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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Do sonho de 1968 à
realidade do mensalão
José Dirceu virou
símbolo não da glória,
mas da perdição
de uma geração
O clima na Câmara dos Deputados
era quase de velório no exato momento em que se selou a sorte
do deputado José Dirceu. O plenário estava esvaziado.
Muitos deputados, cumprida a obrigação de votar, tinham
corrido ao aeroporto, para não perder o vôo ao estado
de origem. Outros tinham ido embora porque talvez não quisessem
mesmo assistir ao esperado desfecho. Quando, na apuração
a que se procedia na Mesa, se chegou ao voto "sim" de número
257, o que configurava uma maioria absoluta em favor da cassação,
não houve uma única manifestação.
Não seria mesmo de bom-tom
repetir as explosões de euforia com que o lado vencedor costuma
saudar o momento em que se definem as votações importantes
na casa. Afinal, era a cabeça de um colega que rolava. Mas
que alguém sussurrasse uma expressão de agrado ou
desagrado, que voltasse os olhos para o companheiro ao lado, em
sinal de aprovação ou desaprovação,
ou que fizesse um sinal de cabeça isso, pelo menos,
seria de esperar. Nada. Na mesa da Câmara, que era mostrada
por inteiro na TV, e onde se apinhavam os deputados encarregados
da apuração e da fiscalização, além
dos curiosos, ninguém se importou em dar sinal de que a sorte
estava selada. José Dirceu, como no verso célebre
de T.S. Eliot, teve sua morte política decretada "não
com um estrondo, mas com um murmúrio".
Convinha que assim fosse, e não
apenas pelo dever de discrição, pelo desgosto ou pelo
cansaço, que eventualmente acometiam a Câmara
havia outros motivos, mais profundos, para tristeza. Dirceu gosta
de se instituir em personificação da geração
de 1968. Nos momentos cruciais, ele, como Clark Kent quando vira
Superman, abre o paletó e exibe a fantasia de ícone
da geração do sonho e da rebeldia. Foi assim no discurso
emocionado com que tomou posse como ministro e assim também
em vários momentos quando, já tragado pelas denúncias
que haveriam de perdê-lo, fez discursos em sua defesa. Há
um tanto de exagero, e outro tanto de irritante pretensão,
nessa sua mania. Mas vá lá concedamos em tomá-lo
como símbolo dos moços e moças do belo e doido
ano de 1968. Nesse caso, e tendo em vista sua atuação
no poder, ele terá cumprido um ciclo que descreve não
a glória, mas a queda de uma geração, sugada
pelas vilezas da idade madura e pelas perversidades da política
brasileira.
Quem foi moço em 1968
e nos três ou quatro anos seguintes se lembra de um tipo de
sobressalto que costumava assaltá-lo no período. Olhava-se
para o companheiro de faculdade ou de emprego que ultimamente vinha
exibindo hábitos diferentes e indagava-se a si mesmo "Será
que ele aderiu?". A dúvida era se ele tinha aderido à
luta armada contra a ditadura. E a dúvida seguinte era: "Será
que devo aderir também?". Nos meios onde circulava a juventude
mais politizada, ébria de desejo de justiça, de contestação
e de Che Guevara, tais dúvidas eram freqüentes e mortificantes.
As décadas se passaram
e, hoje, quando aqueles antigos moços olham para o companheiro
que mudou de hábitos e se perguntam "Será que ele
aderiu?", a adesão a que se referem é à corrupção.
"Será que ele também?". Para alguns, a questão
seguinte será: "Estarei bancando o bobo não aderindo
igualmente?". O aceno antigo era por uma adesão equivocada,
mas movida a utopia. O de hoje é o aceno do bas-fond das
transações tenebrosas. Dirceu foi um ícone
da utopia, a aceitá-lo como personificação
de 1968. Acabou cassado por corrupção, ainda que não
em proveito próprio. Pode agora ser tido como símbolo
da perdição de uma geração.
A desgraça do ex-capitão
do time começou com um apelo vulgar, "Sai daí, Zé",
proferido pelo antigo aliado Roberto Jefferson, e terminou com uma
manifestação que até se diria cavalheiresca,
se não doesse no lombo as bengaladas que lhe desferiu,
na véspera da cassação, um senhor bem-composto,
de respeitável barba branca, que depois se soube chamar-se
Yves Hublet e ser autor de livros infantis. Se o apelo de Jefferson
traía o escracho característico da vida parlamentar
nos dias que correm, a agressão de Hublet, até pela
arma que escolheu, lembrava a nobreza vetusta do Parlamento do Império.
Talvez isso queira dizer alguma coisa, sabe-se lá, mas o
que quer dizer muito, isso sim, foi o insulto lançado pelo
agressor da bengala contra sua vítima. "Frestão!,
Frestão!", gritava ele, enquanto brandia o instrumento de
cabo prateado em forma de cabeça de pássaro que tinha
nas mãos.
O agressor não chamou
Dirceu de Dom Quixote. Chamou-o, ao contrário, pelo nome
do arquiinimigo do cavalheiro da Mancha, o mago Frestão,
cujos poderes perfidamente transformaram em moinhos de vento os
gigantes contra os quais Quixote havia investido, no momento mesmo
em que estava a ponto de derrotá-los. Dirceu não foi
identificado ao campeão das utopias, ainda que loucas, encarnado,
há quatro séculos, pelo herói de Cervantes.
Foi chamado, em vez disso, pelo nome do trapaceiro dos truques rasteiros.
Cumpria-se, na escolha do agressor, parábola similar à
que conduz do sonho de 1968 à realidade do mensalão.
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