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O dono da bola
Filho
de Kadafi, o ditador da Líbia,
investiu em times da Itália e quer
comprar um da Inglaterra

José
Eduardo Barella
AP
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| Al-Saadi
com a equipe da Juventus: na seleção, apesar de perna-de-pau |
Depois de
passar as décadas de 80 e 90 patrocinando terroristas e disparando
bravatas contra os Estados Unidos, Muamar Kadafi decidiu melhorar sua
imagem no exterior e tirar a Líbia do isolamento. Só que,
em lugar de seguir o caminho diplomático, Kadafi optou pelo futebol.
Para isso, conta com a ajuda de Al-Saadi Kadafi, um de seus sete filhos
e o mais cotado para sucedê-lo. Misto de jogador e cartola, Al-Saadi
sempre foi o dono da bola no país que papai governa com mão
de ferro desde 1969. Aos 29 anos, o filho do ditador é capitão
da seleção líbia, apesar de atacante medíocre.
Fora das quatro linhas, é um cartola determinado. Como presidente
da federação local, Al-Saadi faz intenso lobby na Fifa para
emplacar a candidatura da Líbia como sede da Copa do Mundo de 2010,
que será disputada na África. E continua torrando à
vontade o dinheiro do petróleo, investindo em times europeus. Fiel
à nova cartilha de Kadafi, Al-Saadi diz que é melhor aplicar
dinheiro em futebol do que em armas.
A maior
ofensiva, até agora, se deu na Itália. No início
de 2002, Al-Saadi adquiriu 7,5% das ações da Juventus, de
Turim, por 16 milhões de dólares. Em outubro, entrou para
a diretoria do time italiano, acenando com a possibilidade de ampliar
sua participação para 20%. A Juventus é controlada
pela família Agnelli, dona da Fiat e com vários negócios
na Líbia. Em novembro, Al-Saadi desembolsou mais 4 milhões
de dólares para comprar o Triestina, equipe da segunda divisão
italiana, e fechou um acordo com a Lazio, outro time de ponta. Por 600.000
dólares anuais, a equipe romana vai oferecer estágio a jogadores
juvenis da Líbia e disputar amistosos com a seleção
daquele país. Al-Saadi agora está de olho no Liverpool,
um dos clubes mais tradicionais da Inglaterra. Sua primeira investida
foi um fiasco. A diretoria do time inglês deixou claro que não
o quer como acionista. Al-Saadi não se abateu e disse que poderá
participar como investidor da construção do novo estádio
do clube, prevista para 2005.
A insistência
do clã Kadafi em ver seu nome associado a um clube grande da Inglaterra
é previsível. Os ingleses não esqueceram o envolvimento
do ditador no atentado que derrubou um Boeing da Pan Am sobre a cidade
escocesa de Lockerbie, em 1988. Como punição, a ONU adotou
sanções econômicas à Líbia que só
foram suspensas em 1999, quando Kadafi entregou à Justiça
internacional os dois líbios acusados pelo crime. A estratégia
de usar a família para tentar melhorar a imagem do país
é arriscada. Seus filhos vivem metidos em confusões. Um
deles, Muatassim Kadafi, tem o delicado apelido de "Canibal". Em 2001,
foi expulso da Itália depois de se envolver numa briga na boate
do Hotel Hilton, em Roma. Al-Saadi é mais discreto, mas também
tem um histórico de brigas e bebedeiras em boates européias.
De certa forma, ele lembra outro filho de ditador envolvido no mundo do
esporte Udai Hussein, que dirige o comitê olímpico iraquiano.
A diferença é que Al-Saadi não tortura os jogadores
quando a seleção perde, como faz Udai. Mas, como o iraquiano,
Al-Saadi não admite ser contrariado. O italiano Franco Scoglio,
ex-técnico da seleção líbia, que o diga. Ele
foi demitido em setembro, depois de três vitórias consecutivas.
Seu crime: não convocou Al-Saadi em dois jogos e, no terceiro,
deixou-o na reserva. "Quando ele estava no time, nós perdíamos
sempre. Quando ele saiu, passamos a ganhar", disse Scoglio. "Al-Saadi
é um perna-de-pau."
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