambições arrasta a credibilidade do Supremo e
deixa uma lição: é preciso cuidado, muito cuidado, antes
de alçar a juiz alguém com origem nas refregas políticas.
A política é um veneno que se impregna muito forte no sangue. Difícil
se livrar dele. |