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Música
O ídolo discreto
Liderado por Eddie Vedder, o Pearl Jam
é uma das maiores bandas do mundo, mas
ainda age como se ensaiasse na garagem

Sérgio Martins
Fredy Vieira/Folha Imagem
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| Eddie Vedder em show na cidade de Porto Alegre:
nada de clipes e ingressos a preços acessíveis
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Em muitos sentidos, o Pearl Jam
está para o rock dos anos 90 assim como o U2 para o rock
dos anos 80. Os dois grupos têm cantores carismáticos,
que abraçam causas sociais e fazem pregações
políticas. Ambos, além disso, nasceram no circuito
alternativo e explodiram para o grande público. E é
aí que as histórias começam a divergir. O U2
resolveu jogar o jogo do mercado. O Pearl Jam, por sua vez, resolveu
dizer não. Uma tornou-se a maior banda da atualidade. A outra
se manteve, por assim dizer, no "lado B" do rock. O Pearl Jam se
recusa a aparecer em clipes e campanhas de divulgação
e dá raras entrevistas. "Uma vez que você faz a primeira
concessão, passa a ter de aturar coisas cada vez piores",
disse o vocalista Eddie Vedder em entrevista exclusiva a VEJA. Essa
atitude resultou numa queda de popularidade e de vendagem de discos,
mas poucas bandas despertam hoje em dia o mesmo tipo de devoção
entre os "fiéis". Na semana passada, eles fizeram sua primeira
turnê pelo Brasil. Tocaram em Porto Alegre, Curitiba, São
Paulo e Rio de Janeiro, para platéias de até 40.000
pessoas.
O grupo surgiu em 1990, na cidade
americana de Seattle. Seus fundadores foram o baixista Jeff Ament
e o guitarrista Stone Gossard, veteranos da cena local. Depois vieram
o guitarrista Mike McCready e o baterista Dave Kruzen (o primeiro
dos inúmeros ocupantes do posto atualmente o titular
é Matt Cameron). O toque final ficou por conta do vocalista.
Eddie Vedder, surfista e funcionário de um posto de gasolina,
foi apresentado ao quarteto por um amigo em comum. A banda lançou
seu CD de estréia, Ten, em 1991. O disco vendeu 9
milhões de cópias nos Estados Unidos e lançou
o Pearl Jam numa roda-viva. "Não fazia outra coisa senão
trabalhar e me afastei dos amigos. A certa altura, percebi que tinha
de mudar", diz o cantor.
Em 1993, o grupo decidiu tomar
as rédeas da própria carreira. Vedder passou a aparecer
em programas de TV escondido atrás de máscaras de
monstro, e, finalmente, o grupo se fechou para a mídia. Eles
resolveram limitar o preço das entradas para seus shows nos
Estados Unidos, o que os pôs em rota de choque com a Ticketmaster,
a maior empresa americana de venda de ingressos. Isso reduziu o
número de locais onde eles podiam se apresentar. Finalmente,
o Pearl Jam resolveu combater os piratas. Cansados de ver seus shows
transformados em CDs, eles se anteciparam aos gatunos e criaram
"piratas oficiais" discos que gravam durante as próprias
apresentações e vendem por preço baixo. Num
primeiro pacote, lançaram 25 CDs duplos. Hoje já são
oitenta álbuns desse tipo.
Muito do sucesso do Pearl Jam
se deve ao carisma de Eddie Vedder. No mundo do rock, ele provoca
dois tipos de reação: amor incondicional e desprezo.
Os fãs do cantor de 40 anos admiram seu estilo messiânico
e sua adesão a projetos humanitários. Recentemente,
Vedder liderou um time de roqueiros num show para angariar dinheiro
para as vítimas do furacão Katrina, em Nova Orleans.
Seus detratores o acusam de forjar o papel de bonzinho para ganhar
a simpatia e principalmente o dinheiro do público
de rock. Entre os desafetos estão Anthony Kiedis, vocalista
dos Red Hot Chili Peppers, e Courtney Love, viúva de Kurt
Cobain. Em 1994, durante a cerimônia em memória ao
marido, ela gritou: "Você morreu, mas Eddie Vedder está
vivo. Isso o deixa feliz?". Entre os amigos estão Pete Townshend,
guitarrista do The Who, e Johnny Ramone (1948-2004), guitarrista
dos Ramones. Foi uma amizade que prosperou apesar das divergências
políticas. Johnny era republicano. Admirava George W. Bush
e defendeu a intervenção americana no Iraque. "Houve
épocas em que a gente ficava sem se falar. Mas ele era meu
amigo. E é sempre bom saber o que o outro lado pensa", diz
Vedder.
Vedder pinta sua biografia em
cores fortes. Era um adolescente recluso, com dificuldades de relacionamento
com o pai que, anos mais tarde, descobriu ser na verdade
seu padrasto. Gosta de criar letras baseadas em fatos reais. "Jeremy
é a história de um menino que se suicidou na frente
dos colegas de escola. Eu o conheci, ele era uma pessoa triste",
conta. Ele é casado e pai de Olivia, uma menina de 1 ano
e meio que fez questão de trazer ao Brasil. Diz que atravessa
uma boa fase da vida, com a família e o controle que conquistou
sobre a carreira. Mas, de vez em quando, deixa o seu lado de estrela
do rock aflorar. "Não é fácil ser Eddie Vedder",
disse, ao encerrar sua conversa com VEJA.
Divulgação

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