Edição 1942 . 8 de fevereiro de 2006

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Cinema
Um amor e um violão

A história do romance entre
Johnny Cash e June Carter acerta
na simplicidade


Isabela Boscov

 
Divulgação
Reese e Phoenix, como June e Cash: voz grave e paciência de Jó 

EXCLUSIVO ON-LINE
Fotos do filme

DA INTERNET
Trailer

Um menino pobre do Arkansas aprende a cantar ouvindo os hinos religiosos da mãe, perde um irmão pouco mais velho de forma trágica – operando uma serra elétrica para ganhar uns trocados – e carrega pelo resto da vida não apenas a culpa (injustificada) por sua morte, como o rancor do pai, que acha que lhe levaram o filho errado. Com seu pano de fundo de miséria, rejeição e perda, a trajetória do ícone country Johnny Cash lembra, de relance, a de tantos outros músicos sulistas que despontaram nos anos 50 e 60, e poderia ter rendido um filme não muito diferente de Ray, a cinebiografia de Ray Charles. Mas Johnny e June (Walk the Line, Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país, toma outro caminho: a longa e obstinada corte que Cash, já casado e pai de cada vez mais filhas (quatro, no total), fez à cantora June Carter, de cujo pé não largou desde o dia em que a conheceu, durante uma turnê com os iniciantes Elvis Presley e Jerry Lee Lewis.

Com a voz grave, sempre vestido de preto e empunhando a guitarra como uma metralhadora, Cash foi um dos grandes poetas americanos do desespero e da desilusão, e o filme do diretor James Mangold resume numa cena exemplar a forma como ele encontrou esse destino. Numa audição com o lendário Sam Phillips, do selo Sun Records, ele começa como um cantor de gospel destinado ao fracasso – e, em questão de minutos, movido mais pela raiva à indiferença de Phillips do que por convicção, transmuta-se no criador de Cry Cry Cry e Folsom Prison Blues. A partir daí, o que Johnny e June tem de mais convencional é, ironicamente, o que ele tem de mais inesperado. Com sua reinvenção, as contradições de Cash – que sempre teve um pé no céu e outro no inferno – ficaram maiores do que ele próprio. A história de como ele perseguiu June (e também as drogas, o álcool e outras mulheres) é, de certa forma, a história de como ele buscou uma identidade que conciliasse seus impulsos antagônicos de homem de fé e (na sua visão) pecador contumaz.

Cash e June morreram em 2003, com quatro meses de diferença, e o filme é baseado nas duas autobiografias do músico e em conversas entre ele, June e Mangold, conduzidas pouco antes de o gongo soar. Foi delas que saiu a revelação de que a corte do casal não foi exatamente casta. Mas se Johnny e June arrebata é porque ele se recusa a alardear os fatos dessa intimidade ou utilizá-los de maneira mecânica. Na verdade, o filme prescinde de conhecimento prévio sobre a dupla e até mesmo sobre sua música (aqui corajosamente interpretada pelos atores, sem dublagem). Em duas grandes atuações, Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon pouco a pouco tiram a roupagem mítica dos personagens até chegar ao seu aspecto elementar: um homem, uma mulher e um violão.

 

As três vidas de Johnny Cash
Mark Humphrey/AP

ANOS 50-60
Temperando com rock'n'roll as canções de desespero típicas do country, o jovem Cash virou um ídolo popular e uma influência para músicos como Bob Dylan. Em 1968, gravou um clássico disco ao vivo numa prisão

ANOS 70-80
A "breguização" do country roubou a Cash seu lugar no panteão da música. Desiludido e esquecido pelas gravadoras, ele passou boa parte desse período repetindo velhos sucessos em shows que em nada lembravam os de seu auge

ANOS 90-2000
Redescoberto em 1993 pelo U2, com quem gravou uma canção, Cash passou por uma ressurreição artística e popular. Até sua morte, em 2003, experimentou seu apogeu, registrado em quatro álbuns e em uma caixa póstuma com gravações inéditas

 
 
 
 
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