
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Gostei
de ser vip
"Fui
a um show do ministro Gil na
favela da Rocinha. O espetáculo era
beneficente, mas só os favelados eram
obrigados a pagar ingresso. É um novo
modelo de redistribuição de renda, em
que todas as despesas recaem sobre os
pobres, em benefício dos ricos"
Ainda bem
que eu tinha uma pulseirinha vip. Dava acesso à área vip.
É singular que um espetáculo numa favela possa dispor de
uma área vip. Principalmente se a estrela do espetáculo
é Gilberto Gil, o ministro da Cultura de um governo eleito com
a promessa de diminuir as disparidades sociais. O espetáculo foi
na garagem de ônibus da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Nós,
vips, fomos acomodados no pátio do Ciep, 20 metros acima da garagem,
convenientemente separados dos favelados por um intransponível
muro de cimento. Estávamos na favela, mas longe dos favelados,
que pareciam ter sido postos ali apenas para dar uma cor local. A pulseirinha
vip garantia outros privilégios. Como naquela noite caía
um violento temporal, nós, vips, fomos alojados em tendas, enquanto
os favelados se ensopavam na platéia ao ar livre. Para eles, o
ingresso custava 5 reais. Para nós, era de graça. Em todas
as circunstâncias da vida, eu gostaria de ter uma pulseirinha vip,
que me assegurasse abrigo contra intempéries, distância do
resto da humanidade e alguém para pagar minhas contas.
O espetáculo
de Gil era beneficente. Tinha o propósito de arrecadar fundos para
a Casa da Cultura da Rocinha. Considerando que só os favelados
eram obrigados a pagar ingresso, Gil inaugurou um novo modelo de redistribuição
de renda, em que todas as despesas recaem sobre os pobres, em benefício
dos ricos. Não deu muito certo, porém. Favelados podem ser
pobres, mas não são tontos. A idéia de assistir a
um espetáculo de Gil, debaixo de chuva, e, ainda por cima, pagar
por isso, pareceu-lhes demais. O público era tão pequeno
que os organizadores do evento desistiram de cobrar ingresso, abrindo
os portões para quem quisesse entrar. Mesmo assim, a platéia
ficou deserta. Gil não gostou. Por punição, começou
a cantar com duas horas e meia de atraso, deixando os favelados na chuva.
Por melhores que fossem as intenções do novo ministro, não
consigo entender a lógica de um espetáculo beneficente que
arrecada infinitamente menos do que seu próprio custo. Não
teria sido melhor reverter o dinheiro público diretamente para
a Casa da Cultura da Rocinha, em vez de gastá-lo na montagem do
espetáculo? Confirma o que eu disse recentemente: o melhor serviço
que Gil pode prestar à cultura brasileira é parar de cantar.
Aliás, nem sei se vale a pena financiar uma Casa da Cultura na
Rocinha, com suas imagens de Iemanjás e Exus. O Brasil deveria
desistir dessa bobagem de querer ter uma cultura. Ninguém ia notar
a falta.
Gil cantou
covers de Bob Marley. Cover, para mim, é coisa de baile de debutante.
Pobre Gil. Já deu o que tinha de dar. Bob Marley, como se sabe,
era um apologista da maconha. Não tenho nada contra maconheiros.
Também não teria nada contra um ministro que admitisse fumar
maconha. Eu legalizaria todas as drogas, inclusive as pesadas. O único
aspecto meio inquietante é um ministro exaltar um maconheiro na
Rocinha, o maior ponto-de-venda de drogas do Rio de Janeiro, dominado
por traficantes do Comando Vermelho.
|
|
 |