Edição 1942 . 8 de fevereiro de 2006

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Carta ao leitor
Uma aliança suspeita

 
Beto Barata/AE
Lula e Jobim: interesses políticos travestidos de verdade jurídica

A pior aliança que um governante pode fazer é com as ruas. Falar diretamente às massas e com elas pretender governar ao arrepio das instituições é o desvio clássico que levou sociedades ao despotismo em diversos períodos da história – da Roma Antiga à Alemanha nazista. O presidente Lula não sucumbiu a essa tentação. Infelizmente, porém, Lula já assegurou seu lugar na história como o chefe de governo que em diversas situações atentou contra a saúde institucional do país. Em primeiro lugar, fez vista grossa ao uso do Poder Executivo por membros de seu partido com o intuito claro de fazer caixa para pagar compromissos da campanha eleitoral. Depois também não se importou quando parte do dinheiro desviado foi usada para amortecer consciências no Congresso, no fenômeno de vilipêndio do Poder Legislativo que ficou conhecido como mensalão.

Agora foi a vez de o Poder Judiciário sofrer com a falta de recato que a ambição política produz em Brasília. Uma reportagem desta edição de VEJA revela detalhes de uma aliança suspeita entre Lula e o ministro Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Depois de mandar às favas a isenção que se espera do ocupante do mais alto posto da magistratura do país e atuar em clara sintonia político-partidária com Lula, Jobim prepara sua volta ao jogo político. Lula conta com a filiação de Jobim ao PMDB para convencer o partido a apoiar sua candidatura.

Nenhum dos movimentos de Jobim viola diretamente as leis ou foi feito sem amparo de interpretações jurídicas. Mas sua atuação no pleno do STF, na concessão de liminares e nos bastidores foi despudoradamente conduzida de forma a prejudicar a apuração de desmandos do governo Lula determinada pelas CPIs instaladas no Congresso. A coisa ficou tão feia que um grupo de juristas chegou a protocolar uma interpelação judicial no STF cobrando do ministro Jobim a explicitação de suas intenções partidárias. Os doutores do catolicismo dizem que a prova da natureza sagrada da Igreja é sua permanência apesar dos pecados dos sacerdotes. Para a felicidade da nação, a prova da maturidade das instituições brasileiras está justamente em sua resistência a ataques como os gerados pela aliança Lula-Jobim.

 
 
 
 
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