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Especial Choque
de culturas Reação exagerada
à publicação de charges de Maomé acirra o confronto
entre o Islã e o Ocidente, duas civilizações com algumas
características em comum e muitos valores incompatíveis. O desafio
é fazer com que o abismo entre elas pare de crescer
 Diogo
Schelp Shawn
Baldwin/The New York Times
 | CONTRA
A DINAMARCA Palestinos pintam a marca de um pé
um gesto ofensivo no mundo árabe na bandeira dinamarquesa
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Doze charges, dez delas com caricaturas
do profeta Maomé, publicadas num pequeno jornal em um país igualmente
pequeno e, em geral, distante de encrencas internacionais, colocaram o mundo islâmico
em clima de guerra santa. A histérica reação diplomática
dos países muçulmanos, os boicotes econômicos, as multidões
enfurecidas e as ameaças de morte dos terroristas mostraram que o fosso
de valores, idéias e hábitos entre o mundo islâmico e o Ocidente
se aprofundou perigosamente. Dada a dimensão geográfica e humana
das partes e em vista das diferenças radicais, vem à mente a famosa
metáfora proferida por Winston Churchill quando ele viu o império
soviético se agigantar e alienar o resto do mundo. Churchill disse que
uma "cortina de ferro" havia descido sobre a Europa. Desde a Guerra Fria não
se via com tanta clareza a existência de dois mundos crescentemente hostis
e que, rapidamente, esquecem o muito que têm em comum exacerbando o pouco,
mas fundamental, que os separa. É um sinal dos tempos e também
um paradoxo. O abismo se torna mais intransponível exatamente em um mundo
interligado por comunicações instantâneas e pela intensificação
do comércio global. Por que, com tantas condições favoráveis,
o diálogo está se tornando impossível?
A resposta mais simples e correta ainda que não explique tudo
é que o fanatismo diminui as chances de diálogo. O convívio
poderia ser harmonioso e mutuamente enriquecedor não fosse o fato de que
o poder crescente dos fanáticos esmaga aqueles mais moderados e transigentes.
O caso das charges é exemplar por ter colocado em foco alguns dos mais
agudos pontos de ruptura entre o Ocidente e o Islã: liberdade de expressão,
direitos humanos e o que o jornalista dinamarquês Flemming Rose chamou de
"choque de civilizações" entre as democracias seculares e as sociedades
islâmicas. Rose, editor de cultura do Jyllands-Posten, o jornal dinamarquês
que publicou as charges cinco meses atrás, diz que a crise atual é
sobretudo "sobre a questão da integração e sobre se a religião
do Islã é ou não compatível com uma sociedade moderna
e secular". A idéia de um choque de civilizações não
é nova. A expressão foi colocada em evidência pelo americano
Samuel P. Huntington, professor de Harvard, num artigo que levou esse título
na revista Foreign Affairs, em 1993, e que depois foi ampliado e publicado
como livro. Sua opinião é a de que, passados os conflitos causados
por interesses divergentes entre Estados-nações, as guerras do futuro
seriam travadas entre grandes unidades conhecidas como culturas ou civilizações,
cada uma delas constituída de grupos de países. Ele errou no atacado
a ponto de colocar a América Latina como uma cultura à parte
do Ocidente e, dessa forma, um inimigo em potencial , mas apontou com clareza
para os indícios de que se ampliava o fosso entre as democracias ocidentais
e o mundo islâmico.
Quem julgasse só pelas manchetes dos jornais na semana passada poderia
pensar que um choque amplo entre o Islã e o Ocidente já começou
ou é iminente. Os terroristas da Al Qaeda apareceram na televisão
com ameaças de novos atentados em sua jihad contra os "cruzados" e judeus.
O Hamas, movimento islâmico conhecido por seus homens-bomba, ganhou as eleições
nos territórios palestinos. O mundo tentava encontrar uma forma de conter
o Irã e seu presidente-bomba, que ameaça desenvolver um arsenal
nuclear. Para o Ocidente, capitaneado por Estados Unidos e Europa, a possibilidade
de o Irã, uma teocracia islâmica, ter um arsenal nuclear é
o pior dos mundos. O terceiro foco de tensão foi a crise internacional
iniciada por um motivo banal as charges de Maomé e que mostrou
a imensidão das diferenças culturais entre o Ocidente e o mundo
islâmico. No ano passado, o jornal dinamarquês Jyllands-Posten
soube das dificuldades de um escritor, que queria ilustrar seu livro com desenhos
do profeta Maomé, mas não encontrava artista disposto a se arriscar
a sofrer as represálias muçulmanas. O jornal então convidou
desenhistas a enviar charges sobre Maomé e publicou uma dúzia das
que recebeu. A reação
muçulmana foi tomando impulso até atingir seu grau extremo na semana
passada. Duas dezenas de países árabes exigiram desculpas públicas
do governo dinamarquês e a punição dos responsáveis
pelas ilustrações. Um boicote tirou os produtos dinamarqueses
laticínios de excelente qualidade das gôndolas em todos os
países muçulmanos. Na Faixa de Gaza, pistoleiros ampliaram o protesto
invadindo o escritório da União Européia e vandalizando a
missão francesa. Cidadãos escandinavos foram retirados às
pressas da região para não ser mortos. Logo a fúria das ruas
muçulmanas se virou contra o espantalho de sempre, Israel e o Ocidente
em geral. Os muçulmanos estão incomodados com o fato de as feições
de Maomé terem sido desenhadas o que a tradição islâmica
proíbe e por várias charges mostrarem o profeta como um terrorista.
É compreensível que reclamem, mas o tom de guerra santa vai além
do que seria razoável. No momento em que um diplomata árabe exige
que o Estado dinamarquês puna jornalistas pelo crime de "blasfêmia",
o fosso entre os dois mundos se torna transparente. Fotos
reprodução
 |  | CHARGES
DA DISCÓRDIA As três charges
fazem parte da série do jornal dinamarquês Jyllands-Posten que
provocou revolta no mundo islâmico, por fazer piada com Maomé. Abaixo,
à direita, primeira página do jornal francês France Soir,
cujo editor foi demitido, com a manchete: "Sim, temos o direito de caricaturar
Deus" |
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A disputa sobre as charges de Maomé faz parte de uma série de confrontos
culturais similares entre o Islã e o Ocidente, começando pela sentença
de morte decretada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini contra o escritor britânico
Salman Rushdie, cujo livro Os Versos Satânicos o líder espiritual
do Irã considerou "blasfêmia" em 1989. Em 2004, o cineasta holandês
Theo van Gogh foi assassinado a tiros e facadas por um jovem muçulmano
ofendido com seu filme Submissão, que critica o tratamento dado
às mulheres nas sociedades islâmicas. Esses crimes em nome do Islã
são, obviamente, obra de fanáticos, mesmo quando ocupam altos cargos
em Estados islâmicos. Desde os ataques terroristas a Nova York de 11 de
setembro de 2001, um esforço enorme é feito por muçulmanos
e não-muçulmanos para separar o fanatismo de Osama bin Laden da
fé moderada e pacífica da maioria dos muçulmanos. A reação
extremada diante das charges de Maomé faz o contrário, reforçando
o estereótipo negativo dos muçulmanos.
O ponto crítico desse relacionamento difícil está na Europa,
onde vivem 15 milhões de muçulmanos. Essa migração
rompeu a fronteira entre a cristandade e o Islã, que permanecerá
estanque por séculos. "Os muçulmanos têm mais dificuldade
de se integrar e de aceitar alguns costumes do Ocidente do que outras populações
porque vivem de acordo com um conjunto de valores muito rígidos e tendem
a se isolar", disse a VEJA o historiador dinamarquês Ulf Hedetoft, da Academia
para Estudos de Migração de Aalborg, na Dinamarca. Há vários
outros pontos de confronto. A invasão do Iraque pelos Estados Unidos parece
feita sob medida para reforçar o sentimento generalizado entre os muçulmanos
de que o mundo os persegue. Oded
Balilty/AP
 | EXPULSÃO
DA TERRA PROMETIDA Colona judia resiste à
investida da polícia israelense na desocupação de assentamento
na Cisjordânia: eles crêem que a terra foi presente divino |
A disputa sobre as charges dominou a "blogosfera", o ativo e opiniático
universo dos blogs na internet. Ali, sem medo e sem censura, a hostilidade latente
se manifestou de forma crua. Mike Tidmus, da Holanda, escreveu: "O incidente torna
claro que não há lugar para o Islã na Europa se ele não
puder conviver com a liberdade. Os muçulmanos poderiam ser aconselhados
a voltar para seus reinos de areia, cheios de petróleo, e continuar a matar
uns aos outros e a odiar os judeus, os excessos da civilização ocidental,
as mulheres e os gays". Boa parte da incompatibilidade do mundo muçulmano
com o Ocidente moderno se explica pela noção de que no Islã
político não deve haver separação entre vida pública
e vida privada, entre religião e política. O diálogo fica
difícil com quem se recusa a aceitar que as escolhas humanas possam estar
acima das leis que considera emanadas por seu deus. "Não se pode chegar
a um acordo com os fundamentalistas justamente porque, por definição,
eles acreditam seguir os escritos sagrados ao pé da letra", disse a VEJA
o muçulmano Qamar ul Huda, historiador do Instituto da Paz dos Estados
Unidos. "É isso que torna o choque com o Ocidente inevitável." Thomas
Kist/AP
 | Mark
Kohn/AP
 | Rick
Nederstigt/AFP
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CINEASTA ASSASSINADO O
diretor de cinema holandês Theo van Gogh, à esquerda, foi morto por
um fanático muçulmano por criticar o tratamento dado às mulheres
islâmicas em seu filme Submissão (cena acima, à esquerda)
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A civilização ocidental assenta-se sobre valores hoje estranhos
ao mundo medieval dos fundamentalistas tanto os muçulmanos quanto
os cristãos. Basta um dado. Quatro em cada dez americanos rejeitam as teorias
evolucionistas de Charles Darwin. Eles rejeitam a ciência em um assunto
científico, preferindo aceitar a tese bíblica de que Deus criou
todos os seres vivos. Isso é treva. Mas não se tem notícia
de que os adeptos do criacionismo preguem a morte dos que aceitam o evolucionismo
darwinista. Do lado islâmico ela é mais espessa ainda. Os fundamentalistas
muçulmanos confundem opinião com ação. Isso os leva
a agredir e pedir a morte de pessoas que simplesmente discordam deles mesmo que
o agravo seja apenas de opinião. John Stuart Mill (1806-1873), o grande
pensador liberal inglês, definiu com cristalina clareza a fronteira entre
opinião e ação. A primeira deve ser tolerada por mais agressiva
que seja e só coibida quando for um incentivo direto e circunstancial
à ação violenta.
Firdia
Lisnawati/AP
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NÃO À SAIA CURTA Os
mulás lançaram uma fatwa contra as saias da tenista indiana Sania
Mirza |
O fanatismo
religioso não é patrimônio do Islã. Na semana passada,
a polícia israelense precisou usar a força para expulsar colonos
judeus de um assentamento na Cisjordânia, um dos territórios ocupados
na guerra de 1967. Eles resistiram, convictos de que a ocupação
obedece à vontade de Deus. São grupos que podem odiar o alcance
global da cultura laica dominante em seus países, mas só muito raramente
isso se traduz em violência revolucionária. O Ocidente olha para
o mundo muçulmano com desconfiança. Teme suas encrencas, suas mulheres
cobertas de véus e seus homens-bombas. O mundo muçulmano tem sido
contaminado, nas últimas décadas, por uma versão fantasiosa
do mundo desenvolvido, divulgada pelos mulás nas mesquitas: um lugar eficiente,
mas sem Deus e, portanto, sem alma. Não há nenhuma razão
insuperável pela qual muçulmanos e ocidentais não possam
conviver pacificamente. Isso exigiria que cada parte examinasse suas idéias
sobre a outra. Em especial, contudo, os muçulmanos precisariam encontrar
um jeito de se ajustar à vida moderna.
O desafio da Europa
Radicado nos Estados Unidos, onde dirige o Instituto Remarque, da Universidade
de Nova York, o inglês Tony Judt firmou-se como uma das maiores autoridades
na história da Europa contemporânea. Seu mais recente livro, Postwar
(Pós-Guerra), é uma portentosa revisão da trajetória
européia de 1945 até hoje. Judt narra uma experiência histórica
que, de modo geral, foi muito bem-sucedida: em apenas meio século, o continente
devastado pela guerra organizou uma próspera comunidade transnacional,
a União Européia. Nos capítulos finais do livro, porém,
ele aponta para a pedra no sapato europeu: a imigração. Seu foco
não é o fundamentalismo que hoje apavora o Ocidente, mas o fracasso
europeu em integrar as populações estrangeiras um fracasso
que, na visão dele, não tem raízes na religião.
A IMIGRAÇÃO É
HOJE O PRINCIPAL PROBLEMA DA UNIÃO EUROPÉIA? Sim. A integração
de um grande número de imigrantes é o principal problema da Europa
hoje, muito maior do que o crescimento vagaroso ou o déficit da previdência
social, que, na minha opinião, são um tanto exagerados. Tem-se falado
muito da situação francesa, especialmente depois dos tumultos que
abalaram a periferia de Paris no ano passado. Esse, porém, não é
um problema exclusivo dos franceses. Assim como a França não conseguiu
integrar os africanos e os árabes, a Alemanha hoje tem um problema real
com os turcos, e a Inglaterra, com os imigrantes de Bangladesh e do Caribe. Os
ingleses têm um modelo de integração muito diferente do francês
e gostam muito de falar em multiculturalismo. O efeito, porém, é
o mesmo ressentimento entre as populações imigrantes, o mesmo sentimento
de serem excluídas da sociedade. EXISTIRIA
UMA POLÍTICA DE SILÊNCIO SOBRE O TEMA NA EUROPA? Hoje, não.
Ficou impossível fazer de conta que a imigração não
existe: os europeus estão sendo forçados a admitir que esse é
um problema grave. Mas, há uns dez anos, havia uma mistura de silêncio
e arrogância em torno do assunto. A voz corrente, com exceção
da extrema direita mais agressiva, era que a imigração não
constituía um problema, que a Europa integrava a todos, que Londres era
uma maravilhosa cidade multicultural, e assim por diante.
COMO SE CHEGOU A ESSA SITUAÇÃO CRÍTICA?
Os franceses foram muito bem-sucedidos em integrar imigrantes pobres de Portugal,
Polônia, Itália, Iugoslávia. O que eles não conseguiram
foi integrar pessoas que são pobres e negras, ou pobres e árabes.
Isso revela que os europeus simplesmente não encararam as conseqüências,
desde os anos 70, da combinação de uma população crescente
de imigrantes não europeus com uma economia vagarosa. Era fácil
pagar o salário desses contingentes quando a economia crescia rápido,
como na Inglaterra e na Alemanha nos anos 50 e 60, e, no fundo, a suposição
sempre foi que essas pessoas voltariam para casa quando deixassem de ser necessárias.
Os turcos retornariam à Turquia, e os indianos, para a Índia, no
momento em que não houvesse mais emprego para eles. A falta de ocupação,
porém, atingiu os netos dos imigrantes originais, que não têm
mais para onde voltar. QUE PAPEL
TEM A RELIGIÃO NESSE PROBLEMA? Não acredito que esse seja
primariamente um problema religioso. Ninguém hoje na Europa gosta de falar
em conflitos de classe. Era moda debater isso nos anos 60, mas hoje em dia todos
preferem falar de questões étnicas, ou de gênero, e não
de classe. E o problema real com turcos na Alemanha, com bangladeshianos e caribenhos
na Inglaterra e com africanos e árabes na França é que eles
estão além da concepção de classe: eles estão
desempregados, ou desempenham as funções subalternas que os brancos
desempenhavam duas ou três gerações antes. São a classe
inferior de uma sociedade que não a reconhece como tal. Eles sofrem não
tanto pela discriminação racial direta, mas por não ter empregos,
por viver em bairros decadentes, sem comércio, sem transporte, sem boas
escolas. A cor é uma desvantagem adicional, que inflama muito ressentimento.
Mas eles são basicamente uma subclasse, e os europeus não querem
pensar a respeito disso. | | 
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