|
|
Cinema
Um amor e um violão
A história do romance entre Johnny Cash e June Carter acerta
na simplicidade 
Isabela Boscov
Divulgação  |  |
| Reese e Phoenix, como June e Cash: voz grave e paciência
de Jó | |
Um
menino pobre do Arkansas aprende a cantar ouvindo os hinos religiosos da mãe,
perde um irmão pouco mais velho de forma trágica operando
uma serra elétrica para ganhar uns trocados e carrega pelo resto
da vida não apenas a culpa (injustificada) por sua morte, como o rancor
do pai, que acha que lhe levaram o filho errado. Com seu pano de fundo de miséria,
rejeição e perda, a trajetória do ícone country Johnny
Cash lembra, de relance, a de tantos outros músicos sulistas que despontaram
nos anos 50 e 60, e poderia ter rendido um filme não muito diferente de
Ray, a cinebiografia de Ray Charles. Mas Johnny e June (Walk
the Line, Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país,
toma outro caminho: a longa e obstinada corte que Cash, já casado e pai
de cada vez mais filhas (quatro, no total), fez à cantora June Carter,
de cujo pé não largou desde o dia em que a conheceu, durante uma
turnê com os iniciantes Elvis Presley e Jerry Lee Lewis.
Com a voz grave, sempre vestido de preto e empunhando a guitarra como uma metralhadora,
Cash foi um dos grandes poetas americanos do desespero e da desilusão,
e o filme do diretor James Mangold resume numa cena exemplar a forma como ele
encontrou esse destino. Numa audição com o lendário Sam Phillips,
do selo Sun Records, ele começa como um cantor de gospel destinado ao fracasso
e, em questão de minutos, movido mais pela raiva à indiferença
de Phillips do que por convicção, transmuta-se no criador de Cry
Cry Cry e Folsom Prison Blues. A partir daí, o que Johnny
e June tem de mais convencional é, ironicamente, o que ele tem de mais
inesperado. Com sua reinvenção, as contradições de
Cash que sempre teve um pé no céu e outro no inferno
ficaram maiores do que ele próprio. A história de como ele perseguiu
June (e também as drogas, o álcool e outras mulheres) é,
de certa forma, a história de como ele buscou uma identidade que conciliasse
seus impulsos antagônicos de homem de fé e (na sua visão)
pecador contumaz. Cash e June morreram
em 2003, com quatro meses de diferença, e o filme é baseado nas
duas autobiografias do músico e em conversas entre ele, June e Mangold,
conduzidas pouco antes de o gongo soar. Foi delas que saiu a revelação
de que a corte do casal não foi exatamente casta. Mas se Johnny e June
arrebata é porque ele se recusa a alardear os fatos dessa intimidade ou
utilizá-los de maneira mecânica. Na verdade, o filme prescinde de
conhecimento prévio sobre a dupla e até mesmo sobre sua música
(aqui corajosamente interpretada pelos atores, sem dublagem). Em duas grandes
atuações, Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon pouco a pouco tiram
a roupagem mítica dos personagens até chegar ao seu aspecto elementar:
um homem, uma mulher e um violão.
| As três vidas de Johnny Cash
Mark Humphrey/AP  |
ANOS 50-60 Temperando
com rock'n'roll as canções de desespero típicas do country,
o jovem Cash virou um ídolo popular e uma influência para músicos
como Bob Dylan. Em 1968, gravou um clássico disco ao vivo numa prisão
ANOS 70-80 A
"breguização" do country roubou a Cash seu lugar no panteão
da música. Desiludido e esquecido pelas gravadoras, ele passou boa parte
desse período repetindo velhos sucessos em shows que em nada lembravam
os de seu auge ANOS 90-2000
Redescoberto em 1993 pelo U2, com quem gravou uma canção,
Cash passou por uma ressurreição artística e popular. Até
sua morte, em 2003, experimentou seu apogeu, registrado em quatro álbuns
e em uma caixa póstuma com gravações inéditas
| | |