|
|
Especial
Deficiências macroeconômicas
O QUE SÃO
As distorções principalmente juros altos provocadas
pelo desequilíbrio nas contas do governo QUEM
PERDE MAIS A indústria automobilística e, em menor grau,
a construção e a agricultura IMPACTO
Juros altos incentivam investimentos financeiros mas inibem os produtivos
de longo prazo COMO SUPERAR Controlar
os gastos públicos e criar condições reais para a queda dos
juros
Germano Luders  |
| BANCOS BRASILEIROS A
produtividade dos melhores supera a dos americanos |
Juro e câmbio
são fatores de peso. Mas é um erro deixar que eles dominem as discussões
econômicas. Segundo o estudo da McKinsey, os entraves macroeconômicos
sobre a produtividade da máquina econômica brasileira podem ser calculados
em 13%. São menores, portanto, do que as influências negativas da
informalidade. Se não se devem tomar os juros altos como um fato da vida
tão imutável quanto o nascer e o pôr-do-sol, também
é tolo acreditar que eles podem ser baixados por decreto. Se fosse assim,
Fernando Henrique, antes, e Lula, agora, teriam feito isso no primeiro dia do
mandato. Por que não o fizeram? Não é por serem subordinados
dos banqueiros. Essa é uma visão simplista e inútil. Os juros
não podem ser baixados à força, da mesma forma que não
adianta colocar o termômetro na geladeira para combater a febre. Juros altos
são sintoma de distorções macroeconômicas em
especial da relação entre a dívida pública e o PIB.
Dependem também da qualidade da dívida. A relação
dívida versus PIB do Brasil é alta (mais de 50%) e sua qualidade,
baixa: os vencimentos são de curto prazo. Portanto, enquanto
essa distorção não for atacada com cortes pesados nos gastos
do poder público, os juros, mesmo em queda, serão um dado da vida
econômica brasileira. Como os juros altos tendem a valorizar a moeda, o
real pode manter-se sobrevalorizado por um bom tempo. Como
esses fatores afetam a produtividade, por exemplo, de uma montadora? Quase todo
o crédito disponível no país é direcionado para os
papéis do governo, que pagam taxas cheias e sem risco. Sobra pouco crédito
para financiar carros. Resultado: a baixa renda do consumidor e a falta de crédito
incentivam a produção de automóveis baratos, com menos avanços
tecnológicos. Como conseqüência, as montadoras brasileiras tendem
a ficar defasadas em relação às dos países mais avançados.
Tem conserto? Sim, mas o Brasil não pode apelar para barbeiragens como
uma redução irresponsável dos juros, a fixação
artificial de uma taxa de câmbio ou uma investida impetuosa aos cofres públicos.
Tais medidas podem gerar bolhas de consumo momentâneas. O preço disso
é alimentar novas distorções, uma vez que o mercado pode
duvidar das intenções reais do governo com relação
à disciplina fiscal. Resultado: para reafirmar seu compromisso, o Banco
Central pode ser obrigado a elevar os juros a patamares ainda mais altos do que
aqueles que vigoravam antes da bolha de consumo. |