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Brasil Dinheiro
na mala é vendaval Naji Nahas
diz que ganhou uma mala recheada com 3,25 milhões de reais da Telecom
Italia como pagamento de serviços de "consultoria"
Antonio
Milena
 | | Naji
Nahas: empresário, investidor e, como ele próprio se intitula, lenda viva |
Dinheiro
vivo virou o símbolo do PT. É dinheiro vivo na cueca, dinheiro vivo
no jatinho, dinheiro vivo sendo sacado no Banco Rural. O que há de mais
podre na política brasileira passou a circular desse jeito em espécie.
Os políticos corruptos movimentam grandes quantias em dinheiro. Mas de
onde vem tanto dinheiro vivo? As possibilidades são muitas e tenebrosas.
Em 2006, com uma campanha presidencial nas ruas, o Brasil terá uma chance
rara de obrigar os políticos de todos os níveis a ser transparentes
quando o assunto é dinheiro. Em qualquer parte, a moeda sonante é
o meio de pagamento preferido por pessoas que pretendem esconder alguma coisa
de alguém em geral, do Fisco ou da polícia. Por isso, sempre
que se tem notícia de que alguém transacionou grandes quantias em
dinheiro as suspeitas são inevitáveis. A reportagem de VEJA teve
acesso a documentos, obtidos pelo colunista da revista Diogo Mainardi, que mostram
que a empresa Telecom Italia fez pelo menos um saque de 3,25 milhões de
reais em dinheiro vivo em nome do investidor Naji Nahas, personagem central da
crise que abalou a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro em 1989. Muitas dúvidas
cercam o destino dessa quantia.
 | UM
CAMINHÃO DE DINHEIRO Documento assinado pelo
presidente da Telecom Italia na América Latina, Giorgio Della Seta, autoriza
o banco Bradesco a sacar de uma das contas da empresa 3,25 milhões de reais
a ser entregues, em carro-forte, a Naji Nahas |
OS FATOS Em 2 de maio de 2003, Giorgio Della
Seta, presidente da Telecom Italia na América Latina, encaminhou um documento
a uma agência do Bradesco. Nele, autorizou o saque de 3,25 milhões
de reais da conta-corrente 6160-3, pertencente à Telecom Italia. Em seguida,
pediu que o numerário fosse entregue a Naji Nahas. Para isso foi usado
um carro-forte. A operação foi feita no dia 7 de maio, às
9h30 da manhã. Procurado na
última quarta-feira, Giorgio Della Seta surpreendeu-se a princípio
com o relato, mas, depois de mandar investigar os pagamentos feitos por sua empresa,
admitiu a estranha transação. "Nahas quis receber em cédulas.
O que fez com o dinheiro não é da nossa conta. Ele nos ajudou a
concluir um acordo que fizemos com o Banco Opportunity, do empresário Daniel
Dantas", disse Della Seta. Nahas confirmou essa versão e disse ter recebido
em dinheiro porque vivia sob ameaça de bloqueio de bens e prefere não
ter conta em banco (veja entrevista).
Caso encerrado? Dificilmente.  | PAGAMENTO
ANTECIPADO O contrato firmado entre a empresa
de telefonia e Nahas previa que o pagamento pela "consultoria" (4,12 milhões
de reais, brutos) seria feito em oito parcelas. Nahas diz que, dias depois de
sua assinatura, recebeu a bolada de 3,25 milhões, em espécie, a
título de antecipação |
AS SUSPEITAS Há uma série de pontos
obscuros nessa história: •
Naji Nahas foi contratado pela Telecom Italia em 30 de abril de 2003. O salário
bruto por seu trabalho como consultor seria de 4,12 milhões de reais, divididos
em oito parcelas mensais de 515.000 reais. Em 2 de maio, apenas dois dias depois
da assinatura do contrato, a Telecom Italia simplesmente desconsiderou o acordo
e presenteou Naji Nahas com o pagamento antecipado de 3,25 milhões de reais.
• Descontados os impostos sobre os
4,12 milhões de reais, Naji Nahas teria direito a receber 2,987 milhões
de reais. A Telecom Italia deu-lhe 3,25 milhões de reais. Ou seja, 263.000
reais a mais do que o combinado. Em 20 de maio de 2003, o presidente da empresa
assinou um aditamento ao contrato original, aumentando espontaneamente o salário
de Nahas para 5,1 milhões de reais. Dois dias depois, um outro saque de
406.000 reais foi feito também em dinheiro vivo. Pelo contrato, Naji Nahas
deveria ter recebido, por meio de depósito bancário, quinze dias
após a emissão do recibo. Ele recebeu em dinheiro vivo, quinze dias
antes da emissão do recibo. •
Os 3,25 milhões de reais, acondicionados em pacotes de 150.000 reais, foram
entregues pontualmente em 7 de maio de 2003, por um carro-forte da transportadora
de valores Preserve. O beneficiário do pagamento, de acordo com o documento
assinado por Della Seta, era Naji Nahas. O local escolhido para a entrega do dinheiro
foi a sede da Telecom Italia, no Edifício Parque Paulista, na Alameda Santos,
1940, conjunto 72. Nahas disse a VEJA ter recebido o dinheiro em seu escritório.
• Dois executivos da Telecom Italia
afirmam que a mala de dinheiro vivo foi entregue a um representante da companhia
chamado Ludgero Pattaro, que é uma das pessoas que apareceram em relatórios
feitos pela agência de investigações americana Kroll como
sendo responsável por pagamento de propina a dirigentes do PT em nome de
Della Seta. A apuração de VEJA descobriu que, no mesmo dia em que
o dinheiro chegou à sede da Telecom Italia, Pattaro foi ao hotel Renaissance,
na Alameda Santos, 2233, carregando uma mala e escoltado por agentes de segurança.
Ele alugou uma sala de reuniões no hotel e entregou a mala a uma pessoa
que não era Nahas. Exatamente às 16h11, foi embora, depois de pagar
217 reais pelo aluguel da sala. Norma
Albano/Folha Imagem
 | Roosevelt
Pinheiro/ABR
 | | Amigo
de Lula, Roberto Teixeira recebeu gordos pagamentos por "consultorias" à
Brasil Telecom, então controlada por Dantas (à dir.) |
Como é sabido, a Kroll trabalha por encomenda de empresários que
querem espionar seus concorrentes. Seus levantamentos são feitos no limite
da legalidade o que levou a Polícia Federal a invadir a sede da
empresa em 2004. Ou seja, não se pode tomar a produção de
fatos da Kroll pelo seu valor de face. Mas é fato também que a empresa
não estaria em franca atividade no mundo cobrando caro por seus serviços
se só produzisse material sem nenhum fundamento. Della Seta e Nahas dizem
que as suspeitas são absurdas, fantasiosas e sórdidas. O presidente
da Telecom Italia afirma não saber o que Pattaro foi fazer no hotel, nem
o que carregava. De fato, não há prova cabal de que Pattaro carregava
dinheiro, ou de que os dois fatos (envolvendo Pattaro e Nahas) tenham ligação
entre si. Para efeito legal as fitas e os documentos da Kroll e as reportagens
jornalísticas só podem ser tomados como pistas. Raramente como provas.
Portanto, com todas as ressalvas, o que se pode afirmar é que existem indícios
suficientes na transação financeira com dinheiro vivo protagonizada
pelo investidor Naji Nahas para motivar uma investigação do poder
público. As autoridades poderiam aproveitar e apurar outros contratos de
consultoria. É o caso do acordo revelado por VEJA em janeiro, entre a Brasil
Telecom e o advogado Roberto Teixeira, amigo do presidente Lula. Teixeira recebeu
da empresa 1 milhão de reais em serviços de consultoria. Ainda não
se sabe por qual serviço prestado.
"Nada
como ser uma lenda" O empresário
Naji Nahas deu a seguinte entrevista a VEJA sobre sua consultoria à Telecom
Italia: O SENHOR RECEBEU O DINHEIRO
DA TELECOM ITALIA? ONDE? Sim. No meu antigo escritório, em São
Paulo. POR QUE O PAGAMENTO FOI
FEITO EM ESPÉCIE? Simples: depois de tudo o que fizeram comigo,
com a liquidação da Internacional de Seguros, fiquei com meus bens
bloqueados. Vivia sob ameaça de bloqueio. Como pessoa física, não
tenho mais conta em banco. Por isso, recebi em dinheiro. Declarei e paguei o imposto
de renda. SEM CONTA, COMO
O SENHOR FAZ PARA VIVER, FAZER COMPRAS, VIAJAR? Com cartão de crédito.
Gostaria de deixar claro que meu negócio são grandes empresas. Nunca
tive negócio com político nem com o setor público. Nunca
dei dinheiro ao PT ou a outro partido. Nunca me foi pedido dinheiro para o PT.
O dinheiro que recebi da Telecom Italia não foi para o PT. Foi para o Naji,
e foi merecido. Essa história de que Lula depende do Naji... Vou te contar...
Nada como ser uma lenda. ONDE
ESSE DINHEIRO ESTAVA ACOMODADO QUANDO O SENHOR O RECEBEU? Acho que numa
mala média Samsonite. Quando chegou, mandei para minha tesouraria.
O CONTRATO PREVIA OITO PAGAMENTOS.
COMO O SENHOR CONSEGUIU RECEBER À VISTA? Eu pedi ao Tronchetti
(Marco Tronchetti Provera, presidente da Telecom Italia). Estava precisando
e pedi a antecipação. Não ganhei esse dinheiro sem trabalhar.
Fiz acordos para resolver a disputa entre o Opportunity (banco de Daniel Dantas)
e a Telecom Italia. Por meio de um deles, a Telecom Italia pôde lançar
celulares com tecnologia GSM. | | |