Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 784 - 8 de janeiro de 2003
Brasil Sucessão

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
 

Lula assume a Presidência nos braços do povo
O discurso do presidente
Gente que fez a festa
A esquerda no poder
Os novos governadores
A mística da trégua dos primeiros 100 dias

Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Civita

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Contexto
Arc
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2003
Reportagens de capa
2000|01|02|03
Entrevistas
2000|01|02|03
Busca somente texto
96|97|98|99
2000
|01|02|03


Crie seu grupo




 

Um dia para a história

AP/Orlando Kissner
NO MEIO DO POVO
Lula acena à multidão em Brasília, a bordo do Rolls-Royce: festa vibrante e riscos para a segurança pessoal do novo presidente
''Quando olho a minha própria vida de retirante nordestino, de menino que vendia amendoim e laranja no cais de Santos, que se tornou torneiro mecânico e líder sindical, que um dia fundou o Partido dos Trabalhadores e acreditou no que estava fazendo, que agora assume o posto de supremo mandatário da nação, vejo e sei, com toda a clareza e com toda a convicção, que nós podemos muito mais.''
Trecho do discurso de posse de Lula, no Congresso



Acesso rápido
Capas de VEJA
2000 | 2001 | 2002 | 2003
Veja também
  Galeria de fotos
Imagens da posse
Fidel em Brasília
Nesta edição
Ele falou em mudar 14 vezes
As estrelas vermelhas
E se ele ainda fosse assim?
A dança da sucessão
Os primeiros 100 dias

A primeira semana de janeiro de 2003 já está inscrita na história brasileira. É histórica a chegada ao poder do ex-operário que, durante o discurso de posse, resumiu em poucas palavras sua extraordinária biografia de retirante nordestino a presidente da República. É histórica a gigantesca e vibrante manifestação popular que saudou, cantou, gritou e chorou na cerimônia de posse de Lula em Brasília. Antes, já era histórica a votação de Lula, eleito com quase 53 milhões de votos, ou 62% dos votos úteis, a mais significativa votação da era democrática brasileira e também uma das mais expressivas do mundo. Já era histórico, também, seu vasto apoio para governar, com 76% do eleitorado, três semanas antes da posse, dizendo que acredita no sucesso de seu governo – o mais alto índice de otimismo nos últimos treze anos, embora seja apenas ligeiramente superior ao de seus antecessores. Com tantos ineditismos, Lula assume o comando do país com um empuxo excepcional – para o bem e para o mal.

A vantagem de ser ao mesmo tempo um fenômeno eleitoral e de massa, qualidades que nem sempre aparecem juntas, está nas inéditas condições de Lula para colocar seu programa de governo em prática – dado que não escapou à percepção de alguns auxiliares que tomaram posse um dia depois da transmissão da faixa presidencial. O ministro da Fazenda, Antônio Palocci Filho, num discurso banhado por elogios ao antecessor, Pedro Malan, aproveitou para dizer a que veio sem usar meias palavras. Anunciou que vai propor a autonomia operacional do Banco Central, medida perseguida e saudada pelo mercado, mas que causa engulhos a uma boa fatia da militância petista. No projeto de Palocci, a diretoria do BC terá liberdade para atuar, mas terá de atingir metas predeterminadas para índices de inflação, nível de endividamento, volume de emissão de moeda. Caso os objetivos não sejam cumpridos, os diretores estarão sujeitos à demissão. Palocci também aproveitou para dizer que seguirá de perto o "superávit necessário", coisa que alguns petistas não gostam, mas o mercado adora: após o discurso a bolsa fechou em alta e a cotação do dólar caiu.

 
Orlando Kissner
O COMEÇO DA MARCHA
Palocci abraça Malan na troca de comando na Fazenda (foto) e o presidente se reúne em seu gabinete com José Dirceu e o assessor Gilberto Carvalho: prioridade no combate à fome

Ao assumir o Ministério da Previdência, o deputado Ricardo Berzoini também percebeu a legitimidade social de Lula e anunciou a prioridade de um dos aspectos mais complexos da nova gestão, que o ex-presidente Fernando Henrique perseguiu sem sucesso durante oito anos: a reforma da Previdência Social. Berzoini prometeu realizá-la ainda neste ano, de modo que seus benefícios já possam materializar-se no orçamento de 2004. A rapidez com que alguns ministros estão assumindo seus cargos e anunciando metas ousadas é um sinal de sintonia com o momento. Lula chega ao poder transformado num símbolo e adorado como ídolo popular, o que lhe dá condições raras de fazer seu governo deslanchar, inclusive com a realização de reformas impopulares. Alguns ministros estão deixando evidente que esse monumental capital político do novo presidente deve ser gasto antes de erodir-se – o que certamente ocorrerá no decorrer do mandato pela própria dinâmica do cargo, da alta exposição da figura presidencial, dos incidentes naturais de percurso e dos embates inevitáveis com o Congresso.

Esse é o outro lado, o perigoso, da espetacular popularidade com que Lula assume o poder. O presidente terá de estar preparado para enfrentar, mais cedo ou mais tarde, o sentimento de decepção de certas camadas da sociedade, já que é literalmente impossível que sua gestão consiga agradar a todos e fazer tudo, transformando o Brasil num país com índice sustentável de crescimento e justiça social em apenas quatro anos de governo. É a hora, portanto, de aproveitar o bom momento para fazer o que tem de ser feito, usando da melhor maneira possível a lua-de-mel dos primeiros 100 dias de governo (veja reportagem). Para tanto, é vital que os membros do governo petista, e o próprio presidente, não se percam na noção poética de que estão reinventando a história. Em seu discurso para a massa que o saudava em frente ao parlatório do Palácio do Planalto no dia da posse, Lula fez o que um líder popular faz – animou o público. Em referência a seu projeto prioritário, o Fome Zero, disse que aquele era "o primeiro dia de combate à fome" no Brasil, como se o país tivesse sido criado ontem. Ou como se nenhum presidente antes dele tivesse tentado combater a pobreza. Tal postura é natural na liturgia empolgada dos discursos de massa, mas não pode ser levada ao pé da letra no exercício do mandato.

 
Fotos J. F. Dorio/AE
DE VOLTA À VIDA COMUM
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua mulher, dona Ruth, a bordo do vôo que os levou a Paris: visita à cabine dos pilotos e dois meses de férias na capital francesa

Nas posses de quinta-feira passada, dois novos ministros petistas deram os sinais mais eloqüentes de realismo e solidez. Um foi o ministro Palocci, da Fazenda, que marcou as diferenças de política econômica entre o antigo e o atual governo, mas não se furtou a elogiar a gestão de Pedro Malan e falar de sua disposição de preservar o que nela se criou de positivo. "A seriedade e a responsabilidade na gestão da coisa pública são herança inegável da condução da política do ministro Malan e sua equipe", disse o novo ministro.

Com homens e mulheres, brancos e negros assumindo altos postos na administração, o governo de Lula exibiu um grau maior de diversidade do que o de seus antecessores. Até então, o dado mais visível era o do ex-operário que chegara ao poder. Com a posse dos novos ministros, a variedade da platéia e os diferentes tons dos discursos, ficou mais evidente que esse governo tem uma fauna diversa e espelha o velho cadinho brasileiro – tem ex-seringueira, estrela pop, feministas, empresários, ex-guerrilheiros, diplomatas.

De um lado, no discurso mais politizado de todas as posses, estava José Dirceu, novo ministro-chefe da Casa Civil. Lembrou a ascensão da esquerda ao poder, homenageou antigos companheiros, apresentou-se como representante da geração de 1968, não esqueceu os tombados na luta contra a ditadura militar e prometeu uma "verdadeira revolução social", pois, disse ele, "para que o Brasil ocupe seu lugar no mundo é preciso que nosso povo ocupe seu lugar no Brasil". Sua mensagem não significa uma repentina inflexão à esquerda. Dirceu fez um discurso para a platéia, mas tornou-se conhecido no PT como o dirigente que enquadrou as alas radicais do partido e trouxe a bandeira vermelha para uma posição de centro-esquerda para ganhar eleições, e não perdê-las. Luiz Dulci, novo secretário-geral da Presidência, um dos membros do núcleo fundador do PT, também fez sua homenagem à esquerda: "Vamos mudar sem mudar de lado".

Em outro diapasão, como a salientar a diversidade do governo, estava o cantor e compositor Gilberto Gil, o novo ministro da Cultura. Numa cerimônia descontraída, a estrela da música popular brasileira leu dez páginas de um discurso baiano-tropicalista-filosófico-onírico-imagético. Gil disse, por exemplo, que gosta da idéia da intervenção estatal em favor da cultura. Para quê? "Para fazer uma espécie de do-in antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do país." Foi uma festa, recheada de expressões como "ouriçam planetariamente", "transculturativas" e "semiodiversidade". Ninguém entendeu nada.

 
AP
AP/Wanderlei Almeida
A FESTA POPULAR EM BRASÍLIA
Calcula-se que cerca de 150 000 pessoas ocuparam o centro do poder em Brasília, agitando bandeiras vermelhas, invadindo o espelho d'água do Congresso Nacional e carregando símbolos para saudar Lula e o PT, na maior manifestação popular da história na posse de um presidente da República: a segurança teve de ser reforçada depois que um manifestante se agarrou ao pescoço de Lula e quase o derrubou do carro que o levava ao Congresso
AP/Dario Lopez-Mills
AP

Nas ruas de Brasília, por onde desfilou no dia da posse, Luiz Inácio Lula da Silva alcançou seu momento mais glorioso de ídolo da massa petista que o aplaudia. Em alguns momentos, o desfile teve lances assustadores, quando se leva em conta a necessidade de proteger a integridade física de um presidente da República. Como se viu pela televisão, os manifestantes ocupavam o asfalto bem junto ao carro de Lula e tentavam encostar-se o mais que podiam no novo presidente. A onda humana agitava-se, escorria em direção ao carro, refluía – e os seguranças pareciam baratas tontas no meio da confusão. Movimentavam-se sem coordenação entre si e estavam todos com o pânico estampado no rosto.

Um manifestante jogou-se a certa altura no pescoço de Lula, quase derrubando o presidente de dentro do Rolls-Royce que o levava ao Congresso Nacional. Mais tarde, outra manifestante furou a segurança, subiu na rampa do Palácio do Planalto e conseguiu o que queria: posar para uma foto ao lado do presidente. No dia seguinte, decepcionou-se quem imaginava que tais cenas não voltariam a acontecer. Quando retornava à Granja do Torto para receber o ditador cubano Fidel Castro num jantar, Lula mandou parar o carro e misturou-se ao povo. Dessa vez, foi tão tocado, tão agarrado e puxado que até mesmo ele, um político habituado a andar no meio da massa e com um gosto genuíno por esse tipo de contato, saiu assustado com o entusiasmo dos manifestantes.

Nunca antes a festa de posse de um presidente despertou tanto entusiasmo popular. Nunca antes o Brasil teve um presidente tão ovacionado nas ruas no momento em que toma posse. Talvez pelo ineditismo da ascensão de Lula, o país não esteja propriamente habituado a lidar com a segurança de um presidente tão próximo do povo – mas, com certeza, trata-se de um aprendizado urgente. O presidente, por enquanto, está dando ordens a seus seguranças e não obedece a eles. Terá agora de inverter a equação. Eles precisam começar a dar as ordens e ele a obedecer. Como presidente, Luiz Inácio Lula da Silva não é mais um cidadão qualquer, nem mesmo um líder político de prestígio. Ele é a encarnação do poder republicano na sua mais alta esfera. Sua incolumidade física é assunto de interesse de todos os brasileiros. Não se pode chegar perto de um presidente sem licença prévia. Não se pode passar-lhe os braços em torno do pescoço sem identificação de quem faz esse gesto. Nas multidões podem estar desequilibrados dispostos à prática da violência, e um presidente não pode correr riscos desse tipo em hipótese alguma.

Logo depois da cerimônia de posse, Fernando Henrique e dona Ruth embarcaram na primeira classe de um vôo de carreira para Paris, onde passarão dois meses de férias. Dentro do avião, o cenário era o oposto da festa em Brasília. O sempre discreto Fernando Henrique entrou no jato sem que os outros passageiros fossem informados de sua presença. Ele pediu que fosse assim. Guardadas as diferenças entre um presidente que entra e outro que sai, Lula deveria forçar-se um pouco a evitar o excesso de contato físico com desconhecidos. Se não por discrição, que seja pelo menos no interesse do país.


 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS