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Um dia
para a história
AP/Orlando Kissner
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NO
MEIO DO POVO
Lula acena à multidão em Brasília, a bordo do Rolls-Royce:
festa vibrante e riscos para a segurança pessoal do novo presidente
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''Quando
olho a minha própria vida de retirante nordestino, de menino
que vendia amendoim e laranja no cais de Santos, que se tornou torneiro
mecânico e líder sindical, que um dia fundou
o Partido
dos Trabalhadores e acreditou no que estava fazendo, que agora assume
o posto de supremo mandatário da nação, vejo
e sei, com toda a clareza e com toda a convicção, que
nós podemos muito mais.''
Trecho
do discurso de posse de Lula, no Congresso |

Acesso rápido |
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Veja também |
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A
primeira semana de janeiro de 2003 já está inscrita na história
brasileira. É histórica a chegada ao poder do ex-operário
que, durante o discurso de posse, resumiu em poucas palavras sua extraordinária
biografia de retirante nordestino a presidente da República. É
histórica a gigantesca e vibrante manifestação popular
que saudou, cantou, gritou e chorou na cerimônia de posse de Lula
em Brasília. Antes, já era histórica a votação
de Lula, eleito com quase 53 milhões de votos, ou 62% dos votos
úteis, a mais significativa votação da era democrática
brasileira e também uma das mais expressivas do mundo. Já
era histórico, também, seu vasto apoio para governar, com
76% do eleitorado, três semanas antes da posse, dizendo que acredita
no sucesso de seu governo o mais alto índice de otimismo
nos últimos treze anos, embora seja apenas ligeiramente superior
ao de seus antecessores. Com tantos ineditismos, Lula assume o comando
do país com um empuxo excepcional para o bem e para o mal.
A vantagem de ser ao mesmo tempo um fenômeno eleitoral e de massa,
qualidades que nem sempre aparecem juntas, está nas inéditas
condições de Lula para colocar seu programa de governo em
prática dado que não escapou à percepção
de alguns auxiliares que tomaram posse um dia depois da transmissão
da faixa presidencial. O ministro da Fazenda, Antônio Palocci Filho,
num discurso banhado por elogios ao antecessor, Pedro Malan, aproveitou
para dizer a que veio sem usar meias palavras. Anunciou que vai propor
a autonomia operacional do Banco Central, medida perseguida e saudada
pelo mercado, mas que causa engulhos a uma boa fatia da militância
petista. No projeto de Palocci, a diretoria do BC terá liberdade
para atuar, mas terá de atingir metas predeterminadas para índices
de inflação, nível de endividamento, volume de emissão
de moeda. Caso os objetivos não sejam cumpridos, os diretores estarão
sujeitos à demissão. Palocci também aproveitou para
dizer que seguirá de perto o "superávit necessário",
coisa que alguns petistas não gostam, mas o mercado adora: após
o discurso a bolsa fechou em alta e a cotação do dólar
caiu.
Orlando Kissner
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O
COMEÇO DA MARCHA
Palocci abraça Malan na troca de comando na Fazenda (foto)
e o presidente se reúne em seu gabinete com José Dirceu e o assessor
Gilberto Carvalho: prioridade no combate à fome |
Ao
assumir o Ministério da Previdência, o deputado Ricardo Berzoini
também percebeu a legitimidade social de Lula e anunciou a prioridade
de um dos aspectos mais complexos da nova gestão, que o ex-presidente
Fernando Henrique perseguiu sem sucesso durante oito anos: a reforma da
Previdência Social. Berzoini prometeu realizá-la ainda neste
ano, de modo que seus benefícios já possam materializar-se
no orçamento de 2004. A rapidez com que alguns ministros estão
assumindo seus cargos e anunciando metas ousadas é um sinal de
sintonia com o momento. Lula chega ao poder transformado num símbolo
e adorado como ídolo popular, o que lhe dá condições
raras de fazer seu governo deslanchar, inclusive com a realização
de reformas impopulares. Alguns ministros estão deixando evidente
que esse monumental capital político do novo presidente deve ser
gasto antes de erodir-se o que certamente ocorrerá no decorrer
do mandato pela própria dinâmica do cargo, da alta exposição
da figura presidencial, dos incidentes naturais de percurso e dos embates
inevitáveis com o Congresso.
Esse é o outro lado, o perigoso, da espetacular popularidade com
que Lula assume o poder. O presidente terá de estar preparado para
enfrentar, mais cedo ou mais tarde, o sentimento de decepção
de certas camadas da sociedade, já que é literalmente impossível
que sua gestão consiga agradar a todos e fazer tudo, transformando
o Brasil num país com índice sustentável de crescimento
e justiça social em apenas quatro anos de governo. É a hora,
portanto, de aproveitar o bom momento para fazer o que tem de ser feito,
usando da melhor maneira possível a lua-de-mel dos primeiros 100
dias de governo (veja reportagem).
Para tanto, é vital que os membros do governo petista, e o
próprio presidente, não se percam na noção
poética de que estão reinventando a história. Em
seu discurso para a massa que o saudava em frente ao parlatório
do Palácio do Planalto no dia da posse, Lula fez o que um líder
popular faz animou o público. Em referência a seu
projeto prioritário, o Fome Zero, disse que aquele era "o primeiro
dia de combate à fome" no Brasil, como se o país tivesse
sido criado ontem. Ou como se nenhum presidente antes dele tivesse tentado
combater a pobreza. Tal postura é natural na liturgia empolgada
dos discursos de massa, mas não pode ser levada ao pé da
letra no exercício do mandato.
Fotos J. F. Dorio/AE
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DE
VOLTA À VIDA COMUM
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua mulher, dona Ruth,
a bordo do vôo que os levou a Paris: visita à cabine dos pilotos e
dois meses de férias na capital francesa |
Nas
posses de quinta-feira passada, dois novos ministros petistas deram os
sinais mais eloqüentes de realismo e solidez. Um foi o ministro Palocci,
da Fazenda, que marcou as diferenças de política econômica
entre o antigo e o atual governo, mas não se furtou a elogiar a
gestão de Pedro Malan e falar de sua disposição de
preservar o que nela se criou de positivo. "A seriedade e a responsabilidade
na gestão da coisa pública são herança inegável
da condução da política do ministro Malan e sua equipe",
disse o novo ministro.
Com homens e mulheres, brancos e negros assumindo altos postos na administração,
o governo de Lula exibiu um grau maior de diversidade do que o de seus
antecessores. Até então, o dado mais visível era
o do ex-operário que chegara ao poder. Com a posse dos novos ministros,
a variedade da platéia e os diferentes tons dos discursos, ficou
mais evidente que esse governo tem uma fauna diversa e espelha o velho
cadinho brasileiro tem ex-seringueira, estrela pop, feministas,
empresários, ex-guerrilheiros, diplomatas.
De um lado, no discurso mais politizado de todas as posses, estava José
Dirceu, novo ministro-chefe da Casa Civil. Lembrou a ascensão da
esquerda ao poder, homenageou antigos companheiros, apresentou-se como
representante da geração de 1968, não esqueceu os
tombados na luta contra a ditadura militar e prometeu uma "verdadeira
revolução social", pois, disse ele, "para que o Brasil ocupe
seu lugar no mundo é preciso que nosso povo ocupe seu lugar no
Brasil". Sua mensagem não significa uma repentina inflexão
à esquerda. Dirceu fez um discurso para a platéia, mas tornou-se
conhecido no PT como o dirigente que enquadrou as alas radicais do partido
e trouxe a bandeira vermelha para uma posição de centro-esquerda
para ganhar eleições, e não perdê-las. Luiz
Dulci, novo secretário-geral da Presidência, um dos membros
do núcleo fundador do PT, também fez sua homenagem à
esquerda: "Vamos mudar sem mudar de lado".
Em outro diapasão, como a salientar a diversidade do governo, estava
o cantor e compositor Gilberto Gil, o novo ministro da Cultura. Numa cerimônia
descontraída, a estrela da música popular brasileira leu
dez páginas de um discurso baiano-tropicalista-filosófico-onírico-imagético.
Gil disse, por exemplo, que gosta da idéia da intervenção
estatal em favor da cultura. Para quê? "Para fazer uma espécie
de do-in antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente
desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do país." Foi uma
festa, recheada de expressões como "ouriçam planetariamente",
"transculturativas" e "semiodiversidade". Ninguém entendeu nada.
AP
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AP/Wanderlei Almeida
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A
FESTA POPULAR EM BRASÍLIA
Calcula-se que cerca de 150 000 pessoas ocuparam o centro do poder
em Brasília, agitando bandeiras vermelhas, invadindo o espelho d'água
do Congresso Nacional e carregando símbolos para saudar Lula e o PT,
na maior manifestação popular da história na posse de um presidente
da República: a segurança teve de ser reforçada depois que um manifestante
se agarrou ao pescoço de Lula e quase o derrubou do carro que o levava
ao Congresso |
AP/Dario Lopez-Mills
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AP
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Nas
ruas de Brasília, por onde desfilou no dia da posse, Luiz Inácio
Lula da Silva alcançou seu momento mais glorioso de ídolo
da massa petista que o aplaudia. Em alguns momentos, o desfile teve lances
assustadores, quando se leva em conta a necessidade de proteger a integridade
física de um presidente da República. Como se viu pela televisão,
os manifestantes ocupavam o asfalto bem junto ao carro de Lula e tentavam
encostar-se o mais que podiam no novo presidente. A onda humana agitava-se,
escorria em direção ao carro, refluía e os
seguranças pareciam baratas tontas no meio da confusão.
Movimentavam-se sem coordenação entre si e estavam todos
com o pânico estampado no rosto.
Um manifestante jogou-se a certa altura no pescoço de Lula, quase
derrubando o presidente de dentro do Rolls-Royce que o levava ao Congresso
Nacional. Mais tarde, outra manifestante furou a segurança, subiu
na rampa do Palácio do Planalto e conseguiu o que queria: posar
para uma foto ao lado do presidente. No dia seguinte, decepcionou-se quem
imaginava que tais cenas não voltariam a acontecer. Quando retornava
à Granja do Torto para receber o ditador cubano Fidel Castro num
jantar, Lula mandou parar o carro e misturou-se ao povo. Dessa vez, foi
tão tocado, tão agarrado e puxado que até mesmo ele,
um político habituado a andar no meio da massa e com um gosto genuíno
por esse tipo de contato, saiu assustado com o entusiasmo dos manifestantes.
Nunca antes a festa de posse de um presidente despertou tanto entusiasmo
popular. Nunca antes o Brasil teve um presidente tão ovacionado
nas ruas no momento em que toma posse. Talvez pelo ineditismo da ascensão
de Lula, o país não esteja propriamente habituado a lidar
com a segurança de um presidente tão próximo do povo
mas, com certeza, trata-se de um aprendizado urgente. O presidente,
por enquanto, está dando ordens a seus seguranças e não
obedece a eles. Terá agora de inverter a equação.
Eles precisam começar a dar as ordens e ele a obedecer. Como presidente,
Luiz Inácio Lula da Silva não é mais um cidadão
qualquer, nem mesmo um líder político de prestígio.
Ele é a encarnação do poder republicano na sua mais
alta esfera. Sua incolumidade física é assunto de interesse
de todos os brasileiros. Não se pode chegar perto de um presidente
sem licença prévia. Não se pode passar-lhe os braços
em torno do pescoço sem identificação de quem faz
esse gesto. Nas multidões podem estar desequilibrados dispostos
à prática da violência, e um presidente não
pode correr riscos desse tipo em hipótese alguma.
Logo depois da cerimônia de posse, Fernando Henrique e dona Ruth
embarcaram na primeira classe de um vôo de carreira para Paris,
onde passarão dois meses de férias. Dentro do avião,
o cenário era o oposto da festa em Brasília. O sempre discreto
Fernando Henrique entrou no jato sem que os outros passageiros fossem
informados de sua presença. Ele pediu que fosse assim. Guardadas
as diferenças entre um presidente que entra e outro que sai, Lula
deveria forçar-se um pouco a evitar o excesso de contato físico
com desconhecidos. Se não por discrição, que seja
pelo menos no interesse do país.
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