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Ele falou em
mudar 14 vezes
Mas,
no conteúdo do discurso de Lula,
vê-se que o novo presidente promete
continuar, aprimorar e aprofundar
as reformas econômicas e sociais
iniciadas por Fernando Henrique

Sandra Brasil
AP
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MUDANÇA
COM CUIDADO
O presidente Lula em seu discurso de posse no Congresso, na semana
passada: "Mudar com coragem e cuidado, humildade e ousadia, mudar
tendo consciência de que a mudança é um processo gradativo e continuado..." |

Veja também |
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Nos 45 minutos
de seu discurso de posse, no Congresso, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva empregou catorze vezes a palavra mudança e treze
vezes o termo fome. Também recitou, no início da fala, uma
cantilena que afaga os ouvidos radicais do PT: "Diante do esgotamento
de um modelo que, em vez de gerar crescimento, produziu estagnação,
desemprego e fome; diante do fracasso de uma cultura do individualismo,
do egoísmo, da indiferença perante o próximo, da
desintegração das famílias e das comunidades (...),
a sociedade brasileira escolheu mudar e começou, ela mesma, a promover
a mudança necessária". Mas, deixando de lado as concessões
aos lugares-comuns do esquerdismo, compreensíveis em um político
com a trajetória de Lula, o discurso do novo presidente foi uma
reafirmação dos princípios que nortearam o governo
de Fernando Henrique Cardoso. Deixou claro que existe uma linha de continuidade
entre ambos ao rejeitar rupturas tanto no plano institucional quanto no
econômico. Veja-se, por exemplo, o que FHC disse em seu discurso
de posse em 1995: "Mudanças bruscas, desligadas de uma visão
de longo prazo, podem satisfazer interesses conjunturais, mas não
constroem o perfil de um Estado responsável". Oito anos depois,
foi a vez de Lula afirmar: "Vamos mudar, sim. Mudar com coragem e cuidado,
humildade e ousadia, mudar tendo consciência de que a mudança
é um processo gradativo e continuado, não um simples ato
de vontade, não um arroubo voluntarista. Mudança por meio
de diálogo e negociação, sem atropelos ou precipitações,
para que o resultado seja consistente e duradouro".
Antes de
iniciar seu segundo mandato, em 1998, FHC disse que completaria as reformas
tão necessárias ao bom funcionamento do país
"não só a previdenciária e a administrativa, mas
a tributária, a política e a judiciária". O tucano
falhou, mas o petista promete levá-las até o fim: "O pacto
social será, igualmente, decisivo para viabilizar as reformas que
a sociedade brasileira reclama e que eu me comprometi a fazer: a reforma
da Previdência, a reforma tributária, a reforma política
e da legislação trabalhista, além da própria
reforma agrária". Quanto a esse último ponto, Lula fez questão
de afastar do horizonte as birutices coletivistas que compõem o
ideário do Movimento dos Sem-Terra. Falou que a reforma agrária
será realizada em terras ociosas (assim como ocorreu durante o
governo FHC) e que toda a política agrária de sua gestão
será compatível com "o nosso vigoroso apoio à pecuária
e à agricultura empresarial, à agroindústria e ao
agronegócio". Ou seja, se tudo der certo, e o ministro Miguel Rossetto
não tentar entrar para a história como o Trotsky do campesinato
brasileiro, não deverá demorar para que o capo do MST, João
Pedro Stedile, comece a vociferar contra "os porcos capitalistas do PT".
Orlando Brito
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POSSE
E IMPEACHMENT
Collor fez um discurso de posse elogiado, ao abordar temas relevantes
até hoje, muitos anos depois. Só que ficou lembrado
por um outro discurso feito no fim de seu governo, quando apelou ao
povo: "Não me deixem só" |
Um dia depois,
ao ser empossado no Ministério da Fazenda, Antônio Palocci
soou mais Pedro Malan do que nunca. Apesar de enfatizar sua preocupação
com os problemas sociais brasileiros e temperar sua fala com poesia (citou
o poema A Educação pela Pedra, de João Cabral
de Melo Neto), Palocci mostrou por que motivo tem se destacado, ao lado
de José Dirceu, como o integrante mais racional da cúpula
do governo petista. Ele assegurou que a nova administração
manterá as metas estabelecidas com o FMI e voltou a defender a
autonomia operacional do Banco Central. Algumas de suas frases merecem
ser gravadas em barras de ouro: "Não iremos provocar bolhas de
crescimento econômico a partir de uma permissividade perigosa com
a inflação". "Ministros da Fazenda são por dever
do ofício forçados a trabalhar com o cálice, nem
sempre doce, dos números e do realismo renitente, talvez até
irritante para os mais apressados." "A seriedade e responsabilidade na
gestão da coisa pública é uma herança inegável
na condução da política econômica do ministro
Pedro Malan e de sua equipe."
Diante de
tanto choque de realidade, coube ao novo ministro-chefe da Casa Civil,
José Dirceu, lançar mão de uma certa dose de romantismo.
Na sua posse, ele prometeu "uma verdadeira revolução social".
"Não tenho medo de dizer essa palavra. Nós devemos isso
ao nosso povo", disse ele. Dirceu também agradeceu ao ditador Fidel
Castro o apoio que recebeu quando esteve exilado em Cuba, e relembrou
os companheiros mortos pelo regime militar. Dirceu é sincero quando
fala dessas coisas. E é saudável que os integrantes do governo
petista tenham obsessão por justiça social, num país
desigual como o Brasil. Pelas demonstrações que tem dado
até agora, no entanto, não se esperem de José Dirceu
iniciativas de ruptura. Esta foi a frase que ele dirigiu ao colega Antônio
Palocci durante seu discurso de posse: "Palocci, pode ter certeza de que
você terá em mim uma fortaleza para defender a política
econômica decidida pelo presidente Lula".
Quando se
interpretam discursos de presidentes, as conclusões tiradas tendem
a dizer mais das preferências do intérprete do que das convicções
de quem discursou. Como todo texto lido antes de iniciado o mandato, o
discurso de posse deve ser tomado por aquilo que é uma carta
de intenções , e não por aquilo que muita gente
gostaria que ele fosse: um termo de compromisso. Desde a posse de Jânio
Quadros, em 1961, todos os presidentes prometeram matar o dragão
inflacionário, mas ele só seria aniquilado com a edição
do Plano Real, 33 anos mais tarde. Entre 1964 e 1984, as eleições
no Brasil foram suspensas e cinco generais do Exército sucederam-se
no poder. Ainda assim, quase todos os discursos de posse proferidos pelos
militares insistiam no tema da democracia. O marechal Castello Branco,
primeiro do ciclo militar, bateu um recorde: falou em democracia cinco
vezes em seu discurso. O terceiro presidente militar, Emílio Garrastazu
Médici, preferiu analisar o papel da oposição em
seu governo. Disse o seguinte em seu discurso de posse: "Espero da oposição
que nos honre com o cumprimento de seu dever, apontando erros, aceitando
acertos, indicando caminhos, fiscalizando e fazendo também a sua
escola de democracia, dignidade e respeito mútuo". A história
registra a maneira como Médici se relacionou com a oposição.
Censurou a imprensa, perseguiu adversários e proibiu manifestações
políticas.
São
raros os presidentes lembrados pelo que afirmaram em seu discurso de posse.
O caso mais emblemático é o do presidente Getúlio
Vargas. Só historiadores se recordam do que ele disse ao tomar
posse em 1951. Mas é famosa a frase redigida na carta-testamento,
antes de ele se matar, com um tiro no peito. "Eu vos dei a minha vida.
Agora, ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro
passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história".
O escritor
Carlos Figueiredo leu mais de 1.000 discursos para
escrever o livro 100 Discursos Históricos. Entre eles, Figueiredo
incluiu apenas dois discursos de posse de chefes de Estado em sua obra.
Um é o de Winston Churchill, ao ser nomeado primeiro-ministro inglês
durante a II Guerra Mundial. Ele pediu aos britânicos força
para resistir e fez uma declaração que ficaria famosa: "Eu
nada tenho a oferecer senão sangue, suor e lágrimas". Ao
tomar posse como presidente dos Estados Unidos, em 1961, John Kennedy
realizou um pronunciamento que marcou a sociedade americana ao propor
uma inversão: "Não pergunteis o que o vosso país
pode fazer por vós, e sim o que podeis fazer por vosso país".
O ex-presidente José Sarney costuma dizer que os discursos são
vitais para explicar as idéias do governo à sociedade e
dar um parâmetro à equipe. Mas, lembra ele, só o cotidiano
frio e solitário do Palácio do Planalto dá ao governante
uma idéia mais precisa daquilo que realmente pode fazer com a equipe,
o poder político e os recursos de que dispõe.
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