Edição 1934 . 7 de dezembro de 2005

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Especial
Deficiências macroeconômicas

O QUE SÃO
As distorções – principalmente juros altos – provocadas pelo desequilíbrio nas contas do governo

QUEM PERDE MAIS
A indústria automobilística e, em menor grau, a construção e a agricultura

IMPACTO
Juros altos incentivam investimentos financeiros mas inibem os produtivos de longo prazo

COMO SUPERAR
Controlar os gastos públicos e criar condições reais para a queda dos juros

 

Germano Luders
BANCOS BRASILEIROS – A produtividade dos melhores supera a dos americanos

NESTA EDIÇÃO
O grande salto
Informalidade
Problemas regulatórios
Má qualidade do serviço público
Infra-estrutura

Juro e câmbio são fatores de peso. Mas é um erro deixar que eles dominem as discussões econômicas. Segundo o estudo da McKinsey, os entraves macroeconômicos sobre a produtividade da máquina econômica brasileira podem ser calculados em 13%. São menores, portanto, do que as influências negativas da informalidade. Se não se devem tomar os juros altos como um fato da vida tão imutável quanto o nascer e o pôr-do-sol, também é tolo acreditar que eles podem ser baixados por decreto. Se fosse assim, Fernando Henrique, antes, e Lula, agora, teriam feito isso no primeiro dia do mandato. Por que não o fizeram? Não é por serem subordinados dos banqueiros. Essa é uma visão simplista e inútil. Os juros não podem ser baixados à força, da mesma forma que não adianta colocar o termômetro na geladeira para combater a febre. Juros altos são sintoma de distorções macroeconômicas – em especial da relação entre a dívida pública e o PIB. Dependem também da qualidade da dívida. A relação dívida versus PIB do Brasil é alta (mais de 50%) e sua qualidade, baixa: os vencimentos são de curto prazo.

Portanto, enquanto essa distorção não for atacada com cortes pesados nos gastos do poder público, os juros, mesmo em queda, serão um dado da vida econômica brasileira. Como os juros altos tendem a valorizar a moeda, o real pode manter-se sobrevalorizado por um bom tempo.

Como esses fatores afetam a produtividade, por exemplo, de uma montadora? Quase todo o crédito disponível no país é direcionado para os papéis do governo, que pagam taxas cheias e sem risco. Sobra pouco crédito para financiar carros. Resultado: a baixa renda do consumidor e a falta de crédito incentivam a produção de automóveis baratos, com menos avanços tecnológicos. Como conseqüência, as montadoras brasileiras tendem a ficar defasadas em relação às dos países mais avançados. Tem conserto? Sim, mas o Brasil não pode apelar para barbeiragens como uma redução irresponsável dos juros, a fixação artificial de uma taxa de câmbio ou uma investida impetuosa aos cofres públicos. Tais medidas podem gerar bolhas de consumo momentâneas. O preço disso é alimentar novas distorções, uma vez que o mercado pode duvidar das intenções reais do governo com relação à disciplina fiscal. Resultado: para reafirmar seu compromisso, o Banco Central pode ser obrigado a elevar os juros a patamares ainda mais altos do que aqueles que vigoravam antes da bolha de consumo.

 
 
 
 
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