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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
O erro do
ministro Palocci
"Não é você, caro
leitor, que não entende
de economia, são
eles que não entendem
de contabilidade ou não querem entender"
Essa briga sobre o superávit
não terminou, vai continuar por mais dez anos, com ou sem
o ministro Palocci. Por isso, vale a pena entender o que se passa.
Superávit é quando se gasta menos do que se arrecada,
algo que toda empresa, governo e família deveriam almejar.
É a lei número 1 da administração.
Déficit é quando
se gasta mais do que se arrecada. Por mais de cinqüenta anos,
nossos governantes e seus economistas cobriram ou "encobriram" seus
déficits com a emissão de moeda, o que deu início
ao nosso flagelo inflacionário. Depois, contraíram
dívidas externa e interna impagáveis, para financiá-las.
Nos últimos dez anos e
no governo FHC, aumentaram os impostos para cobrir ainda mais déficits,
até chegar a esses sufocantes 45% de carga tributária.
Mesmo assim, os déficits do governo continuam, hoje na casa
de 3% do PIB.
Esse propalado "superávit"
primário não é um superávit, mas um
truque semântico. Não inclui os juros nem as amortizações
a pagar. É como achar que seu salário dá para
viver, excluindo a pensão dos filhos. Ou seja, nossos governos
continuam a não honrar todos os seus compromissos.
Ilustração Ale Setti
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Palocci tenta algo novo, reduzir déficits reduzindo custos.
Algo nunca feito antes. Mas comete erros graves de comunicação.
Por exemplo: o Tesouro Nacional, a título de imposto, retém
20% dos juros pagos, num total de 30 bilhões de reais. Você
acha que esses 30 bilhões deveriam ser receita do próprio
Ministério da Fazenda? Ou acredita que deveriam ser receita
da União, disponível para todos os outros ministros
gastarem? Responda, antes de continuar.
Se você acha que a receita
de imposto deveria ser um abatimento das despesas de juros do Ministério
da Fazenda, você defende a posição do Palocci.
Não é uma receita para outros gastarem, mas um abatimento
dos juros a pagar. Mas a lei estabelece que esses 30 bilhões
de reais são uma receita da União para ser gasta pelos
demais ministérios.
O mesmo ocorre com a segunda
maior despesa do país, a da Previdência. Não
deveria o próprio Ministério da Previdência
receber o imposto de renda das aposentadorias que paga, reduzindo
assim o "déficit" da Previdência? Afinal, se não
existisse Previdência não existiria essa receita de
imposto. Os outros ministérios têm o direito de gastar
aquilo que a Fazenda e a Previdência geraram de impostos?
Se Palocci, em vez de congelar
essas receitas, tivesse defendido a idéia de reduzir o imposto
sobre juros de 20% para 0%, que já propus várias vezes
aqui em VEJA, não sofreria esse desgaste todo, e teríamos
um juro 20% menor.
Não faz o menor sentido
econômico aumentar juros para reduzir a inflação,
e ao mesmo tempo oferecer 20% desse aumento como imposto para o
resto do governo sair gastando, o que é inflacionário.
Economistas monetaristas não percebem essa inconsistência,
que exige um juro maior e um esforço contracionista maior
do que o necessário?
Os ministérios deveriam
receber pelo menos parte dos impostos que cada um ajudou a gerar.
Isso aumenta a eficiência e o compromisso com resultados.
Essa deveria ser a bandeira de Dilma, de Furlan e de Rodrigues:
lutar pelos impostos sobre a produção que seus ministérios
conseguiram estimular. Pior ainda, os desenvolvimentistas não
percebem que estão querendo gastar 20% dos juros que tanto
combatem!
E agora vem o X da questão.
Esse déficit de 3% do PIB não dá nem para começar
a pagar a dívida de quase 1 trilhão de reais. Por
isso os juros são tão altos.
Só que, mais uma vez,
esse "déficit" fiscal não é um déficit.
Os bancos criaram uma maneira de reaver essa dívida, via
o truque dos "juros" nominais que já detalhei aqui e numa
longa Carta Aberta ao Ministro Palocci, que se encontra na
internet.
Não há déficit
fiscal porque nesses "juros nominais" já estão embutidos
entre 3% e 5% de amortização da dívida, escondidos
que estão nessa absurda doutrina que é o "nominalismo
econômico". Os bancos estão recebendo a dívida
de volta, sem ninguém perceber.
Quando "superávit" não
é superávit, "déficit" não é
déficit, "receita" não é receita, "juro nominal"
não é juro, qualquer discussão econômica
no Brasil se torna incompreensível, confusa e inócua.
Portanto, não é
você, caro leitor, que não entende de economia, são
eles que não entendem de contabilidade ou não
querem entender.
Stephen Kanitz é administrador
por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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