Edição 1934 . 7 de dezembro de 2005

Índice
Stephen Kanitz
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Música
O ídolo discreto

Liderado por Eddie Vedder, o Pearl Jam
é uma das maiores bandas do mundo, mas
ainda age como se ensaiasse na garagem


Sérgio Martins


Fredy Vieira/Folha Imagem
Eddie Vedder em show na cidade de Porto Alegre: nada de clipes e ingressos a preços acessíveis

Em muitos sentidos, o Pearl Jam está para o rock dos anos 90 assim como o U2 para o rock dos anos 80. Os dois grupos têm cantores carismáticos, que abraçam causas sociais e fazem pregações políticas. Ambos, além disso, nasceram no circuito alternativo e explodiram para o grande público. E é aí que as histórias começam a divergir. O U2 resolveu jogar o jogo do mercado. O Pearl Jam, por sua vez, resolveu dizer não. Uma tornou-se a maior banda da atualidade. A outra se manteve, por assim dizer, no "lado B" do rock. O Pearl Jam se recusa a aparecer em clipes e campanhas de divulgação e dá raras entrevistas. "Uma vez que você faz a primeira concessão, passa a ter de aturar coisas cada vez piores", disse o vocalista Eddie Vedder em entrevista exclusiva a VEJA. Essa atitude resultou numa queda de popularidade e de vendagem de discos, mas poucas bandas despertam hoje em dia o mesmo tipo de devoção entre os "fiéis". Na semana passada, eles fizeram sua primeira turnê pelo Brasil. Tocaram em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro, para platéias de até 40.000 pessoas.

O grupo surgiu em 1990, na cidade americana de Seattle. Seus fundadores foram o baixista Jeff Ament e o guitarrista Stone Gossard, veteranos da cena local. Depois vieram o guitarrista Mike McCready e o baterista Dave Kruzen (o primeiro dos inúmeros ocupantes do posto – atualmente o titular é Matt Cameron). O toque final ficou por conta do vocalista. Eddie Vedder, surfista e funcionário de um posto de gasolina, foi apresentado ao quarteto por um amigo em comum. A banda lançou seu CD de estréia, Ten, em 1991. O disco vendeu 9 milhões de cópias nos Estados Unidos e lançou o Pearl Jam numa roda-viva. "Não fazia outra coisa senão trabalhar e me afastei dos amigos. A certa altura, percebi que tinha de mudar", diz o cantor.

Em 1993, o grupo decidiu tomar as rédeas da própria carreira. Vedder passou a aparecer em programas de TV escondido atrás de máscaras de monstro, e, finalmente, o grupo se fechou para a mídia. Eles resolveram limitar o preço das entradas para seus shows nos Estados Unidos, o que os pôs em rota de choque com a Ticketmaster, a maior empresa americana de venda de ingressos. Isso reduziu o número de locais onde eles podiam se apresentar. Finalmente, o Pearl Jam resolveu combater os piratas. Cansados de ver seus shows transformados em CDs, eles se anteciparam aos gatunos e criaram "piratas oficiais" – discos que gravam durante as próprias apresentações e vendem por preço baixo. Num primeiro pacote, lançaram 25 CDs duplos. Hoje já são oitenta álbuns desse tipo.

Muito do sucesso do Pearl Jam se deve ao carisma de Eddie Vedder. No mundo do rock, ele provoca dois tipos de reação: amor incondicional e desprezo. Os fãs do cantor de 40 anos admiram seu estilo messiânico e sua adesão a projetos humanitários. Recentemente, Vedder liderou um time de roqueiros num show para angariar dinheiro para as vítimas do furacão Katrina, em Nova Orleans. Seus detratores o acusam de forjar o papel de bonzinho para ganhar a simpatia – e principalmente o dinheiro – do público de rock. Entre os desafetos estão Anthony Kiedis, vocalista dos Red Hot Chili Peppers, e Courtney Love, viúva de Kurt Cobain. Em 1994, durante a cerimônia em memória ao marido, ela gritou: "Você morreu, mas Eddie Vedder está vivo. Isso o deixa feliz?". Entre os amigos estão Pete Townshend, guitarrista do The Who, e Johnny Ramone (1948-2004), guitarrista dos Ramones. Foi uma amizade que prosperou apesar das divergências políticas. Johnny era republicano. Admirava George W. Bush e defendeu a intervenção americana no Iraque. "Houve épocas em que a gente ficava sem se falar. Mas ele era meu amigo. E é sempre bom saber o que o outro lado pensa", diz Vedder.

Vedder pinta sua biografia em cores fortes. Era um adolescente recluso, com dificuldades de relacionamento com o pai – que, anos mais tarde, descobriu ser na verdade seu padrasto. Gosta de criar letras baseadas em fatos reais. "Jeremy é a história de um menino que se suicidou na frente dos colegas de escola. Eu o conheci, ele era uma pessoa triste", conta. Ele é casado e pai de Olivia, uma menina de 1 ano e meio que fez questão de trazer ao Brasil. Diz que atravessa uma boa fase da vida, com a família e o controle que conquistou sobre a carreira. Mas, de vez em quando, deixa o seu lado de estrela do rock aflorar. "Não é fácil ser Eddie Vedder", disse, ao encerrar sua conversa com VEJA.


Divulgação

 
 
 
 
topovoltar