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A era pós-petróleo
O ativista
da elite americana diz que já
são visíveis os sinais de uma economia
independente dos combustíveis fósseis

Eduardo Salgado

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Professor
da Wharton School, uma das mais renomadas escolas de administração
dos Estados Unidos, Jeremy Rifkin, de 57 anos, ganhou fama como o ativista
predileto da elite americana. Rifkin é uma espécie de consciência
crítica dos poderosos a falar aos ouvidos de presidentes de grandes
corporações e líderes políticos sobre os efeitos
dos avanços científicos na sociedade, os limites da economia
global e os ataques sofridos pela natureza. Em seu último livro,
A Economia do Hidrogênio -- A Criação de uma Nova
Fonte de Energia e a Redistribuição do Poder na Terra,
Rifkin sustenta que, depois de séculos usando os combustíveis
fósseis, a humanidade começa a dar os primeiros passos da
era pós-petróleo. O autor de O Fim dos Empregos e
de O Século da Biotecnologia é uma referência
na área científica. Seus argumentos éticos contra
a clonagem humana foram a base da proibição desse procedimento
em diversos países. Casado, sem filhos, Rifkin falou a VEJA de
Washington, onde mora há 32 anos e dirige a Fundação
de Tendências Econômicas.
Veja
O senhor escreveu que estamos vivendo agora a encruzilhada decisiva
do futuro do planeta. O que isso significa?
Rifkin
Há dois futuros possíveis. Um positivo, que contará
com a exploração de fontes de energia renováveis
e com um novo regime energético baseado no hidrogênio. O
segundo cenário é bastante negativo. Poderemos ter o aumento
da tensão geopolítica e dos conflitos, o crescimento da
desigualdade entre pobres e ricos e o salto da dívida externa dos
países do Terceiro Mundo. Sem falar no aquecimento da Terra provocado
pela poluição, o que terá efeitos devastadores no
clima. Esse embate final entre os dois pontos futuros se dará nos
próximos trinta anos. Nesse período, a humanidade poderá
enfrentar o maior desafio para sua sobrevivência. Todas essas possibilidades
negativas têm relação direta com o petróleo.
Veja
Com o fim do petróleo?
Rifkin Hoje, toda a economia mundial está baseada no
uso de combustíveis fósseis, ou seja, basicamente de petróleo,
gás e carvão. Nossa comida é fruto disso. Os petroquímicos
são usados em fertilizantes e pesticidas. As máquinas são
movidas a diesel. A maioria dos meios de transporte é movida a
subprodutos do petróleo. Em muitos países, a queima de gás
e carvão é a maior fonte de eletricidade. Os combustíveis
fósseis estão nos materiais de construção,
nos produtos farmacêuticos e nas roupas. Nos próximos trinta
anos, poderemos ter uma mudança histórica de grandes proporções.
Os sinais do começo do fim da era dos combustíveis fósseis
são claros. E já se vislumbram os primeiros sintomas do
nascimento de outra era, baseada no uso do hidrogênio como forma
básica de produzir energia.
Veja
Que sinais o senhor enxerga do fim da era do petróleo?
Rifkin Os custos são insustentáveis. Os Estados
Unidos já gastam mais com os militares para garantir a produção
de petróleo no Oriente Médio que com a importação
do produto. Isso sem contar os preparativos da guerra contra o Iraque.
Quando tivermos usado metade das reservas de petróleo que pode
ser extraído de forma barata, o preço do barril aumentará
de forma contínua. A maioria dos especialistas acredita que temos
cerca de 35 anos antes que a produção mundial de petróleo
chegue ao pico. Nos últimos dois anos, vários geólogos
de renome colocaram essa estimativa em xeque. De acordo com eles, o pico
poderia chegar entre 2010 e 2020. Não sei quem está certo
ou errado. O que interessa é que o pico está perto. E mais:
uma vez que tenhamos usado metade das reservas, cerca de 65% do petróleo
restante estará no Oriente Médio. Se hoje essa região
já é problemática, imagine daqui a três décadas.
Imagine o custo de extrair e manter seguras as instalações
nessas regiões.
Veja
A iminente guerra dos Estados Unidos contra o Iraque faz parte desse capítulo
final da era do petróleo?
Rifkin O presidente George W. Bush diz que talvez tenha
de enviar tropas ao Iraque porque Saddam Hussein possui armas de destruição
em massa. Acho que Bush é um homem honesto e acredito que essa
seja mesmo a principal razão. Mas é claro que existem outros
motivos. O Iraque tem a segunda maior reserva de petróleo do mundo.
Bush e o vice-presidente americano Dick Cheney são homens da indústria
petroleira. A invasão do Iraque será também uma maneira
desesperada de obter mais petróleo.
Veja
O histórico da futurologia está cheio de previsões
incorretas. O senhor não teme a possibilidade de estar errado?
Rifkin Não há dúvida de que me preocupo
com essa possibilidade, mas acho que há evidências bastante
plausíveis do que defendo. A PricewaterhouseCoopers, a empresa
de consultoria internacional, prevê que o hidrogênio movimentará
1,7 trilhão de dólares em 2020. A indústria automobilística
já gastou cerca de 2 bilhões de dólares em projetos
de carros movidos a hidrogênio. Até 2002, o hidrogênio
era apenas mais uma das tecnologias pesquisadas pelas grandes montadoras.
Nos últimos meses, isso mudou. Todas as grandes montadoras estão
numa corrida. Em setembro, a GM exibiu um carro a hidrogênio no
Salão de Paris. Em vez de direção, tem um joystick.
Não faz barulho nem polui. Imagine como a vida poderá mudar
nas grandes cidades brasileiras. Imagine São Paulo e Rio de Janeiro
sem nenhum barulho de automóvel ou caminhão. Apenas o ruído
do pneu deslizando no asfalto. A produção em massa desses
veículos está prevista para 2009. Em dezembro, a Toyota
e a Honda venderam os primeiros carros nos Estados Unidos e no Japão.
A Ford prevê que em 2020 todos os carros serão movidos a
hidrogênio. Na verdade, não serão apenas veículos,
mas usinas. Quando não estiverem em movimento, poderão ser
usados para gerar eletricidade. Todas as usinas nos Estados Unidos poderiam
ser desligadas se 25% dos carros no país gerassem energia enquanto
estivessem parados.
Veja
Essas previsões não podem mudar?
Rifkin Neste ano, a General Electric começará
a vender células de combustível em larga escala para residências,
empresas e geradoras de energia. Nos Estados Unidos, cerca de trinta Estados
já têm legislação que permite essa produção
de energia e a venda do excedente. Nos últimos dois anos, vários
países europeus adotaram leis semelhantes. Muitas empresas do Vale
do Silício já compraram células para se precaver
de possíveis apagões. Nos próximos três anos,
veremos células substituindo baterias de celulares e computadores.
Será possível usar o telefone por quarenta dias antes de
recarregar o hidrogênio.
Veja
O senhor leva em conta a possibilidade de que se descubram novas
reservas de petróleo e se criem tecnologias baratas para extraí-las?
Rifkin A Shell e a British Petroleum têm previsões
muito semelhantes às minhas. Há sete anos, as grandes companhias
de energia estão comprando todas as tecnologias de geração
renovável que se mostram viáveis. Estão patenteando
tudo o que podem e investindo em pesquisas com hidrogênio. Isso
não quer dizer que pararam de procurar petróleo. Por várias
décadas, teremos a produção de combustíveis
fósseis e de energia à base de hidrogênio lado a lado.
Isso terá conseqüências especiais para os países
do Terceiro Mundo.
Veja
De que forma?
Rifkin Nunca antes na história da humanidade tivemos
uma desigualdade tão grande entre ricos e pobres. Todas as noites,
1 bilhão de pessoas vão para a cama com fome. As 356 pessoas
mais ricas do mundo têm, juntas, um patrimônio que equivale
à renda anual de 40% da humanidade. Se isso não for resolvido,
veremos mais revoltas políticas, instabilidade e imigrantes ilegais.
Quando a Opep, o grupo de países exportadores de petróleo,
impôs um embargo nos anos 70, o preço do barril subiu de
3 dólares para 12 dólares em menos de quatro meses. Nas
últimas três décadas, muitos países do Terceiro
Mundo se endividaram por causa do choque do petróleo. Hoje, de
cada dólar emprestado ao Terceiro Mundo, 83 centavos são
usados para pagar antigas dívidas. Manifestantes pedem o cancelamento
das dívidas nas ruas de Porto Alegre, Seattle e Gênova. O
problema é que a dívida poderá aumentar ainda mais
se esses países continuarem dependentes da importação
de petróleo.
Veja
O que o leva a pensar que o hidrogênio será a melhor alternativa?
Rifkin O hidrogênio é encontrado em qualquer parte
do mundo em partes iguais. É o elemento básico do universo.
Não corremos o menor perigo de ficar sem reservas de hidrogênio.
Quando queimamos hidrogênio, o único subproduto é
água. Uma água tão pura que se pode beber. Em 2030,
estaremos vendo o começo do uso intensivo do hidrogênio.
Milhões de pessoas produzirão a própria energia com
"células de combustível" domésticas movidas a hidrogênio.
A eletricidade que sobrar em cada casa ou fábrica será compartilhada
numa rede descentralizada muito parecida com a internet. Essas células
são uma espécie de bateria. Mas uma bateria que nunca acaba.
O hidrogênio é colocado dentro da célula de combustível
para gerar eletricidade. A boa notícia é que o hidrogênio
está em todas as partes.
Veja
E a má notícia?
Rifkin A má notícia é que precisamos
extraí-lo. Pode-se fazer isso a partir de combustíveis fósseis
ou de água. Se usarmos combustíveis fósseis para
extrair hidrogênio não estaremos resolvendo o problema das
emissões de gás carbônico nem retardando o fim dos
combustíveis fósseis. Por isso, o uso desses combustíveis
será apenas transitório na era do hidrogênio. Para
esse fim podemos usar a eletricidade gerada por fontes renováveis,
como as hidrelétricas, eletrolisar a água e separar o hidrogênio.
Por enquanto, isso é mais caro. Uma vez que a demanda aumente,
o preço certamente cairá. O Brasil, que tem uma geração
fantástica em suas hidrelétricas, pode sair na frente e
se tornar um exemplo para o mundo. Quando geramos energia renovável
com a água dos rios, o sol ou o vento, a eletricidade produzida
flui imediatamente e precisa ser usada. Não há como estocar
para utilizar mais tarde. Se as chuvas não vêm por meses,
como aconteceu no Brasil, o país fica suscetível a apagões.
O hidrogênio é a saída. Com ele, podemos estocar a
energia das hidrelétricas e usá-la quando for necessário.
A União Européia tem como objetivo gerar 22% da sua eletricidade
com fontes renováveis até 2010 e percebeu que precisa de
hidrogênio para estocar a energia.
Veja
O hidrogênio não é de manipulação
e estocagem muito perigosas?
Rifkin Todo mundo se lembra do dirigível Hindenburg,
que explodiu em 1937, nos Estados Unidos. Pesquisas recentes revelaram
que não foi o hidrogênio que causou o incêndio no Hindenburg.
A Nasa usa as células de combustível há trinta anos.
Os Estados Unidos, a Alemanha e o Japão já aprovaram o uso
de tanques de hidrogênio para carros.
Veja
Se a questão do petróleo é tão central
para o desenvolvimento, por que a Nigéria e a Venezuela, que têm
grandes reservas, são nações pobres e caóticas?
Rifkin O problema da Nigéria é a corrupção.
Mesmo na Venezuela e no México, outros dois países com grandes
reservas, pode-se argumentar que os benefícios do petróleo
não chegaram a todos os habitantes. No Kuwait e em outros países
do Oriente Médio, a elite concentra os petrodólares. Não
estou dizendo que o petróleo é tudo, mas inegavelmente é
parte do problema.
Veja
O governo Bush é contra o Protocolo de Kioto, o tratado internacional
para controlar as emissões de gás carbônico. O senhor
é a favor da posição americana?
Rifkin De jeito nenhum. Os Estados Unidos têm menos de
5% da população mundial e consomem cerca de 30% de toda
a energia produzida. Somos a nação que mais despeja dióxido
de carbono na atmosfera. Ainda assim, o governo Bush se negou a assinar
o Protocolo de Kioto. Argumentou que as exigências eram muito grandes.
Para mim, o problema é justamente o contrário. O Protocolo
de Kioto é muito tímido. Precisamos ser mais radicais. Apenas
melhorar a eficiência do uso de energia não será suficiente.
Veja
Por quê?
Rifkin O aquecimento global é o lado obscuro da revolução
industrial. Nos últimos 200 anos, a humanidade se beneficiou dos
avanços decorrentes do uso dos combustíveis fósseis.
Os maiores beneficiários foram as populações que
vivem no Hemisfério Norte. Agora estamos pagando a conta. Décadas
e décadas de combustão elevaram a concentração
de gás carbônico na atmosfera. Isso dificulta a saída
de calor da Terra e aumenta a temperatura. Muito já se discutiu
sobre o aquecimento, mas foi em 2002 que o tema ganhou as salas de jantar
e as mesas de bar de forma generalizada. Na Europa, tivemos o terceiro
ano consecutivo de enchentes gigantescas. Os custos financeiros e os sofrimentos
pessoais foram enormes. Nos Estados Unidos, tivemos secas recordes. Na
Ásia, as pessoas estão assustadas com uma nuvem de poluição
gigante. O número de pessoas mortas por causa de complicações
respiratórias já chegou a cerca de 100.000.
Uma vez que comece a nova era baseada no hidrogênio, reduziremos
dramaticamente o aquecimento global, porque acabaremos com a emissão
de gás carbônico.
Veja
Mas é provável que os países do Terceiro Mundo
continuem dependentes da tecnologia dos países ricos para embarcar
na provável era do hidrogênio, não?
Rifkin Milhões de pessoas não têm poder
nenhum porque vivem sem eletricidade. Cerca de 65% dos seres humanos nunca
fizeram uma chamada telefônica. Um terço das pessoas não
tem acesso à luz elétrica. A questão central para
o desenvolvimento é justamente eletricidade. A nova era do hidrogênio
facilitará a geração de energia em lugares longínquos.
Isso já é vital. É evidente que as grandes corporações
tentarão controlar tudo com suas patentes e licenças, mas
existe, pelo menos, a possibilidade de que os países do Terceiro
Mundo invistam no setor e virem a mesa. O Brasil está em posição
de criar um novo modelo de desenvolvimento aliando o hidrogênio
na área energética à revolução no campo
das comunicações. A idéia central é: produza
localmente e venda globalmente. Será a globalização
de baixo para cima.
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