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Entrevista: Paul
Ehrlich
"Tem gente demais"
O demógrafo americano diz
que
o crescimento populacional
desordenado continua sendo a
grande ameaça ao planeta

Monica Weinberg
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Divulgação

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"Com menos gente no mundo, a pobreza
e a fome não teriam grassado e se tornado um fenômeno
com as proporções atuais" |
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Odemógrafo Paul Ehrlich
celebrizou-se no meio acadêmico por publicar o polêmico
best-seller The Population Bomb (A Bomba Populacional), em
1968, no qual faz projeções catastróficas sobre
as conseqüências da explosão demográfica.
"A falta de comida causará a morte de milhões de pessoas
nas próximas décadas", escreveu. Por suas previsões
alarmistas, Ehrlich ocupou o posto de principal seguidor do inglês
Thomas Malthus, que no século XVIII lançou pela primeira
vez o anátema da escassez sobre a humanidade. Na década
de 80, Ehrlich fez uma famosa aposta com o economista americano
Julian Simon. A aposta ganhou publicidade por seu ineditismo no
meio acadêmico: o alvo era o valor que cinco metais alcançariam
na Bolsa de Chicago nos dez anos seguintes. Ehrlich sustentava que
o crescimento populacional elevaria a demanda e o preço dos
metais. Os metais perderam valor, e Ehrlich, a aposta. Agora, aos
73 anos, 47 dos quais dedicados à pesquisa na Universidade
Stanford, na Califórnia, Ehrlich diz que errou, sim, mas
por circunstâncias que não invalidam sua tese central:
a Terra está chegando ao limite da sustentabilidade da vida
humana.
Veja As previsões
apocalípticas que o senhor fez em seu livro The Population
Bomb (A Bomba Populacional) não se confirmaram. Estamos
salvos?
Ehrlich Quando fiz as previsões, o ritmo
de crescimento da população era tão rápido
que, segundo minhas contas, o número de habitantes da Terra
dobraria a cada 27 anos. Esse era um cenário assustador no
qual fazer projeções como as que publiquei no livro
soava razoável. Baseado nos dados de que dispunha então,
posso até ter exagerado na dose. Mas fiquei muito mais próximo
da realidade do que os otimistas que minimizaram em suas análises
os impactos devastadores da explosão demográfica.
O crescimento populacional levou o planeta a ser um lugar pior para
viver, exatamente como eu havia afirmado.
Veja Mas o senhor
escreveu que "alimentar a humanidade era uma batalha perdida" e,
desde então, a proporção de famintos caiu de
35% para 13%.
Ehrlich A revolução tecnológica
vivida no campo levou a um nível de aumento da produtividade
com o qual eu não contava ao fazer minhas previsões.
A produção agrícola cresceu 40% em cinqüenta
anos. As sociedades também aprenderam a distribuir melhor
a comida em situações de emergência. Por isso
errei nos números, mas acertei na idéia central. A
concentração populacional em algumas regiões
do mundo tornou o acesso à comida mais difícil, principalmente
em países africanos. Estima-se que 300 milhões de
pessoas tenham morrido de fome nos últimos trinta anos
apesar das benesses da tecnologia no campo. Com menos gente no mundo,
certamente a pobreza e a fome não teriam grassado e se tornado
um fenômeno com as proporções de hoje. Essa
situação tende a piorar.
Veja Se a maioria
dos países enriquece, por que razão as pessoas correm
mais risco de passar fome?
Ehrlich Com as informações que temos
hoje, é difícil fazer previsões sobre o futuro
da agricultura quando o planeta tiver passado pela transição
climática que está em curso. Não dispomos ainda
de resposta para uma questão básica: quantas sementes
se adaptarão ao novo ambiente? Ninguém sabe. Talvez
bem poucas. É razoável afirmar, portanto, que existe
uma possibilidade real de o número de famintos aumentar no
planeta. Não há um cientista sério que discorde
da idéia de que a superpopulação leve a esse
tipo de desastre social. Um outro consenso na comunidade científica
é sobre a relação entre a superpopulação
e os principais problemas ambientais da atualidade.
Veja O senhor
pode dar exemplos?
Ehrlich Nas últimas três décadas,
a relação entre o excesso de pessoas no mundo e os
estragos ambientais tornou-se evidente. Já há menos
água potável disponível para tanta gente e,
com os grandes contingentes populacionais de hoje, a poluição
atmosférica chegou a índices assustadores. No futuro
médio, um cálculo conservador mostra que haverá
4 bilhões de veículos circulando nas ruas. Naturalmente,
a qualidade do ar ficará ainda pior e o clima da Terra sofrerá
variações mais drásticas.
Veja O senhor
não está subestimando a capacidade tecnológica
de alterar esse cenário?
Ehrlich Ao contrário do que meus opositores
no campo acadêmico pensam, sou um entusiasta da tecnologia.
Não vivo sem meus computadores de última geração
para rodar dados e auxiliar em projeções. O que não
posso é me juntar à corrente que sustenta ser a ciência
moderna a salvadora de todos os nossos males inclusive aqueles
que têm como origem a superpopulação. A maior
parte dos recentes avanços tecnológicos não
chegou ao centro do problema. Uma questão é que, muitas
vezes, o homem não sabe como se beneficiar de seu próprio
invento. Olhe o que aconteceu com as imagens enviadas pelo satélite
americano que apontava para o encolhimento da camada de ozônio:
por muitos anos apenas armazenamos a informação em
um supercomputador. Outro ponto é que nos dedicamos demais
à pesquisa de tecnologias que não rendem nenhuma contribuição
para a redução dos efeitos maléficos da superpopulação
esse, sim, nosso problema-chave. O iPod é uma ótima
invenção da ciência, mas como pode atenuar os
estragos da colméia humana na qual o mundo se transformou?
Veja E as várias
pesquisas que têm como objetivo substituir o petróleo
por fontes alternativas de energia?
Ehrlich Essas pesquisas mostram uma luz no fim
do túnel, mas mesmo em relação a elas faço
uma ressalva. Os avanços tecnológicos costumam levar
tempo para gerar benefícios consistentes à sociedade.
Na prática, funciona assim: enquanto a poluição
atmosférica altera a temperatura terrestre, os pesquisadores
ainda estudam como vão viabilizar o hidrogênio. A previsão
é que daqui a três décadas o hidrogênio
representará 10% da matriz energética mundial. Será
bom para o planeta? Sem dúvida que sim. Mas isso ainda estará
longe de minimizar o fato de o mundo ser hoje um lugar habitado
por 6,5 bilhões de pessoas. Essa é uma situação
insuportável. Repito: a única maneira de agüentarmos
o planeta desse jeito é depredando o lugar em que vivemos
além de seu limite algo que jamais faríamos
em nossa vida privada.
Veja Em sua
opinião, qual é o tamanho ideal para a população
mundial?
Ehrlich Fiz um exercício matemático
segundo o qual a Terra seria um lugar bom para viver com 2 bilhões
de habitantes. Ou seja, o equilíbrio natural seria assegurado
se o mundo tivesse apenas 30% dos habitantes de hoje. Com esse número,
as pessoas teriam acesso ao máximo de oportunidades disponíveis.
De acordo com meu estudo, todas elas seriam bem alimentadas e educadas,
viveriam em cidades vibrantes, teriam bons empregos e não
mais ouviriam falar no desaparecimento da camada de ozônio.
Não sei se um dia a Terra voltará a ter apenas 2 bilhões
de habitantes, mas o dado promissor que temos dá conta de
que a era da explosão demográfica vai terminar. As
melhores notícias nesse campo vêm da Europa. A população
da Itália, por exemplo, já começou a encolher.
No ritmo atual, acredita-se que o mundo chegará ao fim do
século XXI com cerca de 8,5 bilhões de habitantes.
A partir daí esse número vai cair. Isso me dá
uma certa esperança no futuro.
Veja Com uma
queda drástica no tamanho das populações, não
há risco de os países empobrecerem por falta de mão-de-obra?
Ehrlich Sou otimista em relação
aos efeitos da redução populacional para a economia.
Tudo indica que, de fato, o PIB dos países cairá quando
sua força de trabalho encolher. Isso não quer dizer,
no entanto, que as pessoas viverão pior. Penso justamente
o contrário e baseio meu otimismo em dois argumentos
objetivos. O primeiro é que a renda per capita dos cidadãos
aumentará quando a riqueza dos países for repartida
por menos gente. Em segundo lugar, a produtividade também
crescerá. Ou seja: menos pessoas produzirão mais.
Essa já é uma tendência atual.
Veja Quais são
os países que mais o preocupam?
Ehrlich De longe, os Estados Unidos. O cenário
americano me dá calafrios por se tratar do terceiro maior
conglomerado de pessoas do mundo, atrás apenas da China e
da Índia, e, ao mesmo tempo, ser o país onde os indivíduos
têm uma das maiores rendas per capita do planeta. São
300 milhões de cidadãos consumindo utilitários
esportivos e jatos que bebem gasolina como se fosse Coca-Cola. O
nível de consumo americano exerce pressão sobre os
recursos naturais do mundo inteiro. Do ponto de vista do equilíbrio
global, não há situação demográfica
mais explosiva.
Veja Esperar
que as pessoas possam refrear seu consumo não é utópico?
Ehrlich Prefiro colocar a coisa da seguinte maneira:
consumir pode trazer bem-estar, e não sou contra isso por
princípio. Aprecio os benefícios que a economia de
mercado pode trazer para a vida das pessoas e comprar é
um deles. Mas esse é um típico caso em que a teoria
está distante da realidade. Com o cenário atual, o
mundo pode até suportar durante algum tempo o padrão
de vida dos americanos. A chegada de bilhões de chineses
e indianos a esse mesmo nível de consumo levará a
conseqüências devastadoras para o meio ambiente e para
a qualidade da vida na Terra. Será um teste aos nossos limites.
Veja Segundo
projeções econômicas, China e Índia estarão
próximas do padrão de consumo americano em 2050...
Ehrlich O fato de esses países terem enriquecido
é ótima notícia. Só lamento que tenham
chegado lá com uma população gigantesca. Já
pensou toda essa gente realizando o sonho de dirigir o próprio
automóvel? Do ponto de vista ambiental, a situação
só tende a piorar com esse quadro. Evito projeções
apocalípticas, mas, como cientista, tenho o dever de fazer
previsões que sirvam de alerta. No atual ritmo de crescimento
econômico e com tanta gente junta, China e Índia terão
papel de vanguarda na destruição da camada de ozônio
e estão arriscadas a ver doenças epidêmicas,
como a aids, espalhar-se em seu território. O contingente
populacional dos dois países é terreno fértil
para a proliferação de tais epidemias. Trata-se de
um ciclo vicioso catastrófico, típico de ambientes
superpopulosos.
Veja O que o
senhor sugere para quebrar esse ciclo?
Ehrlich Acho inevitável que sejam tomadas
medidas em duas direções. Primeiro, os governos devem
intervir para limitar a venda de produtos cujo consumo excessivo
leve a prejuízos para o meio ambiente. Eu começaria
pelo aumento dos impostos sobre a gasolina e os itens produzidos
à base de petróleo. Impor alguma regulamentação
nesse campo é uma questão de sobrevivência da
espécie. Em segundo lugar, é preciso que os governos
também estimulem os cidadãos a promover uma mudança
de hábitos. A redução do desperdício
de recursos naturais no dia-a-dia seria um bom começo. Há
números impressionantes nesse campo. Em alguns países,
mais da metade da água disponível é jogada
pelo ralo. Isso é inadmissível diante da situação
atual de superpopulação da Terra.
Veja O senhor
chegou a defender impostos sobre berços e fraldas para inibir
a fecundidade. Ainda acredita nessas medidas?
Ehrlich Eu também defendia que homens indianos
com mais de três filhos deveriam ser esterilizados por força
da lei. Essas idéias ficaram velhas, admito, porque os países
estão conseguindo implantar boas políticas de redução
da fecundidade em geral, mais educativas e menos invasivas
do que as que propus. O Brasil é um bom exemplo disso. Nos
anos 70, uma mulher brasileira tinha, em média, seis filhos.
Hoje esse número baixou para dois.
Veja Historicamente,
um dos efeitos da superpopulação são as guerras
pelo "espaço vital". Esse risco está crescendo atualmente?
Ehrlich A experiência mostra que existe
uma relação direta entre a explosão demográfica
e o acirramento da política externa dos países. Isso
acontece por uma razão simples. As nações se
vêem forçadas a entrar em guerra com outras para garantir
recursos naturais que, com o atual contingente, são cada
vez mais escassos. O melhor exemplo para ilustrar o que estou dizendo
é o conflito no Iraque. Os Estados Unidos desencadearam a
guerra com o objetivo de manter o suprimento de petróleo
de que necessitam para continuar a crescer e a consumir na velocidade
de hoje.
Veja Como se
sente sendo classificado como um neomalthusiano?
Ehrlich Malthus, até certo ponto, foi um
visionário, em especial quando veio a público falar
pela primeira vez sobre os perigos da superpopulação.
Ele errou nos números, mas acertou na idéia central:
aglomerados de gente tendem a concentrar pobreza, fome e doenças.
As estatísticas comprovaram tal fenômeno posteriormente.
Veja Por que
o senhor perdeu a célebre aposta que fez com o economista
Julian Simon nos anos 80, em que afirmava que o valor de cinco metais
iria subir em dez anos na Bolsa de Valores de Chicago?
Ehrlich Parti do pressuposto correto. Eu achava
que o crescimento populacional levaria ao aumento da demanda pelos
metais e, em conseqüência disso, seu preço subiria.
Fiz o cálculo econômico básico segundo o qual
a escassez traz como resultado o aumento do preço. Perdi
a aposta por uma questão meramente circunstancial: houve
uma queda generalizada nas ações da bolsa em virtude
de um momento de encolhimento da economia americana. Imagine a situação
como um jogo entre a Seleção Brasileira de Futebol
e um time de bairro qualquer. Apostei no Brasil, mas quem venceu
foi um desconhecido adversário. Venceu uma vez. Ponto final.
O equívoco está em pensar que o desconhecido adversário
venceria o Brasil sempre. No meu caso, o erro está em imaginar
que o fato de eu ter perdido aquela aposta significa que os recursos
naturais são inesgotáveis e que o planeta pode sustentar
não importa quantos bilhões de seres humanos.
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