
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
E se ele ainda fosse
assim?
Uma reflexão
sobre as chances de
Lula, caso tivesse sido eleito com o
discurso radical do passado

Maurício
Lima
Antonio Ribeiro
 |
| LULA,
nos tempos da barba e do verbo agressivo: ele próprio, hoje,
agradece não ter sido vitorioso na disputa de 1989 |

Veja também |
|
|
|
Com seu bigode
basto, óculos de aros pesados e um discurso formado por reluzentes
chavões de esquerda, Salvador Allende ganhou as eleições
para a Presidência do Chile no início da década de
70. Durou pouco, derrubado por um golpe militar sangrento comandado pelo
general Augusto Pinochet. Com ajuda dos Estados Unidos, instalou-se no
Chile uma ditadura militar feroz e acabou uma experiência de esquerda
na América do Sul. Em meados da década seguinte, com visual
de galã latino, jovem e sorridente, Alan García conquistou
o poder no Peru. Era o início de outra experiência de esquerda
no continente. Alan García decretou a moratória da dívida
externa e tentou nacionalizar o sistema financeiro. O resultado foi devastador:
a inflação média do país foi de 7.600%
ao ano e os salários perderam 75% de seu valor real além
do mar de denúncias de corrupção que ajudaram a jogar
no ostracismo a carreira do então presidente. Os exemplos chileno
e peruano não são uma sugestão de que o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva será uma versão brasileira
de Allende ou Alan García. Ao contrário.
"O Chile
dos anos 70 e o Peru dos anos 80 são exemplos de descompasso entre
o momento histórico do país e a evolução do
partido de esquerda que o governou", diz Fernando Abrucio, cientista político
da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Trocando em miúdos:
mesmo sendo eleitos segundo as regras democráticas vigentes, Allende
e García chegaram ao poder na hora errada. Lula da Silva concorre
para ser uma exceção entre seus colegas de esquerda do passado:
sua eleição, com 52 milhões de votos, resulta de
uma conjunção harmônica entre o momento histórico
do Brasil e a própria evolução do Partido dos Trabalhadores,
tanto que a transição de governo se deu em clima de calma
e ninguém previu a fuga de 800.000 empresários
do país. Em 1989, quando o empresário Mario Amato fez a
célebre previsão de êxodo empresarial, Lula quase
chegou lá na disputa presidencial contra Fernando Collor de Mello.
Naquela época, porém, o Brasil vivia outro momento, com
uma democracia incipiente e uma economia desarrumada. O PT, por sua vez,
também era outro partido.
Antonio Milena
 |
| MANIFESTANTES
pedem renúncia do presidente: o PT apoiou o "Fora FHC" |
Os petistas
desfraldavam bandeiras que hoje estão enroladas e esquecidas, como
a moratória da dívida externa e o controle estatal do sistema
financeiro, as mesmas do peruano Alan García. Se tivesse sido eleito
em 1989, com um Brasil e um PT tão diferentes dos de hoje, será
que Lula teria conseguido governar? A resposta aparece nas conversas que
o próprio presidente tem mantido com dirigentes petistas. Nessas
ocasiões, Lula tem repetido duas coisas. A primeira é que,
sem as mudanças no programa de governo e no estilo de atuação,
o PT jamais teria vencido a eleição presidencial do ano
passado, uma conclusão que se tornou generalizada dentro do partido,
à exceção apenas das células talibãs.
A segunda é que por graça de Deus e obra do destino
o partido perdeu o pleito contra Fernando Collor, em 1989. O raciocínio
de Lula é de que atualmente o PT tem condições de
fazer um governo competente, devido ao amadurecimento de suas lideranças.
Naquela época, o partido de Lula estava banhado pelas águas
do fundamentalismo de esquerda tanto na economia quanto na política.
Seus líderes
estavam despreparados para o jogo democrático. O simples ato de
fazer política sem radicalismo era por eles considerado uma prática
típica da "democracia burguesa". Atuavam com tanto sectarismo que
até aliados de esquerda freqüentemente denunciavam as "pretensões
hegemônicas" do PT. Com certeza, o governo petista seria formado
apenas por ministros petistas, abrindo-se exceção ao PC
do B, que sempre esteve ao lado do PT nas disputas presidenciais. Em 1989,
o PC do B ainda considerava a Albânia, o diminuto país europeu
de onde multidões fugiam agarradas a cascos de navios, como o luminoso
farol da humanidade. Hoje, o PC do B, que ficou com o Ministério
dos Esportes, não pretende levantar nenhuma estátua de Enver
Hoxha, o festejado stalinista albanês, nas quadras esportivas das
escolas públicas. Além disso, a bancada parlamentar petista
era pouco expressiva, com um senador e menos de trinta deputados. E, para
piorar, Lula achava que o Congresso era composto de "300 picaretas"
declaração que poderia até ter fundo de verdade,
mas que é um epitáfio perfeito para um governo que precisa,
e todos precisam, de sustentação parlamentar.
Martin Mejia/AP
 |
Santiago Llanquin/AP
 |
| GARCÍA,
eleito presidente do Peru em 1985: cartilha clássica e fracasso total
|
O
SOCIALISTA Ricardo
Lagos, presidente do Chile: esquerda que deu certo |
"É
possível que um governo petista em 1989 tivesse o mesmo fim de
Collor, com impeachment", acredita Benedito Tadeu César, cientista
político da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que tem vínculos
com o PT. Ele ressalta que a especulação não se deve
a escândalos de corrupção, o que acabou tirando Collor
do Planalto, mas ao "fracasso econômico e às dificuldades
de relacionamento de seu governo com o Congresso". Hoje, os tempos são
diferentes para o país e para o PT. Eleito, Lula viajou para os
Estados Unidos e voltou chamando o presidente George Bush, o filho, de
aliado. É um mimo óbvio para dirigir a um país, como
os EUA, que compra um terço de tudo o que se produz no mundo e
aparece como principal importador das mercadorias brasileiras. Mas, em
1989, por força da formação antiimperialista, Lula
não diria o mesmo sobre o então presidente George Bush,
o pai. Em vez dos 300 picaretas, Lula hoje busca ardentemente apoio do
Congresso e tentou até atrair a geléia do PMDB, o que não
causa espanto algum para quem se aliou ao Partido Liberal na eleição.
"É
inegável que a mudança do discurso e das ações
coincidiu com o processo de crescimento do partido. O PT tornou-se palatável",
define Maria Victoria Benevides, cientista política da Universidade
de São Paulo. A mudança do PT não se deu, como nunca
acontece num organismo dinâmico como um partido político,
de forma linear e unânime. Cada alteração no programa
e cada iniciativa típica da "democracia burguesa" foram seguidas
de chiadeira dos radicais, mas foram lentamente ganhando volume. Na eleição
presidencial de 1994, sumiram as referências ao controle estatal
do sistema financeiro. Se tal bandeira estivesse ainda hoje no programa
do PT, ninguém sabe se Lula teria sido eleito, mas é possível
prever o efeito que sua eleição teria no mercado financeiro,
nas bolsas de valores, na cotação do dólar, na fuga
de capitais estrangeiros. No pleito seguinte, em 1998, o PT voltou a amenizar
alguns pontos de seu programa e, pela primeira vez, abandonou a tática
de concorrer com chapas puros-sangues e aliou-se ao PDT, colocando Leonel
Brizola como candidato a vice.
O processo
de maturação do partido deu-se com idas e vindas, marchas
e contramarchas. Derrotada a chapa Lula-Brizola, no ano seguinte 50.000
manifestantes viajaram a Brasília para pedir a renúncia
do presidente Fernando Henrique Cardoso eram os tempos do "Fora
FHC", tática política que ganhou o apoio de todos os diretórios
estaduais do PT, à exceção dos dirigentes do Paraná.
Pouco depois, porém, no encontro nacional do partido, em Belo Horizonte,
enterrou-se o slogan "Fora FHC" e, pela primeira vez, apareceu um documento
dizendo abertamente que o PT, caso eleito, não faria um "governo
socialista". No ano seguinte, no entanto, o próprio presidente
da legenda, deputado José Dirceu, hoje ministro-chefe da Casa Civil,
apresentou um projeto na Câmara em que previa a realização
de um plebiscito para decidir se o Brasil deveria ou não pagar
a dívida externa. Se tal ponto constasse do programa de Lula, cabe
o mesmo raciocínio: é difícil dizer se seria eleito,
mas é fácil prever seu efeito no mercado. Mesmo a pregação
de "ruptura" com o modelo econômico só saiu dos documentos
do PT seis meses antes da eleição de 2002.
Como num
movimento dialético, em que uma síntese produz uma sístole
e uma diástole que acabam por se integrar numa nova síntese
que, por sua vez, fará tudo recomeçar de novo, o PT e o
Brasil mudaram e evoluíram até acertar o passo para o matrimônio
nas urnas. O mesmo processo aconteceu nos países europeus, onde
a esquerda abandonou os velhos dogmas e instalou-se no poder. Na América
Latina, essa confluência é bem mais rara, mas não
é propriamente um ineditismo. No mesmo Chile que derrubou Allende
com a força das armas, a esquerda chegou lá. Há três
eleições, o Chile é governado por uma aliança
entre a democracia cristã e a esquerda, que teve o tino político
de manter as conquistas econômicas, ainda que tivessem sido implementadas
por um ditador sanguinário como Pinochet. Nas duas primeiras eleições,
o cabeça de chapa era um representante da democracia cristã.
Na última, o socialista Ricardo Lagos foi indicado como candidato
a presidente e venceu o conservador Joaquín Lavín. Sem atropelos,
o Chile segue crescendo a uma média de 4% ao ano. Naturalmente,
o presidente Lula tem uma biografia pessoal raríssima, seja no
Brasil, no Chile ou em qualquer lugar do mundo, mas sua ascensão
ao poder apenas confirma o amadurecimento político de ambos
do Brasil e do próprio PT.
|
|
 |