Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 784 - 8 de janeiro de 2003
Brasil Sucessão

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
 

Lula assume a Presidência nos braços do povo
O discurso do presidente
Gente que fez a festa
A esquerda no poder
Os novos governadores
A mística da trégua dos primeiros 100 dias

Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Civita

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Contexto
Arc
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2003
Reportagens de capa
2000|01|02|03
Entrevistas
2000|01|02|03
Busca somente texto
96|97|98|99
2000
|01|02|03


Crie seu grupo




 

E se ele ainda fosse assim?

Uma reflexão sobre as chances de
Lula, caso tivesse sido eleito com o
discurso radical do passado

Maurício Lima


Antonio Ribeiro
LULA, nos tempos da barba e do verbo agressivo: ele próprio, hoje, agradece não ter sido vitorioso na disputa de 1989



Veja também
Nesta edição
Um dia para a história
Ele falou em mudar 14 vezes
As estrelas vermelhas
A dança da sucessão
Os primeiros 100 dias

Com seu bigode basto, óculos de aros pesados e um discurso formado por reluzentes chavões de esquerda, Salvador Allende ganhou as eleições para a Presidência do Chile no início da década de 70. Durou pouco, derrubado por um golpe militar sangrento comandado pelo general Augusto Pinochet. Com ajuda dos Estados Unidos, instalou-se no Chile uma ditadura militar feroz e acabou uma experiência de esquerda na América do Sul. Em meados da década seguinte, com visual de galã latino, jovem e sorridente, Alan García conquistou o poder no Peru. Era o início de outra experiência de esquerda no continente. Alan García decretou a moratória da dívida externa e tentou nacionalizar o sistema financeiro. O resultado foi devastador: a inflação média do país foi de 7.600% ao ano e os salários perderam 75% de seu valor real – além do mar de denúncias de corrupção que ajudaram a jogar no ostracismo a carreira do então presidente. Os exemplos chileno e peruano não são uma sugestão de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva será uma versão brasileira de Allende ou Alan García. Ao contrário.

"O Chile dos anos 70 e o Peru dos anos 80 são exemplos de descompasso entre o momento histórico do país e a evolução do partido de esquerda que o governou", diz Fernando Abrucio, cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Trocando em miúdos: mesmo sendo eleitos segundo as regras democráticas vigentes, Allende e García chegaram ao poder na hora errada. Lula da Silva concorre para ser uma exceção entre seus colegas de esquerda do passado: sua eleição, com 52 milhões de votos, resulta de uma conjunção harmônica entre o momento histórico do Brasil e a própria evolução do Partido dos Trabalhadores, tanto que a transição de governo se deu em clima de calma e ninguém previu a fuga de 800.000 empresários do país. Em 1989, quando o empresário Mario Amato fez a célebre previsão de êxodo empresarial, Lula quase chegou lá na disputa presidencial contra Fernando Collor de Mello. Naquela época, porém, o Brasil vivia outro momento, com uma democracia incipiente e uma economia desarrumada. O PT, por sua vez, também era outro partido.

Antonio Milena
MANIFESTANTES pedem renúncia do presidente: o PT apoiou o "Fora FHC"

Os petistas desfraldavam bandeiras que hoje estão enroladas e esquecidas, como a moratória da dívida externa e o controle estatal do sistema financeiro, as mesmas do peruano Alan García. Se tivesse sido eleito em 1989, com um Brasil e um PT tão diferentes dos de hoje, será que Lula teria conseguido governar? A resposta aparece nas conversas que o próprio presidente tem mantido com dirigentes petistas. Nessas ocasiões, Lula tem repetido duas coisas. A primeira é que, sem as mudanças no programa de governo e no estilo de atuação, o PT jamais teria vencido a eleição presidencial do ano passado, uma conclusão que se tornou generalizada dentro do partido, à exceção apenas das células talibãs. A segunda é que – por graça de Deus e obra do destino – o partido perdeu o pleito contra Fernando Collor, em 1989. O raciocínio de Lula é de que atualmente o PT tem condições de fazer um governo competente, devido ao amadurecimento de suas lideranças. Naquela época, o partido de Lula estava banhado pelas águas do fundamentalismo de esquerda – tanto na economia quanto na política.

Seus líderes estavam despreparados para o jogo democrático. O simples ato de fazer política sem radicalismo era por eles considerado uma prática típica da "democracia burguesa". Atuavam com tanto sectarismo que até aliados de esquerda freqüentemente denunciavam as "pretensões hegemônicas" do PT. Com certeza, o governo petista seria formado apenas por ministros petistas, abrindo-se exceção ao PC do B, que sempre esteve ao lado do PT nas disputas presidenciais. Em 1989, o PC do B ainda considerava a Albânia, o diminuto país europeu de onde multidões fugiam agarradas a cascos de navios, como o luminoso farol da humanidade. Hoje, o PC do B, que ficou com o Ministério dos Esportes, não pretende levantar nenhuma estátua de Enver Hoxha, o festejado stalinista albanês, nas quadras esportivas das escolas públicas. Além disso, a bancada parlamentar petista era pouco expressiva, com um senador e menos de trinta deputados. E, para piorar, Lula achava que o Congresso era composto de "300 picaretas" – declaração que poderia até ter fundo de verdade, mas que é um epitáfio perfeito para um governo que precisa, e todos precisam, de sustentação parlamentar.

Martin Mejia/AP
Santiago Llanquin/AP
GARCÍA, eleito presidente do Peru em 1985: cartilha clássica e fracasso total O SOCIALISTA Ricardo Lagos, presidente do Chile: esquerda que deu certo

"É possível que um governo petista em 1989 tivesse o mesmo fim de Collor, com impeachment", acredita Benedito Tadeu César, cientista político da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que tem vínculos com o PT. Ele ressalta que a especulação não se deve a escândalos de corrupção, o que acabou tirando Collor do Planalto, mas ao "fracasso econômico e às dificuldades de relacionamento de seu governo com o Congresso". Hoje, os tempos são diferentes para o país e para o PT. Eleito, Lula viajou para os Estados Unidos e voltou chamando o presidente George Bush, o filho, de aliado. É um mimo óbvio para dirigir a um país, como os EUA, que compra um terço de tudo o que se produz no mundo e aparece como principal importador das mercadorias brasileiras. Mas, em 1989, por força da formação antiimperialista, Lula não diria o mesmo sobre o então presidente George Bush, o pai. Em vez dos 300 picaretas, Lula hoje busca ardentemente apoio do Congresso e tentou até atrair a geléia do PMDB, o que não causa espanto algum para quem se aliou ao Partido Liberal na eleição.

"É inegável que a mudança do discurso e das ações coincidiu com o processo de crescimento do partido. O PT tornou-se palatável", define Maria Victoria Benevides, cientista política da Universidade de São Paulo. A mudança do PT não se deu, como nunca acontece num organismo dinâmico como um partido político, de forma linear e unânime. Cada alteração no programa e cada iniciativa típica da "democracia burguesa" foram seguidas de chiadeira dos radicais, mas foram lentamente ganhando volume. Na eleição presidencial de 1994, sumiram as referências ao controle estatal do sistema financeiro. Se tal bandeira estivesse ainda hoje no programa do PT, ninguém sabe se Lula teria sido eleito, mas é possível prever o efeito que sua eleição teria no mercado financeiro, nas bolsas de valores, na cotação do dólar, na fuga de capitais estrangeiros. No pleito seguinte, em 1998, o PT voltou a amenizar alguns pontos de seu programa e, pela primeira vez, abandonou a tática de concorrer com chapas puros-sangues e aliou-se ao PDT, colocando Leonel Brizola como candidato a vice.

O processo de maturação do partido deu-se com idas e vindas, marchas e contramarchas. Derrotada a chapa Lula-Brizola, no ano seguinte 50.000 manifestantes viajaram a Brasília para pedir a renúncia do presidente Fernando Henrique Cardoso – eram os tempos do "Fora FHC", tática política que ganhou o apoio de todos os diretórios estaduais do PT, à exceção dos dirigentes do Paraná. Pouco depois, porém, no encontro nacional do partido, em Belo Horizonte, enterrou-se o slogan "Fora FHC" e, pela primeira vez, apareceu um documento dizendo abertamente que o PT, caso eleito, não faria um "governo socialista". No ano seguinte, no entanto, o próprio presidente da legenda, deputado José Dirceu, hoje ministro-chefe da Casa Civil, apresentou um projeto na Câmara em que previa a realização de um plebiscito para decidir se o Brasil deveria ou não pagar a dívida externa. Se tal ponto constasse do programa de Lula, cabe o mesmo raciocínio: é difícil dizer se seria eleito, mas é fácil prever seu efeito no mercado. Mesmo a pregação de "ruptura" com o modelo econômico só saiu dos documentos do PT seis meses antes da eleição de 2002.

Como num movimento dialético, em que uma síntese produz uma sístole e uma diástole que acabam por se integrar numa nova síntese que, por sua vez, fará tudo recomeçar de novo, o PT e o Brasil mudaram e evoluíram até acertar o passo para o matrimônio nas urnas. O mesmo processo aconteceu nos países europeus, onde a esquerda abandonou os velhos dogmas e instalou-se no poder. Na América Latina, essa confluência é bem mais rara, mas não é propriamente um ineditismo. No mesmo Chile que derrubou Allende com a força das armas, a esquerda chegou lá. Há três eleições, o Chile é governado por uma aliança entre a democracia cristã e a esquerda, que teve o tino político de manter as conquistas econômicas, ainda que tivessem sido implementadas por um ditador sanguinário como Pinochet. Nas duas primeiras eleições, o cabeça de chapa era um representante da democracia cristã. Na última, o socialista Ricardo Lagos foi indicado como candidato a presidente e venceu o conservador Joaquín Lavín. Sem atropelos, o Chile segue crescendo a uma média de 4% ao ano. Naturalmente, o presidente Lula tem uma biografia pessoal raríssima, seja no Brasil, no Chile ou em qualquer lugar do mundo, mas sua ascensão ao poder apenas confirma o amadurecimento político de ambos – do Brasil e do próprio PT.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS