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Com fermento
As grandes
cadeias de lojas populares
duelam usando ídolos da televisão para
ganhar a preferência dos ávidos
consumidores das classe C, D e E

Roseli Loturco
Daniela Picoral
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| Klein,
das Casas Bahia: vendas de 4 bilhões de reais em 2002 |

Veja também |
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As vendas
de eletroeletrônicos e móveis das grandes redes de consumo
popular ignoram a recessão. As Casas Bahia, as lojas Marabraz,
o Ponto Frio e as Lojas Cem crescem 10% anuais, em média, há
muitos anos. O crescimento do Magazine Luiza, com 132 lojas distribuídas
pelo interior de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e
Paraná, parece ter fermento. O número de lojas aumenta a
uma taxa de 20% ao ano há mais de uma década. Cada uma das
grandes redes abre, em média, de dez a oitenta lojas por ano. A
fórmula desse setor que parece não conhecer crises é
difícil de ser copiada. Elas trabalham com margens de lucro líquido
baixíssimas, em torno de 2,5% a média brasileira
no comércio é de 8%. As lojas populares, portanto, só
sobrevivem com altos volumes de venda e precisam crescer, crescer e crescer.
A competição entre essas lojas que focam no público
das classes C, D e E ou seja, famílias com rendimentos de
até dez salários mínimos é travada
principalmente na televisão, cujas transmissões atingem
96% dos lares brasileiros. Em todo o país, o público-alvo
das lojas populares é formado por 133 milhões de pessoas,
ou 77% da população. Esse público representa 45%
do potencial do consumo nacional. Considerando a economia informal, estima-se
que o porcentual avance para 60%. Em outras palavras, de cada dez geladeiras
ou televisores vendidos no Brasil, seis vão parar na cozinha ou
na sala de uma família de baixa renda.
"O comércio
é um dos únicos segmentos, ao lado do imobiliário,
que continuam aumentando o volume financeiro destinado à publicidade",
afirma Armando Strozenberg, presidente da Associação Brasileira
de Propaganda. O duelo mais acirrado é o que envolve as Casas Bahia
e a rede Marabraz. Seus comerciais são exibidos numa freqüência
impressionante. Quando somados seus tempos de exibição,
os comerciais de televisão das Casas Bahia ficam mais tempo no
ar que a novela das 8 da Rede Globo. A exposição total diária
das lojas Marabraz na televisão é maior do que a duração
do Jornal Nacional. Entre janeiro e outubro de 2002, as Casas Bahia
gastaram 200 milhões de reais em publicidade. O valor equivale
ao empregado no mesmo período pela rede Pão de Açúcar
e pela cadeia de lanchonetes McDonald's juntas. A Marabraz gastou 120,4
milhões de reais em campanhas publicitárias, valor semelhante
ao que investiu em imagem a Coca-Cola. Proporcionalmente ao faturamento,
o esforço de propaganda da Marabraz é muito maior que o
das Casas Bahia. Enquanto a Marabraz faturou cerca de 330 milhões
de reais no ano passado, as Casas Bahia venderam 4 bilhões de reais.
Enquanto a Marabraz tem seu mercado restrito à Grande São
Paulo, as Casas Bahia dominam as regiões urbanas densamente povoadas
de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Goiás,
Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Brasília.
Divulgação
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Cida Souza
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| Zezé
Di Camargo e Luciano, da Marabraz: apelo sertanejo |
O
Ponto Frio, a segunda maior rede: Ana Maria Braga na TV e vendas de
cerca de 2,8 bilhões |
A corrida
pelo bolso popular tem sido uma luta com mais vencedores do que perdedores.
De acordo com a Serasa, uma empresa de cadastro financeiro, as vendas
totais do comércio em todo o Brasil aumentaram 2,8% na semana que
antecedeu o Natal de 2002. O crescimento das vendas nas lojas populares
foi, na média, quase cinco vezes maior. Em algumas, como o Magazine
Luiza, o Natal de 2002 foi 20% maior que o de 2001. Um espanto. "Os compradores
das classes C, D e E são um filé muito cobiçado",
afirma o consultor de varejo Marcos Gouvêa de Souza. O senso comum
é que as pessoas com rendimentos baixos são mais afetadas
pelo desemprego e, por isso, consomem menos. Não é o que
mostram as pesquisas. "Encontramos casas populares com três e até
quatro aparelhos de televisão", diz Fabio Mariano, consultor e
sócio do instituto de pesquisas Data Popular. A abertura das importações
e o avanço tecnológico derrubaram os preços dos produtos
eletroeletrônicos. Nem a inflação, nem os juros altos
das prestações, nem a ameaça do desemprego desestimularam
as compras pelo público de baixa renda no Brasil. Um televisor
custa atualmente menos de um terço do que valia sete anos atrás.
Quase todos os eletroeletrônicos baratearam na mesma proporção.
Como os
produtos, as marcas e os preços variam muito pouco, a luta pelo
cliente é feita mais na base da emoção. Por essa
razão, os comerciais das lojas populares são dominados por
duplas sertanejas, apresentadoras de televisão e atores. Atualmente,
os anúncios da Marabraz são estrelados pela dupla sertaneja
Zezé Di Camargo e Luciano. Os do Ponto Frio, grupo com 360 lojas
espalhadas pelo Brasil, contam com o carisma da apresentadora de televisão
Ana Maria Braga. As acusações de plágio de promoções
e mensagens comerciais são comuns nesse mercado. "Chego à
loja da concorrência, me apresento para o gerente e olho tudo. Presto
atenção no preço, na disposição dos
produtos e saio de lá pensando em ser mais criativo", reconhece
Michel Klein, diretor administrativo das Casas Bahia. O departamento de
marketing das Lojas Colombo, a grande rede da Região Sul e a terceira
no ranking nacional, tem sempre o material de propaganda de todos os concorrentes.
"Não há nada patenteado nesse setor, e aposto que as outras
redes também têm o nosso material", defende-se Eldo Moreno,
diretor superintendente da Colombo.
O crediário
é o instrumento indispensável para atrair os consumidores.
A classe média compra nas lojas em que encontra os produtos que
procura ou decide pelo preço. As classes populares compram de quem
lhes oferece crédito. E sempre encontram. Muitas lojas aboliram
até mesmo a necessidade de comprovação de renda.
Basta ter um endereço. A razão é atrair os consumidores
do mercado informal. "As redes sabem que o autônomo tem um alto
potencial de consumo, seja ele dentista ou camelô", diz o consultor
Gouvêa de Souza. Nas Lojas Colombo, quem decide se o crédito
será dado é o gerente. As Casas Bahia orientam seus gerentes
para dar crédito até mesmo a consumidores com o nome sujo
na praça. "Para ser bem atendido no banco, o cliente precisa ir
bem vestido, mas nas nossas lojas ele pode ir de chinelo que será
bem tratado", diz Klein, o diretor administrativo da rede.
Outra façanha
dos magazines de eletroeletrônicos e móveis é o baixo
nível de inadimplência. O nível está no patamar
entre 4% e 8,5%, um fenômeno se comparado aos cerca de 16% do comércio
em geral. A estratégia de muitos lojistas é criar laços
com os consumidores. "Nas nossas lojas, quem vende o produto é
o mesmo funcionário que cobra a prestação. Isso cria
uma relação especial entre a loja e o cliente", diz Frederico
Trajano, diretor de marketing e vendas da Luiza. As lojas preferem fazer
de tudo antes de mandar tomar os produtos dos inadimplentes. Isso não
é feito por caridade, mas por racionalidade econômica. Retomar
a posse de um bem pode sair para a loja mais caro que o valor da mercadoria.
Embora florescente, o negócio focado no consumo de massa sofre
de uma genética fraqueza financeira. Isso se deve às margens
de lucro pequenas e aos riscos que as lojas correm tanto na ponta das
compras quanto na ponta das vendas. Basta um vacilo no controle do estoque
ou dos créditos para que o negócio desande. Isso é
assim também nos Estados Unidos. Em 2001, a gigante Kmart, com
mais de 2.000 lojas, entrou em concordata,
esgotada pela guerra de preços baixos com a líder Wal-Mart.
Nos anos
90, muitas lojas de consumo popular no Brasil foram à lona. Elas
foram derrubadas pelo uso exagerado das mesmas armas que brandiram para
atrair clientes e vencer a concorrência, preços baixos e
concessão liberal de crédito. A Casa do Rádio já
foi a maior cadeia de lojas de eletrodomésticos de Minas Gerais.
Em 1998, depois de mais de sessenta anos de mercado, teve concordata preventiva
decretada e atualmente está tentando anular na Justiça um
processo de falência. Também em 1998 a Arapuã pediu
concordata. Muitas das gigantes de agora cresceram comprando lojas de
redes em dificuldades. Esse processo aumentou a concentração
do setor. O Ponto Frio, a segunda no ranking nacional, incorporou a rede
paranaense Disapel há dois anos e meio. Com isso, aumentou o número
de lojas e fechou 2002 com faturamento de cerca de 2,8 bilhões
de reais. A disputa pelo bolso dos consumidores de baixa renda promete
ficar ainda mais quente em 2003.
Com
reportagem de
Adriana Carvalho
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