
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Os primeiros 100
dias
Com a
posse de Lula, o eleitor
poderá ter um período mais longo
de lua-de-mel com o presidente
Alexandre
Oltramari
AP
 |
| O
EX-PRESIDENTE Franklin Roosevelt: seu sucesso no Congresso
deu início à mística dos 100 dias |

Veja também |
|
|
|
Com a chegada
ao poder na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
inicia o que, na prática política, se convencionou chamar
de "os primeiros 100 dias" um período em que a sociedade
e os políticos tradicionalmente dão uma trégua ao
novo governante, brindando-o com muita tolerância e quase nenhuma
oposição. No governo de Lula, que assume com a transição
mais tranqüila e civilizada da história democrática,
o país deverá ter "100 dias" diferentes. Tudo indica que
se terá uma marca de serenidade ainda inédita na política
brasileira. Em 1985, o país vivia a comoção da morte
do presidente eleito, Tancredo Neves, e a posse de José Sarney,
então recém-saído das hostes partidárias da
ditadura. Na eleição seguinte, Fernando Collor assumiu com
o ímpeto de quem queria reinventar o mundo e confiscou a poupança.
O sucessor, Itamar Franco, foi empossado para um mandato-tampão,
e o presidente Fernando Henrique, ao ganhar o primeiro mandato, assumiu
diante de um eleitorado que se amedrontava com o dragão da inflação
e rezava para que a enésima tentativa de enfrentar o problema,
o Plano Real, lograsse êxito.
Enc. G. Person. Hist. Univ
 |
| NAPOLEÃO
BONAPARTE: exílio, poder, guerra e queda, tudo em três meses
|
Lula cumprirá seus primeiros 100 dias num país mais maduro.
Nunca antes o eleitor foi tão bem informado durante uma campanha
sobre as dificuldades do país e nunca antes, com o esmorecimento
dos embates ideológicos, se produziu tanto consenso sobre o caminho
a seguir e, portanto, ninguém espera pirotecnias salvacionistas.
Há, no entanto, uma mística em torno dos primeiros 100 dias,
que nem sempre se revelam a esperada lua-de-mel do presidente com o Congresso
Nacional. A bordo do Plano Real e embalado por 34 milhões de votos,
o presidente Fernando Henrique enfrentou um Congresso rebelde logo no
início do governo, ainda que tivesse, em tese, 70% de apoio parlamentar.
O primeiro susto veio no segundo mês de governo, quando sua popularidade
caiu de 70% para 36%. Em seguida, com o projeto de reforma da Previdência
Social, propondo o fim da aposentadoria por tempo de serviço e
criando a idade mínima de 65 anos para vestir o pijama, FHC viu
seu apoio erodir-se. Ao completar seus primeiros 100 dias, o presidente
vetou uma ajuda aos ruralistas e o Congresso derrubou o veto. Foram 431
votos contra o veto presidencial e apenas 82 a favor.
Com Lula,
é possível que seu prazo de validade seja um pouco maior
em razão da maturidade do eleitorado. Na década de 80, com
a volta das eleições diretas para governador, o eleitorado
premiou a oposição. Elegeu Franco Montoro em São
Paulo e Leonel Brizola no Rio de Janeiro, políticos à esquerda
do espectro político de então. Havia muita esperança
com a retomada de uma prática democrática e quase uma euforia
com o resultado das eleições. O eleitorado da época,
menos habituado que o atual a se manifestar nas urnas, achava que novas
figuras políticas poderiam provocar mudanças sensíveis
e rápidas. O entusiasmo acabou virando frustração,
diante da óbvia constatação de que os eleitos não
mudariam tudo de uma hora para outra. "O prazo de 100 dias é um
misticismo, apenas um símbolo mágico. Na verdade, não
existe um tempo definido", diz a socióloga Fátima Pacheco
Jordão. "O prazo de Lula, por exemplo, acho que deve superar os
100 dias", acrescenta ela. Por quê? Exatamente porque, mais habituado
à prática de ir às urnas, o eleitorado ganhou maturidade,
conhece mais as dificuldades do país e, por mais alta que seja
sua expectativa com o novo governo, sabe que é preciso paciência.
A mística
dos primeiros 100 dias surgiu na década de 30 do século
passado para definir o começo do governo de Franklin Delano Roosevelt,
que chegou à Casa Branca durante uma profunda recessão e
teve amplo apoio do Congresso para combatê-la. A imprensa americana
tomou o termo de empréstimo da história francesa. Em 1815,
Napoleão deixou a Ilha de Elba, onde se exilara, retornou à
França, reconquistou Paris, reinstalou-se no poder, preparou a
guerra contra o resto da Europa e foi definitivamente derrotado na Batalha
de Waterloo e tudo isso em apenas 100 dias. Nos Estados Unidos
e no Brasil, parece que os momentos de crise aguda ajudam a aliviar a
pressão parlamentar sobre o presidente. Roosevelt teve sucesso
no Congresso num momento tremendamente delicado da economia americana.
Outro presidente que teria 100 dias de glória no Congresso americano
foi Lyndon Johnson, que enfrentava as manifestações de pacifistas,
as reivindicações por direitos civis e o aumento do conflito
racial. No Congresso, os parlamentares lhe deram quase tudo o que pediu.
Roberto Castro/AE
 |
| FHC:
hostilidade no início do mandato, apesar dos 34 milhões de votos e
do sucesso do Plano Real |
Fernando Collor também assumiu numa hora de crise, em que a inflação
mensal beirava os 80%, e conseguiu aprovar no Congresso um pacotaço
que balançou o país. Em sua primeira semana como presidente,
ao encaminhar um pacote com 27 medidas provisórias ao Congresso,
no qual congelava os preços e confiscava a poupança dos
brasileiros, Collor despertou a ira dos parlamentares. O presidente não
consultou ninguém no Congresso antes de baixar o pacote. Apenas
comunicou o que decidira depois que o conteúdo já era público.
Sua intenção de anunciar as medidas da tribuna do Congresso
foi implodida. "O Parlamento não é carimbo de repartição
pública. O Collor só vem aqui por cima de meu cadáver",
desafiou, na época, o então deputado Ulysses Guimarães.
Apesar da animosidade inicial, um mês depois Collor obtinha do Congresso
uma vitória estrondosa todas as 27 medidas provisórias
foram aprovadas, inclusive a que seqüestrava a poupança dos
brasileiros por dezoito meses. Apenas treze medidas sofreram algum tipo
de alteração, embora nenhuma mudança tenha afetado
a essência das propostas.
Em geral,
o Congresso comporta-se com mais tolerância diante de um presidente
recém-empossado em decorrência da pressão da opinião
pública que, afinal, o elegeu e deseja seu sucesso. Nessas
circunstâncias, os parlamentares de oposição sentem-se
um pouco intimidados em desfraldar a bandeira da oposição
e acabar colhendo a repulsa popular, como se fossem urubus à procura
de carniça. Preferem usar esse tempo para analisar o comportamento
do novo governo. "Os primeiros dias são como os primeiros minutos
de uma luta de boxe. É o momento estratégico para estudar
o adversário. Só depois é que se parte para o confronto",
diz o cientista político Benedito Tadeu César, da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul. No mundo político brasileiro, há
uma fórmula de sucesso garantido com o Congresso os cargos,
em especial os de segundo escalão, que desfrutam de bastante poder
e chamam pouco a atenção. O ex-presidente José Sarney
usou esse recurso à exaustão. Ele ascendeu ao Palácio
do Planalto em condições precárias. Tinha de enfrentar
a sombra do mito Tancredo Neves, controlar um governo formado por antigos
adversários políticos e ainda domar a rebeldia de seu próprio
partido, o PMDB, que o considerava um oportunista. Com um estilo ameno
e afável, Sarney só conseguiu ganhar o apoio do Congresso
quando começou a falar grosso na língua em que muitos políticos
são fluentes o carguês.
Na primeira
semana como presidente, Sarney convocou os principais caciques do Congresso
para uma reunião. Dali em diante, informou, ele teria a palavra
final em matéria de nomeações. Mesmo mantendo no
cargo os 23 ministros indicados por Tancredo Neves, Sarney loteou os outros
15.000 cargos federais entre o PMDB e o PFL.
O loteamento chegou a tal ponto que alguns cargos foram distribuídos
entre os aliados por meio de sorteio. Com isso, Sarney obteve a docilidade
do Congresso. Em seus primeiros 100 dias, o então presidente conseguiu
até fazer com que o Congresso aprovasse, sem chiar, medidas que
aumentavam o imposto de renda retido na fonte, alternativa que Sarney
encontrou para tentar equilibrar as finanças do governo. A mística
dos 100 dias precisa ser encarada com cautela pelos governantes. É
natural que um novo presidente queira mostrar trabalho logo no início,
quando ainda esbanja a legitimidade popular conquistada nas urnas. O problema,
em geral, é que em três meses qualquer novo governo mal entendeu
ainda os mecanismos pelos quais funciona mesmo que tenha tido,
como foi o caso de Lula, acesso às informações centrais
por meio de uma equipe de transição. Não se trata
de uma peculiaridade brasileira. Hoje, os historiadores atribuem o fracasso
retumbante da invasão da Baía dos Porcos, na década
de 60, à completa ignorância de John Kennedy sobre como funcionavam
as forças militares e a CIA. A operação de invasão
de Cuba foi deslanchada no seu 87º dia de governo. Deu no que deu.
|
|
 |