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Edição 1 784 - 8 de janeiro de 2003
Entrevista: Jeremy Rifkin

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A era pós-petróleo

O ativista da elite americana diz que já
são visíveis os sinais de uma economia
independente dos combustíveis fósseis

Eduardo Salgado

Acesso rápido
Páginas Amarelas de VEJA
2000 | 2001 | 2002 | 2003

Professor da Wharton School, uma das mais renomadas escolas de administração dos Estados Unidos, Jeremy Rifkin, de 57 anos, ganhou fama como o ativista predileto da elite americana. Rifkin é uma espécie de consciência crítica dos poderosos a falar aos ouvidos de presidentes de grandes corporações e líderes políticos sobre os efeitos dos avanços científicos na sociedade, os limites da economia global e os ataques sofridos pela natureza. Em seu último livro, A Economia do Hidrogênio -- A Criação de uma Nova Fonte de Energia e a Redistribuição do Poder na Terra, Rifkin sustenta que, depois de séculos usando os combustíveis fósseis, a humanidade começa a dar os primeiros passos da era pós-petróleo. O autor de O Fim dos Empregos e de O Século da Biotecnologia é uma referência na área científica. Seus argumentos éticos contra a clonagem humana foram a base da proibição desse procedimento em diversos países. Casado, sem filhos, Rifkin falou a VEJA de Washington, onde mora há 32 anos e dirige a Fundação de Tendências Econômicas.

Veja – O senhor escreveu que estamos vivendo agora a encruzilhada decisiva do futuro do planeta. O que isso significa?
Rifkin –
Há dois futuros possíveis. Um positivo, que contará com a exploração de fontes de energia renováveis e com um novo regime energético baseado no hidrogênio. O segundo cenário é bastante negativo. Poderemos ter o aumento da tensão geopolítica e dos conflitos, o crescimento da desigualdade entre pobres e ricos e o salto da dívida externa dos países do Terceiro Mundo. Sem falar no aquecimento da Terra provocado pela poluição, o que terá efeitos devastadores no clima. Esse embate final entre os dois pontos futuros se dará nos próximos trinta anos. Nesse período, a humanidade poderá enfrentar o maior desafio para sua sobrevivência. Todas essas possibilidades negativas têm relação direta com o petróleo.

Veja – Com o fim do petróleo?
Rifkin –
Hoje, toda a economia mundial está baseada no uso de combustíveis fósseis, ou seja, basicamente de petróleo, gás e carvão. Nossa comida é fruto disso. Os petroquímicos são usados em fertilizantes e pesticidas. As máquinas são movidas a diesel. A maioria dos meios de transporte é movida a subprodutos do petróleo. Em muitos países, a queima de gás e carvão é a maior fonte de eletricidade. Os combustíveis fósseis estão nos materiais de construção, nos produtos farmacêuticos e nas roupas. Nos próximos trinta anos, poderemos ter uma mudança histórica de grandes proporções. Os sinais do começo do fim da era dos combustíveis fósseis são claros. E já se vislumbram os primeiros sintomas do nascimento de outra era, baseada no uso do hidrogênio como forma básica de produzir energia.

Veja – Que sinais o senhor enxerga do fim da era do petróleo?
Rifkin –
Os custos são insustentáveis. Os Estados Unidos já gastam mais com os militares para garantir a produção de petróleo no Oriente Médio que com a importação do produto. Isso sem contar os preparativos da guerra contra o Iraque. Quando tivermos usado metade das reservas de petróleo que pode ser extraído de forma barata, o preço do barril aumentará de forma contínua. A maioria dos especialistas acredita que temos cerca de 35 anos antes que a produção mundial de petróleo chegue ao pico. Nos últimos dois anos, vários geólogos de renome colocaram essa estimativa em xeque. De acordo com eles, o pico poderia chegar entre 2010 e 2020. Não sei quem está certo ou errado. O que interessa é que o pico está perto. E mais: uma vez que tenhamos usado metade das reservas, cerca de 65% do petróleo restante estará no Oriente Médio. Se hoje essa região já é problemática, imagine daqui a três décadas. Imagine o custo de extrair e manter seguras as instalações nessas regiões.

Veja – A iminente guerra dos Estados Unidos contra o Iraque faz parte desse capítulo final da era do petróleo?
Rifkin –
O presidente George W. Bush diz que talvez tenha de enviar tropas ao Iraque porque Saddam Hussein possui armas de destruição em massa. Acho que Bush é um homem honesto e acredito que essa seja mesmo a principal razão. Mas é claro que existem outros motivos. O Iraque tem a segunda maior reserva de petróleo do mundo. Bush e o vice-presidente americano Dick Cheney são homens da indústria petroleira. A invasão do Iraque será também uma maneira desesperada de obter mais petróleo.

Veja – O histórico da futurologia está cheio de previsões incorretas. O senhor não teme a possibilidade de estar errado?
Rifkin –
Não há dúvida de que me preocupo com essa possibilidade, mas acho que há evidências bastante plausíveis do que defendo. A PricewaterhouseCoopers, a empresa de consultoria internacional, prevê que o hidrogênio movimentará 1,7 trilhão de dólares em 2020. A indústria automobilística já gastou cerca de 2 bilhões de dólares em projetos de carros movidos a hidrogênio. Até 2002, o hidrogênio era apenas mais uma das tecnologias pesquisadas pelas grandes montadoras. Nos últimos meses, isso mudou. Todas as grandes montadoras estão numa corrida. Em setembro, a GM exibiu um carro a hidrogênio no Salão de Paris. Em vez de direção, tem um joystick. Não faz barulho nem polui. Imagine como a vida poderá mudar nas grandes cidades brasileiras. Imagine São Paulo e Rio de Janeiro sem nenhum barulho de automóvel ou caminhão. Apenas o ruído do pneu deslizando no asfalto. A produção em massa desses veículos está prevista para 2009. Em dezembro, a Toyota e a Honda venderam os primeiros carros nos Estados Unidos e no Japão. A Ford prevê que em 2020 todos os carros serão movidos a hidrogênio. Na verdade, não serão apenas veículos, mas usinas. Quando não estiverem em movimento, poderão ser usados para gerar eletricidade. Todas as usinas nos Estados Unidos poderiam ser desligadas se 25% dos carros no país gerassem energia enquanto estivessem parados.

Veja – Essas previsões não podem mudar?
Rifkin –
Neste ano, a General Electric começará a vender células de combustível em larga escala para residências, empresas e geradoras de energia. Nos Estados Unidos, cerca de trinta Estados já têm legislação que permite essa produção de energia e a venda do excedente. Nos últimos dois anos, vários países europeus adotaram leis semelhantes. Muitas empresas do Vale do Silício já compraram células para se precaver de possíveis apagões. Nos próximos três anos, veremos células substituindo baterias de celulares e computadores. Será possível usar o telefone por quarenta dias antes de recarregar o hidrogênio.

Veja – O senhor leva em conta a possibilidade de que se descubram novas reservas de petróleo e se criem tecnologias baratas para extraí-las?
Rifkin –
A Shell e a British Petroleum têm previsões muito semelhantes às minhas. Há sete anos, as grandes companhias de energia estão comprando todas as tecnologias de geração renovável que se mostram viáveis. Estão patenteando tudo o que podem e investindo em pesquisas com hidrogênio. Isso não quer dizer que pararam de procurar petróleo. Por várias décadas, teremos a produção de combustíveis fósseis e de energia à base de hidrogênio lado a lado. Isso terá conseqüências especiais para os países do Terceiro Mundo.

Veja – De que forma?
Rifkin –
Nunca antes na história da humanidade tivemos uma desigualdade tão grande entre ricos e pobres. Todas as noites, 1 bilhão de pessoas vão para a cama com fome. As 356 pessoas mais ricas do mundo têm, juntas, um patrimônio que equivale à renda anual de 40% da humanidade. Se isso não for resolvido, veremos mais revoltas políticas, instabilidade e imigrantes ilegais. Quando a Opep, o grupo de países exportadores de petróleo, impôs um embargo nos anos 70, o preço do barril subiu de 3 dólares para 12 dólares em menos de quatro meses. Nas últimas três décadas, muitos países do Terceiro Mundo se endividaram por causa do choque do petróleo. Hoje, de cada dólar emprestado ao Terceiro Mundo, 83 centavos são usados para pagar antigas dívidas. Manifestantes pedem o cancelamento das dívidas nas ruas de Porto Alegre, Seattle e Gênova. O problema é que a dívida poderá aumentar ainda mais se esses países continuarem dependentes da importação de petróleo.

Veja – O que o leva a pensar que o hidrogênio será a melhor alternativa?
Rifkin –
O hidrogênio é encontrado em qualquer parte do mundo em partes iguais. É o elemento básico do universo. Não corremos o menor perigo de ficar sem reservas de hidrogênio. Quando queimamos hidrogênio, o único subproduto é água. Uma água tão pura que se pode beber. Em 2030, estaremos vendo o começo do uso intensivo do hidrogênio. Milhões de pessoas produzirão a própria energia com "células de combustível" domésticas movidas a hidrogênio. A eletricidade que sobrar em cada casa ou fábrica será compartilhada numa rede descentralizada muito parecida com a internet. Essas células são uma espécie de bateria. Mas uma bateria que nunca acaba. O hidrogênio é colocado dentro da célula de combustível para gerar eletricidade. A boa notícia é que o hidrogênio está em todas as partes.

Veja – E a má notícia?
Rifkin –
A má notícia é que precisamos extraí-lo. Pode-se fazer isso a partir de combustíveis fósseis ou de água. Se usarmos combustíveis fósseis para extrair hidrogênio não estaremos resolvendo o problema das emissões de gás carbônico nem retardando o fim dos combustíveis fósseis. Por isso, o uso desses combustíveis será apenas transitório na era do hidrogênio. Para esse fim podemos usar a eletricidade gerada por fontes renováveis, como as hidrelétricas, eletrolisar a água e separar o hidrogênio. Por enquanto, isso é mais caro. Uma vez que a demanda aumente, o preço certamente cairá. O Brasil, que tem uma geração fantástica em suas hidrelétricas, pode sair na frente e se tornar um exemplo para o mundo. Quando geramos energia renovável com a água dos rios, o sol ou o vento, a eletricidade produzida flui imediatamente e precisa ser usada. Não há como estocar para utilizar mais tarde. Se as chuvas não vêm por meses, como aconteceu no Brasil, o país fica suscetível a apagões. O hidrogênio é a saída. Com ele, podemos estocar a energia das hidrelétricas e usá-la quando for necessário. A União Européia tem como objetivo gerar 22% da sua eletricidade com fontes renováveis até 2010 e percebeu que precisa de hidrogênio para estocar a energia.

Veja – O hidrogênio não é de manipulação e estocagem muito perigosas?
Rifkin –
Todo mundo se lembra do dirigível Hindenburg, que explodiu em 1937, nos Estados Unidos. Pesquisas recentes revelaram que não foi o hidrogênio que causou o incêndio no Hindenburg. A Nasa usa as células de combustível há trinta anos. Os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão já aprovaram o uso de tanques de hidrogênio para carros.

Veja – Se a questão do petróleo é tão central para o desenvolvimento, por que a Nigéria e a Venezuela, que têm grandes reservas, são nações pobres e caóticas?
Rifkin –
O problema da Nigéria é a corrupção. Mesmo na Venezuela e no México, outros dois países com grandes reservas, pode-se argumentar que os benefícios do petróleo não chegaram a todos os habitantes. No Kuwait e em outros países do Oriente Médio, a elite concentra os petrodólares. Não estou dizendo que o petróleo é tudo, mas inegavelmente é parte do problema.

Veja – O governo Bush é contra o Protocolo de Kioto, o tratado internacional para controlar as emissões de gás carbônico. O senhor é a favor da posição americana?
Rifkin –
De jeito nenhum. Os Estados Unidos têm menos de 5% da população mundial e consomem cerca de 30% de toda a energia produzida. Somos a nação que mais despeja dióxido de carbono na atmosfera. Ainda assim, o governo Bush se negou a assinar o Protocolo de Kioto. Argumentou que as exigências eram muito grandes. Para mim, o problema é justamente o contrário. O Protocolo de Kioto é muito tímido. Precisamos ser mais radicais. Apenas melhorar a eficiência do uso de energia não será suficiente.

Veja – Por quê?
Rifkin –
O aquecimento global é o lado obscuro da revolução industrial. Nos últimos 200 anos, a humanidade se beneficiou dos avanços decorrentes do uso dos combustíveis fósseis. Os maiores beneficiários foram as populações que vivem no Hemisfério Norte. Agora estamos pagando a conta. Décadas e décadas de combustão elevaram a concentração de gás carbônico na atmosfera. Isso dificulta a saída de calor da Terra e aumenta a temperatura. Muito já se discutiu sobre o aquecimento, mas foi em 2002 que o tema ganhou as salas de jantar e as mesas de bar de forma generalizada. Na Europa, tivemos o terceiro ano consecutivo de enchentes gigantescas. Os custos financeiros e os sofrimentos pessoais foram enormes. Nos Estados Unidos, tivemos secas recordes. Na Ásia, as pessoas estão assustadas com uma nuvem de poluição gigante. O número de pessoas mortas por causa de complicações respiratórias já chegou a cerca de 100.000. Uma vez que comece a nova era baseada no hidrogênio, reduziremos dramaticamente o aquecimento global, porque acabaremos com a emissão de gás carbônico.

Veja – Mas é provável que os países do Terceiro Mundo continuem dependentes da tecnologia dos países ricos para embarcar na provável era do hidrogênio, não?
Rifkin –
Milhões de pessoas não têm poder nenhum porque vivem sem eletricidade. Cerca de 65% dos seres humanos nunca fizeram uma chamada telefônica. Um terço das pessoas não tem acesso à luz elétrica. A questão central para o desenvolvimento é justamente eletricidade. A nova era do hidrogênio facilitará a geração de energia em lugares longínquos. Isso já é vital. É evidente que as grandes corporações tentarão controlar tudo com suas patentes e licenças, mas existe, pelo menos, a possibilidade de que os países do Terceiro Mundo invistam no setor e virem a mesa. O Brasil está em posição de criar um novo modelo de desenvolvimento aliando o hidrogênio na área energética à revolução no campo das comunicações. A idéia central é: produza localmente e venda globalmente. Será a globalização de baixo para cima.


 
 
   
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